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Tiroide. O cancro discreto e silencioso que é dos que menos mata

Tiroide. O cancro discreto e silencioso que é dos que menos mata

Dreamstime Beatriz Dias Coelho 25/09/2018 21:59

Entre os vários tipos de cancro, o da tiroide tem uma das melhores taxas de sobrevivência. Estar atento e garantir que o diagnóstico é feito precocemente é fundamental. E não recorrer à internet também, diz ao i Francisco da Cunha, que já passou por isso em 2011

Uma em cada dez pessoas sofre de problemas de tiroide em Portugal. Mais de um milhão de portugueses sofrem de doenças que afetam a glândula e, no mundo, o número chega aos 300 milhões. Entre as doenças da tiroide, o cancro é motivo de especial preocupação: todos os anos, por cá, estima-se que surjam mais de 500 casos de cancro da tiroide, mas metade dos casos continuam por diagnosticar por se tratar de uma doença silenciosa, com sintomas que passam facilmente despercebidos.

Assim foi com Francisco da Cunha, de 41 anos. Foi numa consulta de rotina com o médico de clínica-geral que soube que poderia ter cancro, em 2011. “Devo ter feito algum comentário ao médico, enquanto ele me estava a auscultar – acho que disse que estava mais cansado ou agitado – e ele apalpou-me a tiroide e sentiu um pequeno nódulo. Disse-me que à partida não devia ser nada, porque nódulos na tiroide muita gente tem, mas ainda assim prescreveu-me análises e outros exames”, recorda ao i. Francisco fez então uma primeira biopsia, mas o resultado não foi conclusivo. À segunda, nada de final se tirou. Finalmente, a terceira sugeria carcinoma papilar.

“Em março tinha nascido a minha filha e dois meses depois foi quando soube o diagnóstico. O choque foi muito grande, em especial por causa da minha filha, porque na altura pensei que se calhar não ia assistir ao crescimento dela. Mas depois segui as indicações médicas e andei para a frente. Em julho, soube que ia ter de fazer cirurgia”, conta. Na cirurgia foi submetido a uma tiroidectomia total, algo que lhe deixou consequências para a vida toda. “A remoção da tiroide afetou-me totalmente porque a tiroide dá-nos equilíbrio hormonal, emocional, de peso. Agora, tomo um medicamento que substitui a tiroide”, explica. Localizada no pescoço, a tiroide, através da secreção e do armazenamento de hormonas no sangue, controla o metabolismo e diversas funções do corpo.

Depois da cirurgia, seguiu-se um tratamento de iodo radioativo, que obrigou Francisco a ficar internado durante três dias, em isolamento total. Ao fim desses dias, voltou para casa, mas o isolamento manteve-se. “Quando voltei para casa, a minha mulher e a minha filha tiveram de sair, porque era desaconselhável estar perto delas por causa da radioatividade. Foi um período complicado”, lamenta.

Sete anos passados, Francisco continua a ser acompanhado todos os anos e a submeter-se a exames uma vez por ano. “Tecnicamente estou curado há dois ou três anos. Felizmente, fui diagnosticado muito cedo e o tumor era localizado”, refere.

Na semana do Dia da Sensibilização para o Cancro da Tiroide, assinalado a 24 de setembro, Francisco deixa um conselho aos recém-diagnosticados: “A pessoa quando tem a notícia vai a correr para a Internet e isso é muito mau. Não façam isso porque o cancro da tiroide é dos cancros que, se for diagnosticado cedo, tem muita probabilidade de sucesso. O diagnóstico não é um atestado de óbito e se forem para a Internet julgam que é”.

Taxa de sobrevivência elevada O cancro da tiroide é um dos que apresenta uma das taxas de sobrevivência mais elevadas – vitima apenas 50 pessoas por ano em Portugal –, mas para os números contribui muito em especial o diagnóstico precoce (ainda que os sinais nem sempre sejam claros). Entre os cancros que afetam a glândula, 90% corresponde ao chamado cancro diferenciado, segundo explica ao i Maria João Oliveira, endocrinologista do do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. “O cancro diferenciado da tiroide pode ser papilar ou folicular – tem origem nas células foliculares da tiroide e ou se organiza em papilas ou em folículos”, esclarece. Além deste tipo de cancro, existe também “o cancro medular da tiroide e o indiferenciado, que são completamente diferentes porque têm um prognóstico muito pior”, continua. De forma geral, segundo a especialista, “podemos dizer que o prognóstico do cancro da tiroide é muito bom”, apesar de por vezes surgirem doentes com diagnóstico de cancro diferenciado num estádio já muito avançado.

Ao “muito bom” prognóstico do cancro da tiroide, junta-se o facto de a mortalidade ser “muito baixa”, ainda que nos últimos anos os números de diagnóstico tenha vindo a aumentar. E qual a explicação atribuída pelos especialistas a esse aumento? “As pessoas hoje fazem mais exames e, além disso, os meios auxiliares de diagnóstico têm uma acuidade diagnóstica cada vez maior. Hoje, temos ecografias que conseguem detetar nódulos milimétricos que há uns anos não era possível detetar. Ou seja, as pessoas hoje estão mais atentas à saúde e o facto de irem mais frequentemente ao médico resulta num diagnóstico mais frequente da doença”, elucida Maria João Oliveira.

Quanto a sintomas, o cancro da tiroide manifesta-se geralmente através de uma tumefação no pescoço. Na maioria das vezes, contudo, só é possível sentir o nódulo se a doença já estiver numa fase mais avançada. “Nessas situações, o que se manifesta é um nódulo de crescimento rápido, duro, que pode dar rouquidão e dificuldade em engolir. Mas se tivermos um nódulo com um centímetro nada disso vai acontecer”, assinala a médica.

Ainda que não existam comportamentos de risco propriamente ditos, como acontece noutros tipos de cancro, no cancro da tiroide o fator genético tem algum peso: “Sabemos que pessoas com história familiar de cancro da tiroide têm maior possibilidade de vir a desenvolver um cancro. Além disso, sabemos que pessoas que tenham feito radioterapia – radiação principalmente da cabeça e pescoço, também a probabilidade de vir a desenvolver cancro da tiroide é muito maior”.

Quanto à terapêutica, passa por cirurgia – durante a qual se procede à remoção da tiroide por completo ou, em casos menos graves, a apenas metade da glândula – e por um tratamento com iodo radioativo, que deve ser feito nas condições descritas por Francisco da Cunha. “Este tratamento é muito importante porque, por um lado, serve para destruir eventualmente algumas células ou tecido tiroide que a cirurgia não tenha tirado por não ser visível e, por outro, serve para tratar metáteses à distancia”, esclarece. A médica sublinha que, depois do isolamento no hospital, o isolamento em casa deve vir acompanhado de alguns cuidados como “separar a loiça, usar uma casa de banho diferente do que o resto da família, não beijar os filhos ou não dormir com o companheiro”.

Os distúrbios da função da tiroide Além do cancro, existem vários problemas de saúde relacionados com a tiroide. Todos, são verificados em maior número nas mulheres, que têm 4 a 7 vezes mais alterações na tiroide do que os homens, em particular entre os 20 e os 40 anos e a partir dos 50. As grávidas estão especialmente suscetíveis às alterações na tiroide.

Entre os distúrbios da função da tiroide, há dois diagnósticos que se destacam por serem mais comuns: o hipotiroidismo e o hipertiroidismo. O hipotiroidismo – que afeta até 10 vezes mais mulheres do que homens – manifesta-se quando a tiroide não produz as hormonas suficientes. “Como a tiroide controla o nosso metabolismo, a velocidade a que o nosso corpo funciona, a forma como utilizamos a energia, com o hipotiroidismo tudo fica mais lento e funciona pior. A pessoa sente-se mais cansada, com falta de memória, depressiva e desanimada. A digestão é mais complicada, surge obstipação, o coração bate mais devagar e pode haver um aumento de peso apesar de se comer menos, porque o metabolismo é mais lento. No caso das crianças, pode notar-se um atraso no crescimento”, explica a endocrinologista Maria João Oliveira.

Já o hipertiroidismo é o fenómeno inverso. Os sintomas não ocorrem de forma gradual como no hipotiroidismo e, de repente, verifica-se uma explosão de sinais que passam por uma agitação crescente da pessoa, emagrecimento intenso, muitas palpitações, muito calor e transpiração acentuada. “Tudo fica acelerado”, resume a médica.

 

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