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Taxistas. Um protesto silencioso, que exige uma solução para regular a concorrência

Taxistas. Um protesto silencioso, que exige uma solução para regular a concorrência

Bruno Gonçalves Edilson Coutinho 20/09/2018 08:51

A manifestação nacional dos taxistas que arrancou ontem, mobilizou várias centenas de veículos nas principais artérias da cidade de Lisboa. Na Avenida da Liberdade e nos Restauradores, os taxistas acusam as plataformas online de utilizar o serviço para fazer cobrança a dinheiro e dizem que “o carro descaracterizado faz o que quer”

Ontem, cinco horas depois do arranque da manifestação nacional dos taxistas, a Avenida da Liberdade, em Lisboa, estava pintada com o preto das t-shirts dos profissionais do setor e dos táxis, parados na faixa do bus. Às 10h da manhã, a circulação interdita aos carros e a ausência de gritos numa das principais artérias da capital portuguesa, deixavam para trás o fantasma de outras manifestações marcadas pelos excessos. Era aliás o silêncio que reinava.

Sem grandes confusões, aos poucos foram chegando cada vez mais taxistas – até se chegar aos mil carros em fila desde a Praça dos Restaurados até à Avenida Fontes Pereira de Melo. Todos com uma bandeira pendurada no vidro com a hashtag “#SomosTáxis”.

A identificação era clara, ao contrário do que acontece com o transporte em veículos descaracterizados (TVDE). Esse é aliás um dos pontos que preocupa Vítor Silva, taxista há mais de 15 anos, quanto à Uber: a falta de caracterização é uma forma de “muitas pessoas se aproveitarem, para circular nas faixas do bus por não existir forma de identificar quem é da Uber ou não”. Aos 62 anos, fala em diversas injustiças, defendendo que “quando o sol nasce é para todos”: “Deve haver uma regulamentação na concorrência, com as mesmas regras que são aplicadas aos táxis”.

Quanto aos transportes públicos, Vítor Silva não vê problemas, dado que os considera uma concorrência saudável, as críticas vão todas para a Uber. A revolta chega mesmo a Marcelo Rebelo de Sousa, que acusa de ter promulgado “uma lei [da Uber] que não tem quantidade” e que vai entrar em vigor a 1 de novembro. Ou seja, para o taxista deveria ser público quantos veículos existem nas outras plataformas e, sobretudo, deveriam “estar numerados no exterior”.

Os problemas são vários, mas no fim resumem-se em grande medida à concorrência e à diminuição de clientes. Manuel Rodrigues, com 74 anos – 33 dedicados à vida de taxista – afirma ao i que aquilo que mais o preocupa é depender dos serviços que realiza todos os dias para “alimentar a família”. O taxista explica que nos últimos quatro anos tem vindo a perder muitos clientes e que muitas vezes está em praças de táxis ou à porta de hotéis, quando vê cerca de “dez veículos das plataformas online a sair do local, enquanto que do lado dos táxis só sai um”.

Ambos os taxistas chegaram bastante cedo à manifestação. Apesar de reconhecerem o risco que o setor enfrenta, também defendem realidades diferentes, no que diz respeito à oferta de emprego. Para Vítor Silva, “se tivesse desempregado, também ia para a Uber”, já Manuel Rodrigues declara que para além de não conhecer ninguém que tenha ido para a concorrência “nunca faria isso”, porque está contra um setor que é ilegal. Aliás, o motivo que trouxe Manuel Rodrigues à concentração foi ir contra a realidade de que “[os taxistas pagam] os impostos e os outros levam os lucros”.

Ainda durante a manhã, perto do Marquês de Pombal, outros taxistas que preferiram não ser identificados, apontaram o dedo às plataformas: a circulação através de carros alugados, a falta de seguro de passageiros e a cobrança a dinheiro é vista, para muitos, como uma “injustiça”.

No que diz respeito à cobrança, é Fernando Matos, que já tem 22 anos de profissão, quem revela grupos online onde os motoristas das plataformas online procuram clientes. Para o taxista “é surreal” existirem serviços que “estão a ser cobrados em dinheiro”, quando “o objetivo é ser unicamente por meio das aplicações”.

Para muitos taxistas este é um problema que tem sido omitido, mas que levanta questões importantes: “Já presenciei o TVDE a deixar pessoas e, logo a seguir, outras pessoas apercebem-se que aqueles carros são das plataformas e batem no vidro, para questionar se podem seguir viagem com eles”, revela Joana Branco, taxista há um ano.

Para Joana Branco, a falta de uma entidade para fiscalizar o TVDE revela “uma grande falta de respeito para com setor”. A taxista chega a dizer que “o carro descaracterizado faz tudo o que quer” e identifica a falta de lugares específicos para a paragem destes, como uma questão que também deve ser estudada. A profissional do setor explica que há “carros mal parados que atrapalham o trânsito e roubam trabalho aos táxis porque conseguem ter um grande lançamento”.

Na hora de almoço, foram vários os taxistas que abriram o porta-malas para lanchar. José Castanheiro e André Mateus, ambos taxistas, revelam durante a refeição que “vieram preparados com comida e tendas, para ficar até que surjam efeitos”. O mais novo, André Mateus de 26 anos, diz que depende da profissão mas “não é por três ou quatro dias que o orçamento vai ser abalado”, prometendo assim não dar tréguas. Até porque, diz, a sua situação ficará comprometida “se as plataformas não forem legalizadas”.

A maioria dos taxistas com quem o i conversou confessaram ainda que são muitos os passageiros que se queixam “dos preços das plataformas”, que não são fixos e variam mediante o dia, a hora ou o veículo, afirmando que também recebem reclamações do “serviço, que tem sido cada vez pior”.

Face a estes dois últimos problemas, uma taxista que prefere o anonimato, lembra que trabalha há oito anos no setor e que existem hoje “cerca de 3 mil táxis, para 5 ou 6 mil TGEV”.

A taxista considera que se houvesse uma igualdade na regulamentação entre os setores, “havia pessoas que deixavam de trabalhar para as plataformas online”.

 

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