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Serra da Freita. A rota do arsénio

Serra da Freita. A rota do arsénio

DR Edilson Coutinho 13/09/2018 21:39

O solo e a água da zona mineira de Regoufe, em Arouca, podem estar contaminados devido às altas concentrações de arsénio. As populações das zonas envolventes e o meio ambiente correm sérios riscos caso nada seja feito

O turismo na região de Arouca é um fenómeno que está em constante crescimento e os Passadiços do Paiva já não são o único destino de eleição. Por lá, os visitantes gostam de explorar os caminhos da serra, conhecer as praias fluviais e descobrir as paisagens de tirar o fôlego. No entanto, o que a maioria das pessoas não sabem - até porque não há posições oficiais sobre o tema - é que podem estar a caminhar no “vale da morte”. Quem o diz é o professor e antropólogo Fernando Matos Rodrigues, por acreditar que a área mineira de Regoufe, situada em plena serra da Freita, na freguesia de Covelo de Paivó e no concelho de Arouca, está a criar um grave problema às zonas circundantes.

Esta realidade não é defendida apenas pelo antropólogo: uma recente tese de mestrado de Sara Sousa, ex-aluna da Universidade de Aveiro (UA), revela que as minas desativadas de Regoufe representam várias consequências negativas para o ambiente, assim como para a segurança de pessoas e bens.

O estudo teve como objetivo avaliar o impacte ambiental da zona de concentração de minas através de amostras do solo e da água, recolhidas durante as épocas de verão e de inverno. Durante a investigação, a autora realizou várias análises aos elementos potencialmente tóxicos como, por exemplo, o arsénio (As), o cádmio (Cd), o cobre (Cu), o ferro (Fe), o manganésio (Mn) e outros.

Sara Sousa verificou que muitos dos químicos, alguns naturais das rochas graníticas, apresentam valores que causam preocupação. O mais alarmante foi o arsénio, que surgiu com teores a variar entre 233 e 512 vezes mais que o limite para que o solo seja considerado não contaminado. Apenas o molibdénio (Mo) e o zinco (Zn) estavam com “teores nos solos abaixo dos limites a partir dos quais podem ocorrer riscos para a saúde humana e ecossistemas”.

Atualmente, a zona mineira de Covelo de Paivó encontra-se ao total abandono. De acordo com a página oficial do Arouca Geopark, a mina está “imortalizada por múltiplas galerias e escombreiras espalhadas” por toda a região. “As ruínas monocromáticas de granito surpreendem pelo estado de abandono e destruição, conferindo a este local um estranho sossego, apenas entrecortado pelo vento e por um ou outro rebanho de cabras, que por vezes agitam as encostas e espantam o silêncio”, descreve o Geopark.

A Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) afirma que “em Portugal existem situações de contaminação de solos, geograficamente delimitadas, sendo uma consequência das atividades industriais que entraram em declínio, encontrando-se as respetivas instalações atualmente desativadas ou abandonadas”. No entanto, segundo a tese de Sara Sousa, a “degradação avançada das infraestruturas e a falta de segurança com elas associadas, passando pelas escombreiras indevidamente depositadas a céu-aberto”, são as principais causas da dispersão dos contaminantes na região.

A ex-aluna da UA escreve ao longo do relatório que “os resíduos mineiros depositados à superfície, sem qualquer contenção ou tratamento, encontram-se expostos às condições atmosféricas”, o que facilita a “dispersão pelas águas e pelo vento” - o que, de acordo com os especialistas, pode gerar problemas para a saúde humana que vão desde manchas na pele a cancros cerebrais. No entanto, apesar de ainda não existirem relatos que comprovem a existência de casos na zona envolvente de Regoufe, as altas concentrações de arsénio (ou outros elementos) podem ainda provocar problemas respiratórios ou cardiovasculares.

Até à data, entidades como o Geopark, o Ministério do Ambiente ou a Empresa de Desenvolvimento Mineiro - que se ocupa de estudar as minas que não estão em funcionamento - ainda não se pronunciaram sobre o assunto. 

Sabe-se, contudo, que a Agência Portuguesa do Ambiente emitiu um comunicado onde explica a razão pela qual a Praia Fluvial do Areinho - uma praia do rio Paiva -, em Arouca, está interdita a banhos. De acordo com a nota, estão a ser feitas “análises ao parâmetro da salmonela”, uma bactéria que pode estar presente na água. É de relembrar que a qualidade da água estudada por Sara Santos em Covelo de Paivó, a cerca de 30 quilómetros da zona balnear do Areinho, estava contaminada. O prof. Fernando Matos Rodrigues relembra ainda que o rio Paivó desagua no rio Paiva, que posteriormente desagua no rio Douro, o que “pode ser algo assustador [para as zonas envolventes]”.

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