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Suécia. Há 60 anos que não há eleições antecipadas, parece que agora é que é

Suécia. Há 60 anos que não há eleições antecipadas, parece que agora é que é

AFP António Rodrigues 11/09/2018 21:48

Resultado das eleições suecas de domingo deixam o país num impasse. Conservadores querem governar, mas sem a extrema-direita não têm maioria. Sociais-democratas ganham com o seu pior resultado num século

As eleições de domingo na Suécia puseram um “fim à política de blocos na Suécia”, disse o primeiro-ministro, Stefan Löfven, aos militantes sociais-democratas, depois de o partido ganhar as eleições de domingo com o pior resultado num século. Os suecos acordaram ontem com o destino do país num impasse: nenhum dos tradicionais grandes blocos da fragmentada paisagem política conseguiu alcançar uma votação que lhe permita governar em maioria. A coligação que atualmente dirige o país (dos sociais-democratas com os Verdes e apoio parlamentar dos ex-comunistas do Partido de Esquerda) juntou 144 deputados, enquanto a Aliança conservadora obteve 143, distante dos 175 deputados necessários num parlamento de 349 lugares. De fora destas contas ficam os Democratas Suecos (DS), partido anti-imigração com raízes no movimento neonazi, terceiro mais votado, com 62 deputados e com quem ninguém parece ter vontade de se coligar.

O partido Moderado, o maior da coligação conservadora, teve um fraco resultado eleitoral, vendo a sua bancada reduzir-se em 14 lugares, o que o torna o maior perdedor das eleições de domingo. Algo que não impediu o seu líder, Ulf Kristersson, de pedir a saída de Löfven: “Este governo teve a sua oportunidade. Tem de se demitir.”

Os sociais-democratas, centro habitual da política sueca, desceram pela primeira vez dos 30% em 100 anos (28,4%). O Moderado, apesar de manter o segundo lugar, ao contrário do que dizia a maioria das sondagens (que colocavam o DS nessa posição), derrapa para menos de 20% (19,8%), numa descida percentual maior que a dos sociais-democratas - tiveram 23,3% em 2014, contra os 31% do partido de Löfven.

Para assumir o poder, Kristersson precisaria de um acordo parlamentar com o DS, cortando o cordão sanitário que os partidos tradicionais sempre mantiveram em relação a um partido neonazi que conseguiu representação parlamentar pela primeira vez nas eleições de 2010. Dos 20 deputados nesse sufrágio, passaram para 49 há quatro anos e 62 agora - uma subida enorme, embora não tanto como se chegou a prever.

Jimmie Akesson, o líder do DS, já se mostrou disponível para acordos com a direita em troca de restrições à imigração. “Fortalecemos o nosso papel como fiel da balança. Vamos ganhar verdadeira influência na política sueca”, afirmou. Para o chefe da bancada parlamentar do partido, Mattias Karlsson, citado pelo “Guardian”, “quando o mesmo partido está sempre a aumentar e os outros partidos estão estagnados, temos de ouvir a parte da população que vota nesse partido”.

No entanto, Kristersson colocou essa hipótese de lado com veemência, dizendo aos seus apoiantes que nunca estabelecerá acordos com o DS. “Temos sido sempre muito claros durante toda a campanha. A aliança não governa nem discute a forma de governo com os Democratas Suecos.”

Eleições antecipadas A manter a sua palavra, Kristersson terá pouca margem de manobra para exigir seja o que for aos sociais-democratas. E aí começa a ganhar contornos de inevitabilidade aquilo que os suecos nunca viram desde 1958, ou seja, há precisamente 60 anos: eleições antecipadas.

Não é caminho que os partidos estejam muito tentados a seguir. “As eleições antecipadas não são muito populares na Suécia, não tivemos nenhuma desde 1958 e foi com uma outra Constituição. A minha perspetiva é que os partidos vão trabalhar muito para evitar outra eleição”, disse ao The National Anders Sannerstedt, analista político da Universidade Lunds, na Suécia.

O sistema político sueco favorece a dispersão do voto e o país está habituado às alianças governativas (no executivo, no parlamento, permanentes, pontuais) - em 52 dos últimos 60 anos, os executivos eram minoritários. No entanto, desta vez, a situação é diferente, porque o crescimento da extrema-direita deixa os dois blocos tradicionais de partidos sem maioria para governar. Outras relações são precisas, pois as duas coligações pré-eleitorais não mereceram o apoio dos eleitores.

O outro cenário possível seria os sociais--democratas romperem a relação à esquerda, aliando-se ao partido do Centro e ao Liberal, o que dá mais deputados (151), mas manteria o governo como minoritário. As próximas semanas dirão.

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