13/11/18
 
 
Mário Cordeiro 11/09/2018
Mário Cordeiro

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11 de setembro

Para lá do conhecido 11 de Setembro, houve alguns outros de que vale a pena falar nesta coluna e que revelaram o pior e o melhor da humanidade. Relembremo-los

No dia 11 de setembro, ao longo dos tempos, aconteceram muitas coisas. Desde o nine-eleven, ou seja, o de 2001, que mudou a face do mundo, não apenas pela dimensão do ataque terrorista, mas também pelas consequências que teve, ao nível das guerras do Afeganistão e depois do Iraque, e também em tudo o que mudou no nosso quotidiano, até ao 11 de setembro de 1973, que derrubou o regime democrático de Salvador Allende no Chile, levando a uma das mais brutais ditaduras, a de Pinochet, que, conjuntamente com os outros regimes militares que vigoravam na maioria dos países da América do Sul – Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, entre outros –, fazia desse subcontinente um local tenebroso em termos de direitos humanos e democráticos.

Todavia, outro facto houve, num 11 de setembro, sobre o qual vale a pena discorrer um pouco: há precisamente 40 anos, a 11 de setembro de 1978, a OMS declarou o mundo como “livre de varíola”. Uma doença que causou a morte, o desfiguramento e sequelas múltiplas e muito sofrimento durante séculos, dizimando populações, foi vencida pela inteligência humana. Foi, aliás, até agora, a única doença que o ser humano conseguiu erradicar (o que é diferente de controlar) graças à sua criatividade e à capacidade de pôr em prática programas coordenados e à escala universal.

Para lá da varíola, outras doenças começaram o caminho da erradicação: poliomielite, sarampo… mas, todavia, esse caminho está a ter bastante mais obstáculos e retrocessos do que seria de esperar. Ainda há um par de semanas, a diretora-geral da Saúde alertava para os riscos de voltarmos a ter sarampo “em grande”. Portugal, aliás, que sempre foi um dos países do mundo com as taxas de vacinação mais elevadas, tem vindo a descer essas taxas e, depois de em novembro de 2016 ter sido declarado “livre de sarampo”, eis que, em abril de 2017, voltámos a ter um surto, que se repetiu este ano.

Neste dia em que se perfazem 40 anos em que se erradicou – repito a palavra, porque não é controlar, não é suster, é erradicar – a varíola, no que foi a primeira vitória total do homem contra um micróbio, são cada vez mais as vozes que se pronunciam contra a vacinação, ignorando que milhões e milhões de pessoas estão vivas e de boa saúde graças às vacinas.

Portugal tem, desde 1965, um programa nacional de vacinação que é um exemplo de boas práticas, e o êxito deve-se a todos, a começar pelos próprios pais, que aceitaram as vacinas como algo desejável e importante, e continuando nos médicos e nos enfermeiros.

O séc. xxi trouxe, nas vacinas, novas hipóteses de prevenir doenças. Todavia, o facto de muitas delas serem pagas pelos pais e, ao mesmo tempo, crescerem as “teorias da conspiração”, veiculadas na internet, desprezando a vacinação e associando-a a uma cruzada maléfica de empresas farmacêuticas, ou descrevendo situações em que as crianças seriam cobaias de experimentações científicas, colocou em causa este avanço em termos civilizacionais. É inacreditável, por exemplo, como uma mentira que foi um estudo inventado por um médico inglês – aliás, ex-médico, porque foi expulso da ordem dos médicos britânica –, que supostamente relacionava a vacina do sarampo com o autismo, pegou de estaca desta maneira, mesmo depois de ter sido amplamente desmascarado este mentiroso… e criminoso, pelos efeitos que teve a sua mentira.

Se muito se fez (e os indicadores de saúde são as melhores testemunhas), há ainda um longo caminho a percorrer. Não percamos, pois, oportunidades nem pensemos que o risco desapareceu, mesmo face a doenças praticamente inexistentes, porque o mundo é uma aldeia global.

Infelizmente, também por grande confusão relativamente ao que são vacinas, como se produzem, os anos que demora a fabricar uma, etc., é crescente o número de pais que olha para elas com alguma desconfiança, mas é bom que estes pais ponderem o que poderá acontecer se não vacinarem os filhos. A opção dos pais tem a ver, não com eles, pais, mas com a saúde dos filhos… e o filho pode morrer de uma doença que teria sido evitável – é uma coisa que tem de ser dita, embora incómoda. As mortes infantis por negligência são afogadas pela dor dos pais e dos familiares, fazendo-nos esquecer muitas vezes quem realmente perdeu tudo o que tinha, incluindo a vida. Com as vacinas, é assim.

Todos os dias, as crianças são sujeitas a contactos com vírus e bactérias. Digamos que a criança se “vacina” todos os dias, especialmente se estiver num atendimento diurno (ama ou infantário), com muitas bactérias, vírus e outros micróbios, pelo que o receio de “fazer muitas vacinas” é totalmente infundado.

As vacinas são seguras, incrivelmente eficazes e os efeitos secundários não são um problema. A ideia de que as vacinas mexeriam com a nossa imunidade, podendo abrir uma caixa de Pandora incontrolável, é errada. As vacinas estão desenhadas para doenças que são ou podem ser muito graves – meningites, septicemias, sarampos, encefalites, pneumonias, varicela, paralisia infantil, difteria, tosse convulsa, tuberculose, entre outras.

As vacinas são produtos externos, é verdade. E alteram a imunidade, também é verdade. Só que a alteram num bom sentido, ou seja, no sentido de evitar as doenças a que são dirigidas e que podem, em muitos casos, ser mortais.

Os pais são sempre as pessoas que decidirão, mas também é bom pensar que a sua decisão acarreta responsabilização. Se uma criança não é vacinada porque os pais não o desejam e morre ou fica com sequelas por causa de uma meningite, sarampo, tosse convulsa ou difteria, o assunto será muito complicado de gerir do ponto de vista psicológico, moral e até jurídico. Não somos donos dos nossos filhos, mas gestores do percurso de vida deles. Estejamos à altura dessa tarefa sem embarcar no laxismo, seja por moda, seja por causa de um email ou de um post no Facebook.

Voltando ao dia 11 de setembro, também não queria deixar de frisar que é o Dia da Catalunha. Assim, recomendo que ouçam uma música de um cantor catalão, Luís Llach, “L’estaca”, que foi um símbolo na Guerra Civil de Espanha. Uma música em que se fala de homens presos a uma estaca e que, com o seu movimento coordenado e em equipa, conseguem desenterrar a estaca e libertar-se. Muito simbólico, neste dia carregado de efemérides mas em que as nossas cabeças ainda precisam de se libertar de tantas estacas que nos prendem o raciocínio e a liberdade.

 

Pediatra

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