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Crianças. Impacto de acabar com a mudança de hora divide opiniões

Crianças. Impacto de acabar com a mudança de hora divide opiniões

José Carvalho Carolina Brás 09/09/2018 13:35

Para o presidente da Associação Portuguesa do Sono, o facto de as crianças e adolescentes irem para a escola de noite pode resultar em problemas de concentração, raciocínio e memória. Pais e professores aplaudem proposta

Diz-se que quando o sol nasce, nasce para todos, mas a verdade é que se a mudança de hora deixar de acontecer, no inverno, o sol vai nascer mais tarde. Amanhecer às 9h00 é o cenário previsto se chegarmos a 28 de Outubro e não atrasarmos o relógio.

 Em Portugal, a hora de inverno é a mais aproximada da hora solar, mas com a implementação da hora de verão a tempo inteiro, o pôr-do-sol vai acontecer já depois das 18h. Mas a discussão da não mudança de hora vai muito além dos dias longos e da hora de anoitecer e amanhecer, já que divide opiniões.

E para as crianças? O alarme para a primeira aula soa ainda antes das 9h da manhã e a verdade é que com a mudança de hora, a maioria das crianças seriam obrigadas a acordar ainda de noite e a começar as aulas com o dia a nascer.

Para Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono (APS) , este é um cenário que não deveria acontecer. No entender do responsável, continuar com o horário de verão seria bastante prejudicial para toda a população e o problema ganha maior contornos com a rotina das crianças e dos adolescentes.

“A exposição solar é fundamental para ativar o nosso cérebro” afirmou ao i e garante que , “o risco de crianças e adolescentes irem para a escola de noite vai trazer problemas a nível cognitivo, de concentração, de atenção, de raciocínio, memória e até tomada de decisão”. Joaquim Moita deixou ainda o alerta para os problemas de “irritabilidade, flutuações de humor e ansiedade” que podem resultar da falta de sol e de dias com o anoitecer mais tardio. 

Com o horário de verão permanente, o pôr-do-sol vai acontecer mais tarde, algo que também preocupa o presidente da APS que explica que o anoitecer deve ocorrer antes das 19h. ”O anoitecer é importante. À medida que o dia se vai desenrolando e a noite emergindo, a passividade e o acalmar vão proporcionar um sono em condições” afirma Joaquim Mota que também chamou a atenção para os maus horários de sono das crianças devido ao uso do telemóvel, smartphones ou, até mesmo, para os horários tardios de chegada dos pais a casa. 

A importância do sol da manhã é também defendida por Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, deixando isso claro no relatório anual elaborado a pedido do governo português no âmbito da discussão europeia sobre a mudança da hora. “As principais consequências nefastas estão na parte matinal” e lembra que se “o nascer do sol acontecesse perto ou depois das 8h entre meados de outubro e meados de março: são quase 5 meses completos. Isto implica que as grandes movimentações em massa, para os trabalhos ou escola, seriam essencialmente realizadas com pouca luz, difusa, no céu. O despertar da população aconteceria com as estrelas ainda no céu, durante 40% do ano”. Rui Agostinho lembrou também que “As pessoas só estão a pensar nos dias longos e compridos. Mas não é assim. A duração do dia não é o relógio que a faz. É o sol.”

 

Opinião contrária

O horário de verão parece ser o que mais agrada e na balança das consequências pesam mais as positivas. 

Para Manuel Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional de Professores, manter o horário de verão só traz efeitos positivos. “Entendemos que o rendimento escolar e sucesso educativo dos alunos, bem como o trabalho dos professores será melhor havendo uma estabilização da “hora” durante todo o ano”, acrescentando que “qualquer mudança repentina de alteração de hora no relógio poderá ter prejuízos relevantes em termos de saúde e, sobretudo, de bem físico e psicológico nas pessoas, com alteração do humor e surgimento de dores de cabeça”, diz ao i. 

No mesmo sentido, Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, defende que a hora de verão é a mais indicada e que mantê-la é a vontade de maior parte das pessoas com quem já teve contacto. “Tive a preocupação de perguntar a jovens e ninguém me disse que a hora devia mudar, as pessoas gostam e sentem-se melhor. A maior parte das pessoas está em atividade entre as 8 da manhã e as 8 da noite, (se a hora mudar) às 8 começa a nascer o dia e só começa anoitecer por volta das 8”, conclui.

 

 

Horário de verão permanente também pode afetar os adultos

O  fim da mudança de hora não tem só consequências para as crianças e adolescentes. Também os adultos são afetados pela permanência do horário de verão. O alerta é dado ao i pelo presidente da Associação Portuguesa do Sono.

“O mesmo tipo de implicações que tem nas crianças também  tem nos adultos: problemas de natureza cognitiva, emocional e física como fadiga ou problemas gastrointestinais podem surgir em consequência da falta de um acordar seguido de uma exposição solar adequada”, defende Joaquim Moita. 

O responsável deixa ainda o alerta para a falta de exposição solar que pode aumentar o índice de problemas de saúde mental e física. “A falta de exposição solar, por exemplo, dos países nórdicos atraí problemas depressivos ou de ansiedade”, refere.

Por isso, defende que é necessário manter o regime de mudança de horário “é importante e o mais acertado”, até porque a diferença é de apenas uma hora e, segundo Joaquim Moita, não interfere com o quotidiano da população. “É facilmente ultrapassado”.

Também o estudo do Observatório Astronómico de Lisboa defende que a opção de não mudar a hora escolhida por 85% dos 4,6 milhões de cidadãos que participaram numa consulta pública online promovida pela Comissão Europeia pode ser nefasta para a população

Artur Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, lembra a importância da mudança de hora e diz que as pessoas só estão a pensar nos dias de verão e não pensam nas consequências que pode trazer para a rotina no inverno. “Têm que analisar como seria a situação durante todo o ano e não só face ao facto de terem dias mais compridos durante o verão”.

Em sentido contrário, o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais, Jorge Ascensão, deixou bastante claro a preferência pelo horário de verão, descartando quaisquer problemas que possam decorrer da não alteração da hora. “A escola trabalha de dia e está muito menos tempo a trabalhar de noite. Com o regime de troca de horário às 5 horas estava já está escurecer” e não descartou o agrado de usufruir de mais luz durante as horas em que há menos atividade.

Uma opinião que é também partilhada pelo vice-presidente da Associação Nacional de Professores, Manuel Oliveira, ao afirmar que a permanência no horário de verão não tem qualquer impacto negativo na rotina dos adultos e crianças.

 “A não mudança de hora não afeta as crianças, nem os professores e nem as suas rotinas diárias, uma vez que o seu organismo já está habituado, desde março, a este horário e, por conseguinte, os sintomas que poderiam surgir com a alteração da hora não se manifestam. Por outro lado, os alunos iniciam o ano letivo com horário de verão e, não havendo alteração, não me parece que haja uma afetação negativa, pelo contrário, será no entender da ANP positivo”. salienta. 

 

*Editado por Sónia Peres Pinto 

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