21/11/18
 
 
Marta F. Reis 07/09/2018
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Proteger o imaterial

Pela candidatura da relação médico-doente a património da humanidade

Não conheço a médica, nem tinha fixado o nome antes de me chamarem. Abre a porta do gabinete, estica a mão e pede desculpa pelo atraso, que a manhã está complicada ou talvez ela esteja um pouco menos ágil, afinal é o primeiro dia depois das férias, justifica-se. Começa bem, todos já voltámos de férias e sabemos a sensação. Em menos de nada, pergunta o que me traz por lá, saca de uma espécie de lupa acoplada a um smartphone - um dermatoscópio, explica, nada de especial - e começa logo a ver os sinais, como quem pressente uma ansiedade a precisar de resposta. Simples e assertiva, pergunta coisas sobre mim enquanto manobra o aparelhómetro (os médicos de família não poderiam ter uma coisa destas?) e, por fim, diz que sinais devem manter-se em vigilância. Em minutos cria-se um laço.

Não há propriamente uma definição do que é isso da relação médico-doente que em breve será proposta a Património Cultural Imaterial da Humanidade, numa iniciativa de médicos portugueses e espanhóis, mas tenho para mim que, mesmo nas coisas mais simples e benévolas, começa assim, neste encontro entre a ansiedade de quem não sabe e a capacidade do médico de a notar, de não lhe ser indiferente. Ou acontece ou não acontece e faz a diferença. Pode até ser uma questão de tempo e de menos burocracia, mas tem de ter qualquer coisa de vocação, de disponibilidade, de humanidade, de empatia. Já tive consultas mais longas em que tudo isso esteve ausente. Noutros momentos, a sensibilidade é tocante. Como é que eles resistem às vezes em que não há nada a fazer ou dizer? Como é que mantêm a calma necessária para todas as explicações quando o momento é grave, irreversível?

Nisto da relação, a minha mãe diz que o aperto de mão é fundamental. Da primeira vez que mo disse, a censurar-me por não ter cumprimentado o médico quando entrei no gabinete, achei que estava a exagerar, mas cada vez me convenço mais disso. Não é subserviência, nem tão pouco uma questão de boas maneiras, é um canal de aproximação que se abre. Numa conversa publicada há uns tempos no i, o cardiologista Fernando Pádua dizia mais: a primeira coisa que os médicos deviam fazer era agarrar o pulso do doente, sentir a mão, que nesse gesto conseguiam ler muito, não só do ponto de vista clínico mas da busca da própria pessoa naquele momento. Não percebo de Medicina - gostava - mas faz-me sentido.

Há uma ideia bonita de António Lobo Antunes sobre o sentido destas relações dos médicos com os doentes. Numa crónica em que discorre sobre a medicina e a literatura, escreve a certa altura - “Um escritor não cura ninguém salvo, talvez, a si mesmo. O sucesso torna-nos humildes. Faulkner: “descobri que escrever é uma coisa tremendamente bela. Faz-nos erguer sobre as patas de trás e projetar uma enorme sombra”, que me apetece glosar assim: “descobri que ser médico é uma tremendamente bela coisa. Faz-nos agarrar na mão de um infeliz que sofre e ajudá-lo a viver”. Qual destes dois feitos é o mais importante? De mim ficarão papéis. De vocês pessoas.”

Venha a distinção de Património da Imaterial da Humanidade, com a certeza de que isso, só, de nada vale. Um dos promotores da candidatura à UNESCO, o psiquiatra espanhol Patricio Martínez, elencava há uns meses ao i as ameaças a essa relação ancestral, que dizia serem comuns em Espanha, em Portugal e em todo o mundo desenvolvido. “As administrações, sob o pretexto do equilíbrio orçamental, impõem um modelo burocratizado, protocolizado, tempos assistenciais (consultas de cinco minutos), listas de espera e medicina defensiva”. Mais: os avanços tecnológicos e da indústria farmacêutica, com tudo o que têm de positivo, traduzem-se por vezes num excessivo “cientificismo” e na emergência de superespecialidades, que “marginalizam o médico de cabeceira, que deve estar sempre junto ao doente, que é o centro do processo assistencial”. No Brasil, esta semana, um fogo devorou numa noite o acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, 20 milhões de peças, muitas insubstituíveis naquela que era uma das maiores coleções do país. Até o património mais do que tangível é descuidado. Haverá forma e vontade de proteger o imaterial, que nem sempre é o mais visível no galope dos dias e das grandes decisões?

Jornalista

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