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Isabél Zuaa. “A personagem da Zua foi crescendo com o que lhe dei da minha biografia”

Isabél Zuaa. “A personagem da Zua foi crescendo com o que lhe dei da minha biografia”

Mafalda Gomes Claudia Sobral 06/09/2018 09:03

Em “Joaquim”, de Marcelo Gomes, a atriz interpreta Preta, uma escrava que se rebela e à qual entrega o seu nome - e da sua avó angolana

“Preta é nome de cor. O meu nome é Zua.” Que importância tem para ti isto dito pela através da Preta, a escrava que interpretas em “Joaquim”? 

É uma frase que veio de muitas vezes os escravos não terem nome e de as pessoas se referirem às pessoas negras pela cor. Ela tolerou isso durante o tempo em que estava em situação de escrava, mas nesse momento rompe com isso e assume a sua identidade. Estávamos a pensar no nome que ela teria e o Marcelo Gomes sugeriu: “Porque é que ela não é Zua?” A princípio fiquei contente, depois achei estranho, mas achei que fazia sentido emprestar o meu nome à personagem. E isto é importante porque isso de se dizer “olha o preto”, “o pretinho”, “pessoa de cor” - ainda hoje ouvi isso, uma pessoa com muito cuidado para dizer “a menina é de cor” - continua bastante atual, apesar de este ser um filme histórico. Num momento em que está livre, empoderada, numa situação mais positiva do que aquela em que se encontrava, ela toma o seu nome como forma de poder. O nome que tolerava enquanto estava na situação anterior acaba ali. É [um momento] muito importante e é uma frase que marcou. Muitas pessoas no Brasil, jornalistas também, falam nesse como o ponto de virada da personagem.

De mais do que a personagem, porque aí o protagonista quase deixa de ser o Joaquim (Tiradentes) e passasse a ser ela. A Preta. Mulher, africana, ex-escrava.

O personagem do Joaquim é super-humanizado pelo Marcelo. Com as suas falhas, com as suas vontades, as suas ambições. E vês a luta dele, mas nesse momento vês que é ela que despoleta nele a necessidade de uma tomada de posição, como uma alavanca para ele entender que, como a Preta revolucionou a vida dela, também ele tem que revolucionar a sua. 

Está aí, segundo este exercício ficcional de Marcelo Gomes, a explicação para a transformação de Joaquim - o homem branco colonizador - em Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira e da independência do Brasil.

Sim, porque ele depois diz: “Eu vi uma revolução no Quilombo”. Também ele quer fazer uma revolução. Porque a Zua, que é mulher, preta, africana, que foi para o Brasil em situação de mulher escrava, consegue fazer essa virada sozinha e fazer-se líder de um quilombo [comunidades formadas por escravos que conseguiam fugir]. Isso acaba por nutri-lo para conseguir romper com aquele sistema, porque a Zua estava naquela situação fragilizada, mas sempre querendo mudar, sempre tendo esse ímpeto - e utilizava a sedução como estratégia. Apesar da afetividade em relação a ele, e isso vê-se, ela usa a sedução, usa todas as ferramentas possíveis para sair daquela condição. É isto que faz com que ele perceba. Durante algum tempo, pertencia ao sistema e não percebia. Tinha as suas ambições, via algumas desigualdades e via que ele também era prejudicado, mas não tinha aquele ímpeto de querer mudar. 

Notavas ainda agora como isso da “preta” continua tão atual. É apenas a tua personagem que diz aquela frase, com o teu nome?

O nome da minha avó... Nasci cá, em Lisboa, a minha mãe é de Angola, e o Zuaa vem de Angola, e o meu pai é da Guiné-Bissau. Isabél é da minha avó da Guiné-Bissau. Tenho o nome das duas avós.

As tuas avós cujos antepassados não foram por acaso levados para o Brasil como escravos também. 

Sim. Tanto que a minha avó dizia “temos muitos irmãos que foram levados para o Brasil”. Era uma coisa que ainda estava na memória dela e ela não passou por essas questões mas passou por outras. Pelas guerras. O meu avô foi assassinado por portugueses nos anos 60, quando a minha avó Zuaa estava grávida. Para mim foi muito impactante poder de alguma forma homenagear essas mulheres, a minha árvore genealógica, de uma forma positiva, pela arte. Como noutros filmes temos trazido. No “As Boas Maneiras” [Marco Dutra e Juliana Rojas, 2017], num parêntesis reto, a avó da personagem da Clara, que eu faço, é a minha avó Zuaa na fotografia que está lá na casa dela. Os realizadores perguntaram-me se podiam usar, eu mandei-lhes uma fotografia e acabou por ser ela. É muito forte trazer essas raízes, essa ancestralidade. Quando és mais nova vais percebendo algumas coisas, mas quando te tornas mulher percebes que descendes de algum tipo de mulheres e vais vendo as batalhas que elas foram tendo. Dentro disto tudo, sou uma privilegiada. Sou a mulher da minha família que acabou por viajar mais e tenho uma voz que me permite trazer a minha cultura para a arte. A música que a Preta, a Zua, canta no quilombo é uma música de um tio meu da Guiné-Bissau que fala sobre liberdade, sobre a emigração, sobre quereres ser um pássaro e a tua alma poder voar para outros lugares a que fisicamente não consegues ir.

O teu tio é músico?

É. Venho de uma família de músicos da Guiné-Bissau. É uma maneira de homenagear a minha cultura, a minha família e de trazer algo de positivo também. 

E isso é algo que o próprio realizador, o Marcelo Gomes, procurou ter presente neste filme. Como é que chegaste ao “Joaquim” e a esta personagem?

Sim. Fiz uma curta-metragem em 2012 com o Pedro Peralta que acabou por chegar à Maria Clara [Escobar], que foi assistente do Marcelo no filme e que fez a pesquisa de elenco. O Marcelo queria uma atriz portuguesa, preta, que falasse português de Portugal e uma língua africana. Eu falo crioulo de Cabo Verde, crioulo da Guiné, e no casting fiz uma improvisação e disse um texto em crioulo de um monólogo que fui fazendo no Brasil e que quero trazer aqui para Portugal também, acabei por cantar músicas em crioulo de Cabo Verde… Fui fazendo e correu muito bem. Depois fomos falando e fazendo esta troca. O Marcelo gosta dos filmes meio documentais e é muito generoso, gosta desta partilha - tanto que agora estamos a escrever uma longa os dois que partiu dessa vontade de ver mais dessa personagem. A Zua. O ponto de partida foi um spin-off para desenvolver essa personagem, mas acabámos por entender que queríamos falar de outras épocas, de outros tempos também. Estamos a desenvolver esse roteiro e o Marcelo tem esta grande generosidade. É muito diretor de atores, como se diz. Gosta de aproveitar aquilo que o ator tem como uma mais-valia para o filme. Quase como num documentário que não é, porque é uma ficção. A personagem da Zua foi crescendo também com isso, com o que lhe fui dando da minha biografia. 

 

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