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Joaquim. O passado colonial mesmo aqui

Joaquim. O passado colonial mesmo aqui

DR Cláudia Sobral 06/09/2018 09:02

No filme que chega hoje às salas o realizador brasileiro Marcelo Gomes ficciona a transformação de Joaquim José da Silva Xavier, soldado da coroa no Brasil colonial, em Tiradentes, o herói (acidental) da independência

Tiradentes, não. Joaquim José da Silva Xavier, melhor assim para a história do herói da independência do Brasil que Marcelo Gomes quis contar, e já lá vamos. A história possível. De Tiradentes, registos históricos há apenas uma certidão de batismo e, à sua morte, executado, os Autos da Devassa, que documentam o processo que lhe foi movido por traição ao rei pela participação na Inconfidência Mineira. Ponto de partida que era nada, ou quase, mas que pareceu ao realizador brasileiro perfeito quando, há vários anos, um produtor espanhol o desafiou a fazer um filme sobre Tiradentes para um projeto de oito filmes sobre oito protagonistas dos processos de independência da América Latina, nos seus 200 anos.

“No que eu estudava na escola - na fase final da ditadura militar brasileira - colocavam Tiradentes parecendo Jesus Cristo, em imagens que faziam relação direta do Tiradentes com Jesus Cristo. Era algo quase messiânico e a gente ficava com aquela impressão de que só os escolhidos pelos deuses poderiam ser heróis de uma pátria.” Imagem que logo à partida o realizador decidiu destruir. Primeiro porque “qualquer cidadão, a partir da sua experiência de vida e do que faz com essa experiência, pode cometer um ato heróico”. depois porque Tiradentes era homem, branco, soldado da coroa portuguesa naquele Brasil colonial de finais do século XVIII em que a produção de ouro tinha entrado em declínio. 

“Como é que um soldado da coroa portuguesa pode ter virado um revolucionário numa sociedade colonial, anti-ética, desumana, racista, que escravizava os africanos e matava os índios?”, questiona Marcelo Gomes numa conversa ao telefone a partir do Brasil. “Como é que se pode construir uma consciência política numa sociedade assim? O nosso Joaquim só poderia ter construído essa consciência política se tivesse uma relação direta, de proximidade, de amizade, talvez de amor, com as pessoas que estavam sofrendo o lado mais cruel do colonialismo. Os índios, os africanos e os mestiços. Então coloquei um índio, um africano e um mestiço do lado dele.” 

Mais do que a história da jornada do herói da Inconfiência Mineira que deu origem à independência, mais do que Tiradentes, interessava ao realizador contar a história, uma história possível, de Joaquim. E daí, de dez anos antes da independência, partirá o filme que chega hoje às salas portuguesas. O exercício é de ficção, como só podia. “Joaquim” é o Brasil colonial visto de hoje - e por que não, num tempo em que não só História grita por ser reescrita como as questões do Brasil do presente o vão forçando à procura de respostas no passado. 

“Já naquele momento em que a colónia Brasil produzia muito ouro, muito diamante, muito dinheiro, a riqueza ficava na mão de pouquíssimos. De pouquíssimos portugueses e de uma pequena elite brasileira que estava surgindo. Ao redor disso, existia uma legião de mestiços africanos e índios nativos que viviam em completo estado de miséria. É muito curioso ver que o Brasil já começou com essa desfasagem de rendas profunda. Uma situação que até hoje o capitalismo não resolveu.” 

Mas não apenas isso. “O horror do colonialismo está no ADN brasileiro e deixou marcas cruéis na nossa sociedade. A maior delas, a questão da escravidão, no racismo. No Brasil, um edifício construído nos anos 70 ou 80, 200 anos depois do fim da escravatura, tem um elevador social e um elevador de serviço. Um elevador para os empregados, um elevador para os patrões. No fim do apartamento, tem um quartinho minúsculo para a empregada”, nota o realizador sobre como a organização da sociedade brasileira reproduz ainda hoje “o pensamento de um engenho colonial ou de uma mina de ouro”.

Do lado de cá Em Portugal?

“Em Portugal quando se fala desta época fala-se do lado positivo das descobertas, de como Portugal deu novos mundos ao mundo, sem se falar do lado negativo da colonização”, lembra Nuno Lopes, que interpreta um português degredado que acompanhará Joaquim numa expedição pelo Sertão Proibido em busca de novas minas de ouro, sobre o ainda tímido início de um processo de revisionismo histórico. “[Sem se falar] da escravatura, do genocídio dos índios e sobretudo de como a maneira como colonizámos o Brasil tem impacto na sociedade brasileira ainda hoje. Infelizmente disso ainda não se fala nas escolas.”

Mais do que provar que agentes de mudança poderá ser qualquer um, como Joaquim que numa versão inicial chegou a ter como título “Um Certo Joaquim”, o que Marcelo Gomes propõe com esta “crónica poética do século XVIII” é um exercício de aproximação entre presente e passado, presente até nas opções estéticas. Ou na cena em a Preta (Isabél Zuaa), escrava que se revolta e se faz líder de um quilombo (as comunidades em que se organizaram grupos de escravos fugidos), responde a Joaquim, em português e com o nome que é o seu: “Preta é nome de cor. O meu nome é Zua.” Será esse o momento em que, numa história que nos livros é feita por homens, se faz protagonista ao levar Joaquim ao que Marcelo Gomes descreve como a “tomada de consciência”. A consciência do “estado de guerra” em que vivia aquele princípio da sociedade brasileira contemporânea.

Filme de época, filme presente

“Filme histórico parece museu de cera. Roupas pomposas, uma coisa no pescoço que os atores não conseguem nem falar, aquele português que ninguém entende. Queria desconstruir essa ideia de filme de época. Com uma câmara viva, uma câmara na mão, quero mostrar que o passado está vivo e que o passado era muito miserável”, explica o realizador. “Talvez as ficções da BBC sejam ricas, mas o passado era muito pobre. Então a gente passava quase duas horas para sujar os dentes dos atores, todos os personagens têm a mesma roupa o filme inteiro, porque era assim. A gente decidiu desconstruir essa coisa pomposa dessa linguagem histórica que distancia as pessoas, porque sentindo que o passado é vivo elas vão refletir sobre a relação do passado com o nosso estado atual. Acho que foi por isso que o filme foi bem recebido por professores universitários, por antropólogos e pela crítica. Claro que tem uma ou outra pessoa que fala que o Joaquim não é nada disso, mas o bacana é construir personagens contraditórios. Ninguém é perfeito. Não é porque o cara foi o herói da pátria que é uma pessoa perfeita, um Deus.”

"Joaquim" é exibido esta quinta-feira em sessão especial no UCI El Corte Inglés, em Lisboa, seguido de "Vazante", outra produção lusobrasileira sobre o Brasil colonial. Com a presença de Nuno Lopes ("Joaquim", às 19h15) e da realizadora Daniela Thomas ("Vazante", às 21h15). 

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