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Benfica. “A grande águia começará a voar enchendo o mundo de espanto...”

Benfica. “A grande águia começará a voar enchendo o mundo de espanto...”

DR Afonso de Melo 05/09/2018 22:55

Chegavam os meses de Verão e os adeptos do Benfica queriam saber das aventuras da sua equipa um pouco por todo o planeta, em digressões pelo Japão, pela Indonésia, pela Austrália, pelo Peru, pelos Camarões, pelo Irão ou pelo Iraque. Os mais remotos recantos do mundo chamavam e os encarnados partiam, desafiando fronteiras

Da Indonésia ao Peru, do Japão à Colômbia, dos Camarões ao Irão e ao Iraque. Bem mais de setenta países no seu currículo único de trotamundos. Nos meses de Verão, os adeptos do Benfica habituavam-se a saber notícias da sua equipa com um ou dois dias de atraso, tão longe andava ela de Lisboa. As digressões dos encarnados por todos os continentes, por mais de trezentas cidades, tornaram-se um acontecimento incontornável. É bem verdade que dispararam a partir do início dos anos 60, por via da conquista das Taças dos Campeões e do aparecimento desse fenómeno universal chamado Eusébio da Silva Ferreira. Todo o planeta chamava por ele e o Benfica recolhia, principescamente, verbas milionárias por passear os seus craques pelos estádios que se enchiam à sua passagem. Mas, calma, essa vocação de viajante nasceu logo em 1912, numa ida à Corunha que ficou marcada na história não apenas do clube da águia mas de todo o futebol português.

Bem rimava Camões no seu Canto VII dos imarcescíveis Lusíadas: “De África tem marítimos assentos/ E na Ásia mais que todas soberana/ Na quarta parte nova os campos ara/ E se mais mundo houvera, lá chegara”. O Benfica desafiou as fronteiras.

O convite dirigido pelo Real Club Deportivo de La Coruña, que passaria mais tarde a ser conhecido entre nós, coloquialmente, por Deportivo da Corunha, visava a presença na Galiza de uma selecção de Lisboa nesse final de Primavera de 1912. Evoluíria depois para clubes, tendo-se deslocado o Clube Internacional de Futebol e o Sport Lisboa e Benfica. Pela primeira vez a equipa de futebol do Benfica saltava para lá da pequenez do rectângulo. Viria a fazê-lo tantas e tantas vezes que seria fácil perder-lhe a conta.

Regressou a Lisboa com o bichinho das viagens entranhado na sua essência de clube predestinado a ser de toda a parte. E as sementes das interligações com Espanha, o grande país vizinho, já davam frutos. Para se perceber esta proximidade, consultem-se os números: até final de 2012, o Benfica jogou 11 vezes em Badajoz, 10 vezes em Barcelona, 5 vezes em Bilbau, 10 vezes em Cádiz, 10 vezes na Corunha, 6 vezes em Huelva, 8 vezes em Sevilha, 13 vezes em Vigo e 21 vezes em Madrid, só para citar as cidades mais visitadas.

 

Trotamundos! Seria obviamente fastidioso pormenorizar aqui todas as digressões feitas pelo Benfica em redor do mundo. E quando dizemos em redor do mundo, dizêmo-lo com a maior das propriedades porque o Benfica deu várias voltas ao mundo para mostrar, um pouco por toda a parte, o seu futebol e o fascínio das suas camisolas berrantes, como diz a canção de Luís Piçarra.

Mas, perguntarão vocês: ninguém mais viajava? Só o Benfica? Então e os outros? Eu respondo já, antes que me esqueça: viajavam, claro que viajavam; mas não viajavam tanto; e não viajavam para tão longe. E só para verem como as coisas são, o Santos de Pelé (e de Dorval e Mengálvio e Coutinho e Pepe...) foi fazer uma digressão ao Congo e a Kinshasa em 1969, ou seja, 14 anos depois do Benfica lá ter estado.

Leonardo Da Vinci já tinha profetizado: “A grande ave começará a voar enchendo o mundo de espanto, enchendo todos os livros com o seu nome imortal; e uma glória eterna cobrirá o ninho onde nasceu”. Houve digressões épicas, como a primeira aos Estados Unidos, depois de um mês no Brasil, ou a Teerão, onde Eusébio foi trocar umas bolas com o filho do xá Reza Palehvi. Ou ao Iraque para inaugurar um estádio construído sob os auspícios da Fundação Gulbenkian.

Durante anos a fio, a águia voou por todo o mundo, pousou por toda a parte. Não sei quantos clubes viajaram mais do que o Benfica... Não sei se algum clube viajou mais do que o Benfica. Duvido. Verão após Verão, às vezes até em pequenas interrupções das provas nacionais, a América, a Ásia, até a Austrália chamavam pelos encarnados. E eles iam. Como se cumprissem uma promessa muito antiga...

 

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