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Nossa Senhora da Encarnação. Uma festa que “arriou muito”

Nossa Senhora da Encarnação. Uma festa que “arriou muito”

Paulo Jesus Filipa Traqueia 05/09/2018 22:52

São muitos os romeiros que no início de setembro se dirigem à vila de Buarcos para celebrar as festas de Nossa Senhora da Encarnação. Nesta edição, para assinalar os 20 anos da Expo98, o tema é o mar

Não há buarcosense que não conheça a música popular da Senhora da Encarnação: “Ó Buarcos, ó Buarcos / Senhora da Encarnação / O retrato da Senhora / Levo eu no coração”. É com “o retrato da senhora” no coração que a comissão de festas organiza há mais de 20 anos um baile ao lado da capela. No fim de semana de 7 a 9 de setembro, esta vila do concelho da Figueira da Foz enche-se de pessoas que vêm prestar uma homenagem a Nossa Senhora. Ainda assim, é cada vez mais difícil levar a festa para a frente.

O brilho das estrelas que subiam ao palco ano após ano tem vindo a esmorecer. “A festa arriou muito”, desabafa Conceição Mano, uma das seis mulheres que fazem parte da comissão de festas. “Já vieram cá os Anjos, os Excesso, veio a Marina Mota que fez um espetáculo mesmo com chuva, o Marco Paulo, o Sérgio Godinho, o Quim Barreiros. Vinham artistas maravilhosos. Há três ou quatro anos que não vêm artistas de fora”.

A falta de verbas é uma das principais causas para a comissão de festas recorrer cada vez mais aos talentos da terra: “Custa-nos não ter nenhum artista, mas eles pedem muito dinheiro e nós não conseguimos”. A organização lamenta não ter tantos apoios da paróquia, da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal, como em anos anteriores: “Tivemos de nos sacrificar e pedir à autarquia para nos pôr meia dúzia de arcos festivos na rua e oferecerem a luz. A Junta deu as tascas para fazermos o bar para podermos vender alguns doces”.

Os apoios da população acabam por ser fulcrais para o arranque das comemorações. A angariação de fundos para a festa é feita porta a porta antes das festas e, a esse montante, a comissão de festas junta apenas o que consegue angariar no bar durante os dois dias de baile. “Costumamos ir às pessoas que já estão habituadas a dar um contributo para as festas de Nossa Senhora da Encarnação”, explica ao i Conceição Mano. No entanto, o envelhecimento da população e a falta de interesse dos jovens também não ajudam e a festa vai, aos poucos, perdendo força. A própria organização começa a dar sinais de desgaste. Este ano, a comissão ponderou nem sequer organizar bailes e dedicar-se apenas à procissão. “Nós gostávamos que alguém se juntasse a nós porque estamos a ficar já com alguma idade e cansadas”, diz a mesma responsável.

Mas enquanto houver festa, continua a existir diversão. O Rancho das Cantarinhas de Buarcos juntou-se recentemente aos festejos, para dar mais cor às comemorações: “Oito dias antes das festas, o Rancho das Cantarinhas vem à igreja de Buarcos, aprende os cânticos e cantam na missa. No fim dançam à porta da igreja”, explica Bruno Almeida, chefe geral do grupo de acólitos da paróquia. São também os elementos do rancho que, no dia da procissão, levam o andor principal, terminando o momento festivo com uma atuação à porta da capela. “Nós damos um destaque a esta festa incluindo o Rancho das Cantarinhas nos momentos religiosos. É um momento irreverente que seria impensável há uns anos”, explica o chefe do grupo de acólitos ao i.

Uma festa que começou com a cobrança de rendas Um dos principais pontos desta festa é a capela da Nossa Senhora da Encarnação, situada num dos pontos mais altos da vila. É nela que se foca toda a parte religiosa destes festejos. Mas nem sempre os romeiros se dirigiam a esta capela – antes do século XIX, a romaria rondava a capela da Senhora dos Navegantes. No entanto, o espaço onde este edifício se encontrava foi transformado num cemitério nos finais do século XIX, o que acabou por afugentar os crentes. É nessa altura que se dá a mudança para a capela da Nossa Senhora da Encarnação, onde, até aqui, se realizava apenas uma pequena celebração em honra de Nossa Senhora, que ficava marcada pela vinda dos monges de Coimbra para cobrarem as rendas dos terrenos.

A romaria consistia apenas em abrir as portas a quantos queriam rezar, não havendo nenhuma procissão ou momento festivo. Foi mesmo construída uma casa ao lado da capela – chamada casa das novenas – onde “quem quisesse ficar nove dias em oração podia dormir em esteiras no primeiro andar e cozinhar num borralho comum da parte de baixo”.

A procissão viria mais tarde, já no século XX, depois da implantação da República. “Só por volta de 1910/1920 é que se começa a estabelecer o costume de se fazer uma pequena procissão que trazia a imagem da Senhora da capela à parte de baixo, à zona dos pescadores”, explica o padre Carlos Noronha Lopes.

Prova da dimensão desta romaria é a quantidade de ex-votos – quadros oferecidos em jeito de gratidão pelos milagres concedidos, que, no caso desta vila, costumam ilustrar embarcações – que foram ofertados a esta capela e atualmente se encontram na igreja paroquial. “Nós tirámos as obras da capela porque começou a existir um interesse comercial nas mesmas e, depois do 25 de Abril, houve várias tentativas de roubo”, conta o pároco.

Uma tradição que o tempo mudou Entretanto, algumas coisas mudaram nos costumes religiosos. A procissão, que acontece todos os anos no primeiro domingo depois do dia 8 de setembro, ganhou um novo momento: o andor sai da capela e desce por uma grande avenida até chegar perto do mar, onde é feita uma paragem, e dá-se um momento de saudação cantada. “Achei que devíamos começar a dar à procissão do dia [de Nossa Senhora da Encarnação] um momento temático e catequético”, explica o padre Carlos, criador desta nova tradição.

“A saudação a Nossa Senhora é um momento de cinco a oito minutos em que se dirige uma palavra agradecida e suplicante para que ela, na sua proximidade e intimidade com Deus, continue a olhar por nós”, acrescenta o pároco.

Toda a parte litúrgica é associada a um tema, que este ano é o mar: “Estamos a celebrar os 20 anos da Expo98 e Buarcos teve uma grande influência no pavilhão da Santa Sé”, explica Bruno Almeida.

Com uma festa “em crise”, qual a linha que separa o religioso do popular? “Muitos costumam dividir as comemorações em parte religiosa e parte pagã, mas essa ideia está errada. A festa é só uma”, defende o padre Carlos.

 

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