20/11/18
 
 
Mário Cordeiro 04/09/2018
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

“Home alone”

Deve ficar explícito que, idealmente, nenhuma criança ou adolescente com menosde 12 (ou se calhar mais) anos deveria ficar sozinho em casa

Todos os dias, milhares de crianças e adolescentes ficam sozinhos em casa, seja por algumas horas, seja por largos períodos do dia. Muitos pré-adolescentes e adolescentes vêm da escola e têm de usar a sua chave para entrar numa casa que está vazia. Todas as semanas milhares de pais tomam a decisão de deixar os filhos sozinhos, seja porque vão trabalhar, seja porque têm compromissos sociais ou outros. Muitas vezes, além do estudo e dos trabalhos que têm, as crianças e jovens ainda assumem a responsabilidade de tomar conta de irmãos mais novos ou de avôs idosos. Outras, talvez para a maioria, a companhia que têm nas suas casas é o silêncio ou o som anónimo, mas reconfortante, da televisão.

Embora seja raro ficarem sozinhos à noite, não nos iludamos: há períodos do dia em que os riscos, a ansiedade e o medo são idênticos aos que ocorrem a altas horas da noite, especialmente quando, como acontece a partir da mudança da hora, a escuridão chega mais cedo, e com ela os fantasmas e as angústias, mas também os perigos reais.

O filme “Sozinho em casa”, que fez as delícias de muitos, pintava um quadro aterrador, mas simultaneamente vencedor; nem todos, contudo, têm o expediente do herói da fita (“sozinho” em casa, mas bem apoiado por uma equipa técnica de primeira linha) e a realidade é infelizmente bem menos indulgente do que nesse filme. O humor do filme ia, aliás, a par do seu irrealismo.

Deve ficar explícito que, idealmente, nenhuma criança ou adolescente com menos de 12 (ou se calhar mais) anos deveria ficar sozinho em casa. Não se podendo alterar os horários dos adultos e o tipo de vida que se tem (sob pena de se irem criar graves problemas socioeconómicos, habitacionais, carências de vários tipos, etc., que se iriam repercutir ainda mais intensa e negativamente no bem-estar da criança), pelo menos pode tentar-se, numa primeira série de medidas:

• Acertar melhor os horários – e muitas vezes é possível fazê-lo, se se equacionarem os problemas e a vida da casa em conjunto;

• Ver se há atividades e “tempos livres”, ATLs ou salas de estudo, em que a criança possa estar acompanhada (embora, por outro lado, estar sempre ausente de casa implique ganhar-se menos gosto por ela);

• Rever se há alguém que possa acompanhar a criança (familiares, vizinhos, inclusivamente, alguém pago);

• Ver se há alguém que possa fazer o caminho da escola para casa com a criança e alguém que possa dar apoio e vigilância no domicílio, mesmo não estando sempre presente.

Estar sozinho em casa, se à primeira vista pode ser considerado como um lampejo de liberdade e de autonomia, pode causar, por outro lado, angústia e ansiedade, especialmente quando escurece numa altura em que os meios de comunicação e os cidadãos não falam de outra coisa que não sejam roubos, assaltos ou crimes hediondos, pintando um quadro terrível e maléfico da natureza humana e de perigo constante que, felizmente, não corresponde à verdade.

Há, assim, vários aspetos a investir, que podem tornar a estadia em casa sozinho mais agradável e mais segura:

• É essencial pensar na preparação da criança e na sua personalidade, para lá da idade. No entanto, muitos pré-adolescentes parecem seguros e resolutos, mas ficam com medo, embora não o confessem (por vergonha ou por receio das consequências);

• É necessário dialogar com a criança e negociar as regras do que se vai passar em casa, quer quanto à utilização da casa e dos bens, quer quanto a regras mínimas referentes a outras coisas;

• Os telefones e contactos dos pais e de pessoas conhecidas devem estar bem evidentes, para que a criança possa utilizá-los, se necessitar;

• Devem ficar bem claras as regras de segurança, designadamente instruções relativas a abrir portas e telefones – a criança ou adolescente nunca devem abrir a porta sem terem a certeza absoluta de quem está do outro lado (só com contacto visual) nem dar a entender que estão sozinhos;

• Convém recapitular quais os acidentes mais frequentes que podem acontecer, para rever também a sua prevenção; ainda nesta linha, vale a pena recapitular quais as situações potencialmente perigosas que podem ocorrer e o que fazer em caso de emergências (médicas, fogo, álcool, drogas, estranhos...);

• A política de “admissão” de amigos e colegas de escola também tem de ficar muito bem definida desde o princípio. Os pais devem negociar este aspeto, mas impor a sua autoridade;

• É importante rever quais as responsabilidades para com outras pessoas que eventualmente estejam na casa, como idosos, etc. Os adolescentes podem já ser responsáveis em dar lanche ou medicamentos a familiares que, por exemplo, estejam acamados, mas têm de saber como o fazer;

• Colaborar nas tarefas de casa é um dever de quem nela habita. Sem fazer do jovem um escravo da família, é lógico que quem tem mais tempo livre dê um contributo na lide das tarefas comuns, pois também usa a casa. Pôr a mesa, ter já o banho tomado sem deixar a casa de banho num caos e outras coisas semelhantes não é pedir muito... (depende da idade, mas o treino e a compreensão dos porquês, tem de começar bem cedo). Não é ajudar, é cumprir um dever no ecossistema familiar;

• O uso de eletrodomésticos tem que ser criterioso, porque alguns (como a faca elétrica, o micro-ondas, etc.) têm de obedecer a regras específicas de segurança;

• Por fim, há que estabelecer regras quanto ao uso dos ecrãs, mesmo que seja quase uma tarefa ciclópica controlar os “ditos cujos”.

O ritmo de vida das pessoas, para além de intenso e fatigante, traz novos problemas, quer aos adultos, quer às crianças e aos adolescentes.

Sem fazer drama e sem tentar apenas o ideal, podem melhorar-se as situações práticas de forma a que os riscos e perigos de estar sozinho em casa sejam minimizados… para todos!

P.S: na próxima terça o meu cão vai explicar porque é que tem toda a lógica seguir as recomendações da Comissão Europeia e passar a não mudar a hora… são tantas as razões que precisam de um espaço grande.

 

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

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