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Eleições no Brasil. O que se pode dizer de político em oito segundos?

Eleições no Brasil. O que se pode dizer de político em oito segundos?

Carl de Souza António Rodrigues 30/08/2018 22:11

A campanha eleitoral chega hoje à televisão. Bolsonaro tem pouco tempo para transmitir a mensagem 

A campanha televisiva para as eleições brasileiras de 7 de outubro começa hoje. Com novas restrições impostas pela lei eleitoral (quer de gastos, quer de tempo), vários candidatos presidenciais ficaram reduzidos a espaços de poucos segundos no pequeno ecrã para transmitir a sua mensagem. E num país onde a televisão ainda é o meio mais importante para fazer chegar a mensagem ao eleitorado, esses segundos podem não ser suficientes para angariar os votos suficientes para chegar à segunda volta - marcada para 28 de outubro.

 Renato Meirelles, especialista em sondagens, presidente do instituto Locomotiva, está convencido que Jair Bolsonaro, que surge em primeiro nas sondagens (sempre que o nome de Lula da Silva fica de fora), dificilmente ganhará esta eleição. Não só porque os cerca de 20/21% com que aparece creditado nas intenções de voto parecem ser o seu teto (é o candidato com maior taxa de rejeição, praticamente causando urticária a dois em cada três brasileiros), como os oito segundos diários de propaganda televisiva deixam-lhe pouco espaço para ir para lá do pregar aos convertidos.

“Não adianta ele ir muito bem num debate se a versão sobre o debate será dada pela imprensa - que ele não simpatiza e que não simpatiza com ele - e pelo horário de televisão que só os adversários têm”, explicou o especialista, entrevistado pelo “El País Brasil”.

Daí que a campanha de Bolsonaro - tal como a de Marina Silva (a duas vezes candidata à presidência tem apenas 21 segundos diários) -, procure minimizar o impacto televisivo nesta eleição e coloque todas as fichas na internet.

Pelo contrário, Geraldo Alckmin, o ex-governador do São Paulo, está a apostar tudo na TV para conseguir chegar à segunda volta. O candidato do PSDB juntou a maior coligação de partidos apoiantes, daí que dos 12 minutos e 30 segundos de tempo de antena a cada dois dias para todos os candidatos vá ocupar mais de metade (5 minutos e 32 segundos).

Alckmin precisa desse espaço televisivo como de pão para a boca, tendo em conta os seus resultados nas sondagens. A última, divulgada ontem pelo site Poder360, dá-lhe 7 por cento de votos seguros e a segunda maior taxa de rejeição (62%), a seguir a Bolsonaro. O que o ex-governador de São Paulo procura são os 27% de pessoas que admitem votar nele e que, somados aos 7%, lhe garantiriam um lugar na segunda volta.

Curiosamente esta sondagem mostra que Lula ou um candidato apoiado pelo ex-presidente têm a maior percentagem de eleitores que “votariam com certeza”: Lula tem 30% sólidos sins (mais 7% prováveis) e o “candidato apoiado por Lula” uns seguros 25% (mais 17% prováveis). Mas o único candidato que será realmente apoiado pelo antigo chefe de Estado, atualmente preso em Curitiba, condenado a 12 anos e um mês de prisão, tem resultado diferente. Fernando Hadad, o ex-prefeito de São Paulo, que o Partido dos Trabalhadores escolheu para substituir Lula se o Tribunal Superior Eleitoral não aceitar a candidatura deste, só consegue 8% de votos seguros. Mas os 26% de prováveis votantes e uma baixa taxa de rejeição (apenas 52%), dão alento aos dirigentes do PT. Com a segunda maior fatia de tempo de antena (2 minutos e 23 segundos) para fazer o eleitorado conhecer Hadad e passar a mensagem de que é o candidato apoiado por Lula.

O tempo de cada candidato nos blocos de propaganda eleitoral foi calculado com base no número de eleitos (deputados e senadores) de cada partido que o apoia. Bolsonaro, que se candidata apenas com o apoio do PSL, vai ter apenas oito segundos e 11 inserções de 30 segundos de publicidade; por contraste, Alckmin, terá os 5 minutos e 32 segundos mais 434 inserções de 30 segundos.

Bolsonaro e Marina Silva apostam na internet e nas redes sociais para suprir a falta de tempo de antena na televisão e querem passar a mensagem de que esta eleição se decide longe dos ecrãs de televisão. E se é certo que a internet vai ter um papel como nunca teve antes, não se pode também sobrestimar a sua influência. O Brasil tem 30 milhões de eleitores que não acedem à internet e dos que acedem só um terço possui alguns conhecimentos digitais.

Além do mais, se nos Estados Unidos a internet foi usada para mobilizar o eleitorado de Donald Trump e desmobilizar o eleitorado opositor, no Brasil isso não poderá ser feito da mesma forma porque o voto é obrigatório. Entusiasmados ou não os 147 milhões de eleitores irão às urnas a 7 de outubro depositar o seu voto.

“Nessa situação o voto útil tem um papel muito maior” e numa eleição a duas voltas é ainda mais importante, “e o facto hoje é que 73% dos brasileiros votam no menos pior”, diz Meirelles. E para evitar que o pior chegue à segunda volta, o voto útil é antecipado, o que poderá jogar contra Bolsonaro e Alckmin, cuja taxa de rejeição é a maior entre todos os candidatos.
 

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