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Pedofilia. A carta explosiva que põe o Papa em xeque

Pedofilia. A carta explosiva que põe o Papa em xeque

AFP Rosa Ramos 28/08/2018 10:43

Antigo embaixador da Santa Sé em Washington diz que o Vaticano  protegeu o cardeal McCarrick, acusado de abusos sexuais a menores, durante 18 anos. E assegura que o Papa Francisco o promoveu, mesmo sabendo que era pedófilo. Ao ponto de lhe ter retirado castigos aplicados por Bento XVI

É uma carta inédita na Igreja Católica e completamente demolidora para o Papa. O arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, que foi núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em Washington entre 2011 e 2016, acusa Francisco de ter protegido o cardeal americano McCarrick - acusado de abusos sexuais de menores - e de lhe ter levantado castigos aplicados por Bento XVI. O testemunho vai mais longe e pede mesmo a resignação do Papa, além de revelar como, durante 18 anos, altos representantes do Vaticano terão ignorado sucessivos alertas sobre a conduta sexual desviante do cardeal Theodore McCarrick. 

No domingo ao final do dia, na viagem de regresso da Irlanda para a Roma, Francisco foi confrontado com as acusações, mas recusou-se a fazer comentários. “Li esta manhã o comunicado de Viganò. Digo isto sinceramente: leiam-no vocês, atentamente, e façam um juízo pessoal. Não direi uma palavra sobre isto, penso que o documento fala por si”, afirmou. E, ontem, o silêncio manteve-se: o Vaticano não se referiu ao assunto, apesar de, entretanto, Jean-François Lantheaume, que trabalhou na nunciatura de Washington, ter vindo a público afirmar que Viganò “está a dizer a verdade”. Antes, um porta-voz do cardeal Donald Wuerl - um dos vários implicados na carta por supostamente terem ignorado avisos de do antigo núncio - já tinha garantido que este nunca recebeu qualquer informação de Viganò sobre McCarrick. 

Carlos Viganò assegura, no entanto, que a nunciatura apostólica informou a Santa Sé, por diversas vezes, da conduta sexual do cardeal, sem que nada lhe tenha acontecido. Numa carta de 22 de novembro de 2000 terão sido encaminhadas as primeiras denúncias, de um padre americano, Boniface Ramsey, que garantia haver rumores de que o então arcebispo McCarrick “partilhava a cama com seminaristas”, convidando cinco de cada vez para passarem fins de semana na sua casa de praia. Alguns dos jovens já teriam sido, entretanto, ordenados padres.  

Viganò assegura que, seis anos mais tarde, a 6 de dezembro de 2006, escreveu, ele próprio, ao então secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Tarcisio Bertone, voltando ao assunto e propondo “medidas exemplares contra o cardeal, que tivessem um efeito medicinal para prevenir futuros abusos”. Na missiva, Viganò terá recordado que seria “salutar que, por uma vez, as autoridades eclesiásticas interviessem antes das civis e, se possível, antes que o escândalo rebentasse” na imprensa. “O meu memorando ficou com os meus superiores e nunca me foi devolvido com qualquer decisão”, garante o antigo núncio, que diz ter voltado a escrever em 2008, depois de o então Papa Bento XVI ter visitado os Estados Unidos e afirmado que os abusos sexuais são “um grande sofrimento para a Igreja”. Mais uma vez não houve resposta, mas Viganò diz ter sabido, de “fonte segura”, que Bento XVI aplicara sanções a McCarrick: “teria de deixar o seminário onde vivia, ficou proibido de celebrar [missa] em público, de participar em encontros públicos, de dar palestras, de viajar”, além da “obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência”.

Apesar disso, Viganò - que admite não saber se a pena foi aplicada em 2009 ou em 2010, porque entretanto se mudou para Roma - lamenta que a Santa Sé tenha demorado uma década a agir, ainda que acredite que a culpa não foi de Bento XVI, mas do seu então secretário de Estado, Tarcisio Bertone, que “reconhecidamente promoveu homossexuais a cargos de responsabilidade e costumava fazer a  gestão de informação que considerava conveniente para o Papa”. Na carta, o antigo núncio envolve o nome de pelo menos 15 cardeais no encobrimento dos abusos de McCarrick, desde Angelo Sodano, secretário de Estado até 2006, a Pietro Parolin, o atual secretário de Estado. 

 

Papa levanta sanções

Ainda de acordo com o testemunho de Viganò - que começou por ser publicado, por estes dias, em sites ligados à ala mais conservadora da Igreja -, assim que o Papa Francisco chegou ao Vaticano, em 2013, após a resignação de Bento XVI, o cardeal McCarrick regressou à vida pública. E em força: chegou mesmo a viajar, em representação da Igreja, à República Centro Africana. E passou a ser visto em palestras e seminários. Viganò terá questionado vários responsáveis sobre se a pena canónica lhe tinha sido levantada, sem obter respostas. E, em junho de 2013, no primeiro encontro que teve com o Papa Francisco, contou-lhe que havia um dossiê sobre McCarrick e que este tinha sido castigado por Bento XVI. Porém, nada terá acontecido ao cardeal - que, desde a eleição de Francisco, ficou “livre de constrangimentos”, viajou “continuadamente”, deu palestras e entrevistas. Ao mesmo tempo, foi sendo promovido, tendo-se tornado “mediador entre a Cúria e os Estados Unidos”, sendo o “mais ouvido conselheiro”. Viganò garante que McCarrick e o Papa Francisco são “amigos” e que o cardeal terá tido um papel de relevo na sua eleição, em 2013. 

As acusações vão mais longe, com o antigo núncio a garantir que Francisco (que só expulsou o cardeal no mês passado, depois de o escândalo ter rebentado na imprensa) não só protegeu McCarrick, mas também outros abusadores, além de homossexuais. E avisa que, em breve, poderá “repetir-se um escândalo [de pedofilia na Igreja] nas Honduras tão grande quanto o do Chile”, porque o Papa insiste em proteger o cardeal hondurenho Maradiaga, a quem chamou para coordenador do Conselho dos Cardeais (o chamado “C9”, grupo responsável pela reforma da Cúria). 

Viganò pede, assim, a resignação do Papa, “em coerência com a tolerância zero” que tem proclamado e avisa que há “redes homossexuais na Igreja, espalhadas” por dioceses, seminários e ordens religiosas, que são protegidas e estão “a asfixiar toda a Igreja”. Terá sido essa a motivação de Viganò para divulgar a carta: “acabar com a conspiração de silêncio” que vigora na Igreja e que contribui para que a pedofilia continue. “A corrupção atingiu o topo dos topos da hierarquia da Igreja”, denuncia o antigo núncio, que encoraja os bispos e os padres de todo o mundo a falarem: “Não tenham medo”. 

O que irá acontecer? Ninguém consegue prever. “É como aqueles 15 segundos da queda da ponte de Génova. A Igreja encontra-se neste instante limite. Não se consegue perceber o que se vai passar”, admitia ontem, ao i, fonte do Vaticano.

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