20/11/18
 
 
Mário Cordeiro 28/08/2018
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

Cuidar do coração adolescente…

A discussão já dura há décadas. Dados recentes mostram que é possível fazer-se um crescimento normal sem a sobrecarga habitual de gorduras que caracteriza a alimentação na sociedade ocidental

A polémica não é recente. Desde há muito tempo, mais concretamente quando se percebeu a dimensão catastrófica das doenças cardiovasculares – enfartes do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, “tromboses” e “apoplexias”, problemas arteriais das pernas ou renais – que a comunidade científica tentou descobrir formas de prevenção dessas situações.

Estando essas doenças intimamente ligadas à deposição do colesterol e de outras gorduras (triglicéridos, por exemplo) nas paredes das nossas artérias, tornando-as mais estreitas e dificultando a passagem do sangue, e sendo a origem desta gordura predominantemente alimentar, a solução pareceria estar numa dieta racional e com baixo teor de gorduras, para toda a gente, mesmo que se admitisse que havia – como há – um grande componente familiar na tendência para a deposição dessas gorduras nos vasos. Um dos factos que veio a lume foi a necessidade de começar essa prevenção em idades muito jovens, desde criança e, sobretudo, na adolescência, idade em que se consolidam os hábitos alimentares, a prática de exercício, o consumo de tabaco e de outros produtos, e tantos outras “maneiras de estar na vida”.

Logo surgiram vozes discordantes: então não era o nosso cérebro, o nosso “computador central”, tão rico em colesterol? Não estava o colesterol na origem de hormonas, de substâncias indispensáveis ao organismo? Não se descobrira que, afinal, havia um colesterol “bom” (o chamado HDL) entre os outros “maus”? Porquê então privar as crianças desse elemento fundamental? Não comerem a gema dos ovos? E queijo? E manteiga? E natas? Então não andavam a dizer que era indispensável consumir lacticínios? E não precisam os adolescentes de comer bem para crescerem?

Por outro lado, vieram algumas vozes mais consensuais dizer que, se por um lado as crianças poderiam comer e deveriam comer de tudo, por outro adquiririam hábitos que, passados uns anos, lhes fariam mal à saúde. Portanto, nem sim nem não. “Nim”.

Bom. A discussão já dura há décadas e garanto-vos que é quase tão veemente como certas discussões políticas, da construção de um novo aeroporto à regionalização. Ou mais. Mas os dados novos e mais recentes, surgidos na sequência de estudos muito bem fundamentados e rigorosos, voltam a pôr o dedo na ferida e demonstram que é possível fazer-se um crescimento normal sem a sobrecarga habitual de gorduras que caracteriza a alimentação na sociedade ocidental. Ou seja, as gorduras são importantes, mas não exageremos. Por outro lado, também se demonstrou que as crianças e os adolescentes aprendem melhor do que os adultos a ter hábitos dietéticos saudáveis e que aceitam isso sem problemas de maior, ao contrário de nós para quem qualquer alteração é um drama.

Em resumo, parece lógico recomendar-se o seguinte:

1. Todas as crianças devem ter um cuidado especial em não ingerirem quantidades grandes de gorduras, especialmente as de origem animal mamífero, mesmo que não tenham antecedentes familiares de doenças cardiovasculares – o leite deve ser meio-gordo e os produtos lácteos (iogurtes, queijo, requeijão, queijo fresco, etc.) magros; por outro lado, as carnes mais gordas (porco) e derivados (enchidos) devem ser evitados, ou reservados para os “dias de festa”;

2. A gordura do peixe é boa, porque é um tipo de gordura insaturada – o salmão é um excelente peixe para dar às crianças, pese, segundo alguns veterinários, estarem carregados de produtos, quando produzidos em viveiros. A sardinha é excelente, mas tem o problema das espinhas;

3. É conveniente os pais conhecerem e transmitirem ao médico-assistente da criança a história familiar de colesterol elevado, tensão alta, enfartes do miocárdio ou acidentes vasculares cerebrais nos vários elementos da família;

4. Se houver estes antecedentes, especialmente com início em idades jovens (por exemplo, algum familiar próximo com enfarte aos 40 anos de idade), a criança ou o adolescente deverão fazer análises para ver se estão também em risco;

5. Convém não esquecer que há vários tipos de lipoproteínas “agarradas” ao colesterol – as HDL são protetoras e aumentam (ainda bem!) com o consumo de iogurtes dirigidos ao colesterol, exercício físico (andar a pé, principalmente) e manutenção de um peso adequado; As gorduras “más” são as LDL e, principalmente, as VLDL. Se o colesterol for normal e o HDL mais de um terço dele, o panorama é bom.

Milhares de portugueses morrem prematuramente por doenças cardiovasculares, na maioria dos casos evitáveis – estas doenças são, neste momento responsáveis por quase 50% das mortes em Portugal. Os enfartes do miocárdio estão a aumentar exponencialmente, sobretudo nas mulheres, mesmo que a sintomatologia seja diferente nos dois sexos. Claro que, para lá da alimentação, há outros fatores a controlar, e alguns deles desde a adolescência, como a gestão do stresse, o consumo de tabaco (que deve ser zero porque é, isoladamente, o fator mais perigoso), a vida sedentária (ecrãs, ecrãs e ecrãs…, escolas sem programas dedicados ao corpo e ao físico, entre outras), o excesso de peso, etc.

A prevenção tem de começar em idades muito jovens se queremos chegar a algum lado. Tal como o cancro ou as doenças reumatismais, a diabetes e tantas outras, as doenças cardiovasculares são “doenças pediátricas”, ou, dizendo melhor, são doenças que interessam particularmente aos grupos etários pediátricos, nomeadamente aos adolescentes, porque começam insidiosamente nestas idades e só se previnem se se atuar desde muito cedo.

Vale a pena agir, para que possamos (ou possam os nossos filhos e netos) viver mais anos, como se prevê, mas sobretudo com melhor qualidade de vida, em todas as suas fases, designadamente na velhice.

PS: foi no dia 28 de Agosto de 1963, há 55 anos, que Martin Luther King proferiu o seu discurso no Lincoln Memorial Center, em que disse “I have a dream!”. Seria assassinado menos de 5 anos depois, mas o seu sonho conseguiu, em parte, tornar-se realidade, especialmente quando Barack Obama (que saudades!) foi eleito presidente dos Estados Unidos da América. É bom reler o seu discurso e pensar nele, porque o sonho corre sempre o risco de se esfumar, nesta voragem dos tempos, dos esquecimentos, do vazio da memória e do ataque do populismo.

 

Pediatra

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