20/9/18
 
 
Alfredo Barroso 27/08/2018
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Uma direita doentia e descerebrada

Nunca como agora o CDS-PP esteve tão perto da extrema-direita. Já o PPD-PSD tornou-seuma contradição nos seus próprios termos, com a facção mais fanática e reaccionária adepta de Passos Coelho incapaz de aceitar a eleição democrática de Rui Rio para lhe suceder

Desde que foi desalojada do poder por um governo do PS sustentado pelas esquerdas no parlamento, a direita portuguesa mais reaccionária foi perdendo as estribeiras, os pedais e os travões e passou a carburar, desarvorada, à custa do ressentimento e de um virulento anticomunismo primário à maneira de Salazar: quem não é por nós é contra nós e todos os que estão contra nós são comunistas, mesmo aqueles que não são. O ressentimento, como se sabe, anula por completo a capacidade de avaliar e ajuizar, e eclipsa os factos, ou seja, a realidade. O que é mau para quem faz política.

Para esta direita que se tornou doentia e descerebrada, as políticas defendidas por este governo do PS prometiam a desgraça do país e um forte aumento do desemprego. Mas agora que o desemprego atingiu mínimos em mais de década e meia, a direita reclama os louros e proclama que se trata de consequência directa das políticas de austeridade brutal impostas ao país e ao povo pelo excelso governo de Passos-Portas-Relvas-Gaspar-depois-Albuquerque-Cristas e ‘tutti quanti’ adictos à ‘troika’.

Esta direita doentia e descerebrada já se terá esquecido da enorme devastação económica e social provocada, ao longo de quase cinco anos, pelas suas políticas ‘para além da troika’ (lembram-se?). E pelas privatizações escandalosas e feitas a eito (por exemplo, a dos CTT). Mas, sobretudo, pelos cortes brutais nos salários, nas pensões, nos abonos e apoios sociais, nomeadamente nos subsídios de desemprego. E pelo desinvestimento nas empresas e serviços públicos essenciais (veja-se o que está a suceder na CP e na ferrovia em geral), designadamente nos meios de combate aos fogos (a par do aumento descontrolado do plantio de eucaliptos). E pelos ataques brutais contra o Estado Social, sobretudo contra o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, favorecendo hospitais e colégios privados. 

E agora atribui ao actual governo as consequências do que ela própria fez.

Esta direita que se tornou doentia e descerebrada, sem outros argumentos políticos a não ser o do ‘bota abaixo’ e o do anticomunismo militante, também não aprecia as regras da democracia quando elas não favorecem os seus intentos. Alimenta-se de um profundo ódio a tudo o que lhe cheire às esquerdas. Nem as concebe, aliás, com uma alternativa credível e legítima. Quer esmagá-las ou empurrá-las para um gueto político. Depois de ‘exfiltrar’ o PS. A histeria de alguns dos seus dirigentes contra elas chega a ser patética.

Hoje, na direita, as vozes genuinamente democráticas são minoritárias. Já o CDS-PP, por exemplo, que há muito se afastou da democracia cristã, especializou-se, com Assunção Cristas e Nuno Melo, na insolência e no insulto, constantemente às cavalitas de todo e qualquer ‘fait divers’ ou episódio político susceptível de ser usado contra este governo (como no caso da ferrovia, ignorando que os últimos gestores da CP eram altas figuras do seu partido). Nunca como agora o CDS-PP esteve tão perto da extrema-direita.

Já o PPD-PSD tornou-se uma contradição nos seus próprios termos, com a facção mais fanática e reaccionária adepta de Passos Coelho incapaz de aceitar a eleição democrática de Rui Rio para lhe suceder. E com o inevitável Pedro Santana Lopes - o derrotado que aceitou dar a cara pelos ‘passistas’ - a romper o compromisso que assumiu de cooperar com Rui Rio, abandonando o partido para fundar um novo, designado ‘Aliança’ (todavia sem o adjectivo ‘democrática’) para, imagine-se, reunificar as direitas.

Que fique bem claro que não sou um adepto incondicional deste governo, nem vou ‘à bola’ com alguns dos seus membros, como os ministros Adalberto e Centeno. Mas prefiro mil vezes um governo assim, sustentado e ‘fiscalizado’ pelas esquerdas, e susceptível de ser melhorado, do que qualquer governo de direita que se assemelhe ao do Passos-Portas-Relvas-Gaspar-Albuquerque-Cristas e ‘tutti quanti’, afecto aos patrões e empresários e alérgico aos trabalhadores, defensor dos privilégios dos ricos e poderosos e pela imposição da austeridade às classes populares e à pequena e média burguesias, para usar a inofensiva linguagem do marxismo. Também não aprecio as soluções do tipo ‘bloco central’, que se revelaram sempre ‘madrastas’ e ‘magarefes’ para o PS. Sei do que falo, até porque fui membro do único governo do ‘bloco central’, entre 1983 e 1985.

Mas o meu interesse foi analisar uma direita que se tornou doentia e descerebrada, e que agora se põe em bicos de pés com arrogância, presunção, insolência e má-criação, apesar duma vacuidade política, ideológica e programática de bradar aos céus, não só face a este governo mas também face ao que resta da outra direita genuinamente democrática que prefere dar tempo ao tempo enquanto cura as suas feridas. Nomeadamente, as causadas quer pela austeridade ‘para além da troika’ quer, mais recentemente, pela volubilidade e a perversidade do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-comentador da TVI e ex-presidente do PPD-PSD que sempre gostou de dividir para reinar…

Essa direita, de um fanatismo doentio e descerebrada pelo ressentimento, corre o risco de desmoronar-se enquanto aguarda por uma hipotética ruína da frágil aliança das esquerdas, que todavia já se aguenta há três anos. Há um curioso ditado popular - que serviu ao João César Monteiro para fazer uma ‘fita’ - em que essa direita doentia e descerebrada devia meditar seriamente: ‘Quem espera pelos sapatos do defunto morre descalço’…

 

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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