19/11/18
 
 
José Cabrita Saraiva 23/08/2018
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Na oficina somos todos ricos

Descobri recentemente que há uma forma quase infalível de começarmos o dia irritados: telefonando para a oficina onde deixámos o carro a arranjar. Em primeiro lugar, porque o serviço nunca fica pronto no prazo previsto. Mas pior do que isso é que qualquer arranjo aparentemente simples ou substituição de uma peça, por mais corriqueira que seja, pode custar os olhos da cara. O carro precisa de um espelho retrovisor? São 450 euros. As rótulas dos amortecedores (sim, porque a anatomia automóvel tem segredos com que nem sonhávamos) estão com folga? Passe para cá 500 euros. E um teto de abrir elétrico estragado? Isso é trabalho para uns 1500 euros. Mais IVA.

De um momento para o outro, apercebemo-nos de que, se desmontássemos o automóvel - portas, vidros, pintura, caixa de velocidades, direção, ópticas dos faróis, válvulas, etc., etc., etc. - e vendêssemos as peças uma a uma pelo valor que nos pedem, receberíamos uma fortuna. É uma espécie de revelação: o nosso carro velho e desengraçado afinal vale o equivalente a um apartamento numa zona simpática…

Talvez por isso a oficina seja um dos poucos sítios onde os clientes são tratados como ricos. E nem precisam de ter um supercarro. Os injetores estão avariados? A funcionária explica-nos com a maior calma do mundo, enquanto tentamos disfarçar o choque, que o arranjo custa 240 euros. Vezes quatro. Mais IVA. “Mas o ideal era pôr uns injetores novos. Fica-lhe a 400 euros cada. Mais IVA”.

É em momentos como estes que ficamos a pensar que andámos uma semana inteira, todas as noites e todas as manhãs, a espremer o tubo da pasta de dentes para extrair o conteúdo até à última gota; que deixámos de comprar um livro porque custava 16 euros e tínhamos esperança de o encontrar um ou dois euros mais barato; que no fim de semana optámos por almoçar em casa porque ficava mais em conta.

Para quê dar-nos a tanto trabalho? Quando na oficina pagamos uma fatura de 700 ou 800 euros sem pestanejar descobrimos que afinal talvez sejamos mais abastados do que imaginávamos. Mas tem mesmo de ser sem pestanejar - até porque a funcionária nos falou como se fôssemos tão ricos que pagar algumas centenas de euros por um injetor não nos fizesse qualquer diferença, e nós não a queremos desiludir.

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