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Infanto-juvenil. O reino das paixões selvagens

Infanto-juvenil. O reino das paixões selvagens

Diogo Vaz Pinto 22/08/2018 12:42

O livro infantil enfrentou sempre alguma desconsideração entre os géneros literários. Mas se seguirmos o coelho branco, é bem possível que sejam essas noções tão caras aos adultos a sofrer um abalo na estrutura. E aquilo que se destinou às mentes imaturas, pode provar um rasgo rebelde bem mais inquietante do que se esperava 

 

Desmedida e imensurável, a infância é um poço sem fundo que, se alguns tapam, outros vão bebendo dele pela vida fora com maior ou menor moderação. Peixes e estrelas vivem lá numa conta perdida junto com os trocos da imaginação; caindo de todos os bolsos, acumulam-se ali somas fabulosas. O poeta chileno Vicente Huidobro via nela um dom da ebriedade: “O sol nasce em meu olho direito e põe-se em meu olho esquerdo/ Na minha infância uma infância ardente como um álcool/ Sentava-me nos caminhos da noite/ a escutar a eloquência das estrelas/ E a oratória da árvore (...)” Nem sempre é fácil retomá-la mais tarde na vida, quando mais falta faz. É preciso uma ascensão, como dizia o poeta Manoel de Barros: “Depois que iniciei minha ascensão para a infância,/ Foi que vi como o adulto é sensato!/ Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?/ Como não furar lona de circo para ver os palhaços?/ Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?/ (Ausência da voz é infantia, com t, em latim.)/ Pois como não ascender até a ausência da voz -/ Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo -/ ainda sem movimento.”

Vamos aos poetas se estamos com fome de desaforos, os que ao invés de ir ansiosos ver as caixas de correio, sobem às árvores para saber o que há nos ninhos dos pássaros. Para Ruy Belo “a infância é o elemento da criança como a água/ é o elemento próprio do peixe”. E podemos aproveitar também a lição que Manoel de Barros tirou desse quinto elemento para ganhar a sua voz de poeta, “que é a voz de fazer nascimentos”. Ele nota que “O delírio do verbo estava no começo, lá onde a/ criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos./ A criança não sabe que o verbo escutar não funciona/ para cor, mas para som./ Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira.”

Já fomos longe o suficiente no delírio, mas para não ficarmos só pelo verbo mais coçado por essa outra razão, vamos ao nosso tema: o livro infanto-juvenil e a sua edição no nosso país. É uma área em que, desde o início desta década, pelo menos, “se edita muito e bem”, como assinala Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga, que publicou recentemente o extraordinário “Contos de Encantar”, do poeta e.e. cummings. Com um catálogo ainda breve, este tem revelado um notável empenho na erosão da fronteira entre os segmentos adulto e infantojuvenil. E há casos em que os autores que publica  estão tão distraídos dessa linha na areia que marcam pontos dos dois lados. Vladimiro oferece o exemplo de Gertrude Stein, “de quem publicámos “A Autobiografia de Alice B. Toklas” e “O Mundo É Redondo”. O que nos pode trazer à ideia de que a literatura é literatura é literatura, independentemente do público a que supostamente se destina”. Comprovando a ideia de que “o verbo tem de pegar delírio” (Barros), esta pequena editora independente arriscou também na publicação dos livros infantojuvenis de Ted Hughes, que “continua a ser um grande poeta na prosa de “O Homem de Ferro”. Originalmente publicado em 1968, trata-se de uma aventura de ficção científica, que inspirou Brad Bird a realizar, em 1999, a animação “O Gigante de Ferro”, hoje um filme de culto. Um quarto de século depois, mereceu uma sequela, “A Mulher de Ferro”, que, à semelhança do primeiro é uma narrativa ambientada num mundo desolador, ameaçado de destruição - “já não pelos arsenais nucleares e pela Guerra Fria, mas pela industrialização desenfreada que consome os recursos naturais e ameaça os ecossistemas”.

A Portugal, estes dois títulos, que beneficiam grandemente das poderosas ilustrações em xilogravura do artista britânico Andrew Davidson, chegaram em simultâneo, trocando o atraso de décadas da sua clarividente mensagem por uma urgência tocante. E o faro que se apura perseguindo, antes de tudo, a literatura é uma preferência que Vladimiro justifica em contracorrente face à abordagem das outras editoras nesta área e que, “quase hegemonicamente, nos parecia dar mais primazia à ilustração”.

Vladimiro confessa que foi já adulto que começou a olhar com mais atenção para a literatura para a infância, e isto por influência da mulher, Fátima Fonseca, com quem dirige a Ponto de Fuga.  “Como professora primária e boa leitora, a Fátima estava bastante atenta a essa área”, e se nunca esteve em causa a importância da expressão visual, outro título que exigiria melhor atenção é “A Árvore dos Desejos”, de Faulkner, “um concentrado de ‘O Som e a Fúria’ com essência de ‘Alice no País das Maravilhas’, servido com ilustrações que pontuam o texto no tom e na medida certos”, como o editor resume ao i. Mas Vladimiro não hesita em assumir que “o nosso grande orgulho são os ‘Contos de Encantar’”. E adianta: “Esse é um daqueles livros mágicos em que o todo vai muito para além da soma das partes. A Hélia Correia, que em boa hora os traduziu, diz que são ‘textos jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão’, e eu acho que não há maneira melhor de os descrever nem de explicar a escolha de tradutora, que os abordou com a sensibilidade, o saber e a modéstia necessários para que valha a pena lê-los em português”. E em sinal do apreço pela componente visual, o editor refere que as ilustrações de Rachel Caiano, “além de lindíssimas por direito próprio, são a expressão de quem compreendeu, sentiu e respeitou profundamente o texto”.

É muito difícil, senão mesmo impossível, escapar hoje ao império da adolescência, aos sucessivos marcos da literatura dirigida a um público mais jovem, e que tem produzido títulos, personagens e universos que são como marcas fundas nas ombreiras das portas ou em algumas paredes, assinalando a altura que fomos ganhando na casa onde crescemos. Há os infelizes nomes com que se baptiza cada geração, mas talvez mais nevrálgico seja apontar esses personagens como Harry Potter ou Katniss Everdeen, que, como referia a revista “Time”, simbolizam conceitos que se tornam a moeda corrente da cultura pop.

E, no entanto, se ninguém discute que estamos a viver numa era de ouro no que toca à importância da ficção dirigida ao público infanto-juvenil, como referiu a investigadora britânica e autora de livros para a infância, Catherine Butler, tem sido difícil afastar a noção de que a perspectiva dos adultos é que está em linha com a realidade, e que, por isso, é esta que importa, ao passo que a das crianças não passa de uma aproximação. “Quando aplicado à literatura infantil, isto reforça a crença de que os livros infantis são literatura com rodinhas”, que servem aos petizes para se iniciarem no terreno sério e exigente que cativa os adultos.

Por outro lado, a docente da Universidade de Cardiff, aponta o dilema que se apresenta ao escritor que se dirige a um público mais jovem: “Se criam um espaço vigiado e seguro, à margem da mais ampla vivência do mundo, são alvo do paternalismo dos outros escritores, que veem no seu trabalho uma forma de chuchar no dedo. Mas se cortam com essa noção de uma literatura confortável e acolhedora, então estão a corromper os mais jovens, que precisam de ser protegidos”.

Maurice Sendak, um dos mais celebrados autores da literatura infantil, que deu ao mundo o magistral “O Sítio das Coisas Selvagens” (1963) - um marco deste género que chegou a gerar polémica pelo tratamento nada exemplar para com as crianças, colocando-o na companhia das obras de outros heróis do imaginário da infância como Lewis Carroll, J.M. Barrie e Antoine de Saint-Exupéry -, sempre mostrou pouca paciência e até desprezo por aqueles que lhe vinham com a conversa de que o seu trabalho ficava numa posição secundária face à ‘verdadeira literatura’, essa que não toma reféns, que criva de balas a perspectiva que os adultos formam do mundo. “Eu não acredito nisso das crianças”, disse Sendak, sinalizando o seu desdém por estas fronteiras às vezes tão ténues, outras simplesmente artificiais: “Eu não acredito na infância. Não acredito que haja uma demarcação. ‘Ó, tu não deves dizer-lhes isso. Não podes dizer essas coisas’. Diz-lhes o que que quer que te apeteça. Diz-lhes se for verdade. Se for verdade tens de dizer-lhes.”

Nascido de judeus polacos e marcado pela morte de muitos dos seus familiares durante o Holocausto, Sendak rejeitava de todo a visão idílica que publicistas e tontos vão espalhando da infância. “A infância é uma coisa muito, mesmo muito complicada no que toca a sobreviver-lhe. Porque se uma coisa corre mal, se alguma coisa foge ao previsto - e normalmente alguma coisa sempre corre mal -, então estás tramado enquanto ser humano. Não deixarás de tropeçar nessa coisa ao longo de boa parte da tua vida.”

Rejeitando a tendência mais básica que impõe uma visão pedagógica no discurso que se dirige à infância, o poeta Manoel de Barros foi um acérrimo defensor de que o entendimento mais ingénuo era o do adulto. A sua sensatez era, afinal, uma grosseria, uma evidente forma de prepotência. Ora, ao invés de tentar sobrepor-se às faculdades do seu leitor, ele tenta seduzir um leitor emancipado, apontando a infância como um terreno desimpedido, onde é mais fácil desencadear um olhar sensível sobre o mundo, um que não veja nele a inércia, mas ultrapasse a mesmidade, renovando-o pela sensação, numa perspectiva das coisas que é um parto constante.

Nisto, o poeta brasileiro está em linha com Jacques Rancière quando este ataca a pedagogia e o seu imperioso e arrogante preceituário: “A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção estruturante da concepção explicadora de mundo. É o explicador que tem necessidade do incapaz, e não o contrário. É ele que constitui o incapaz como tal. Explicar alguma coisa a alguém é, antes de mais nada, demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só. Antes de ser o ato do pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia, a parábola de um mundo dividido em espíritos sábios e espíritos ignorantes, espíritos maduros e imaturos, capazes e incapazes, inteligentes e tontos.”

É o próprio livro infantil quem vai sabotar essa pedagogia barata, pois trabalha com a imensa disponibilidade de um leitor que não está colonizado ainda pelos limites dessa fabricação que surge tantas vezes na sua versão mais austera e vil, mais pobre e triste: o real na sua histeria de facto consumado. O que mais se ouve dos arautos desse beco é que não há alternativa. Mas há. E para deitar por terra esse “Sítio das Coisas Banais”, temos muito a ganhar se não encararmos a infância como um tempo regulado simplesmente pela ilusão, mas antes um tempo em que ilusão e facto convivem num mesmo nível de consciência, num lugar onde a fábula e o mundo trocam inspiração, animam-se mutuamente, e assim alargam os seus horizontes. 

De resto, como aponta o filósofo Giorgio Agamben, é a idade adulta que se mostra uma degenerescência perigosa, e que é bem clara na imagem desse “homem moderno que volta para casa à noitinha, extenuado por uma mixórdia de eventos – divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes”. Mas, “entretanto, nenhum deles se tornou experiência”. Ora, se há uma coisa que separa a criança do adulto é a sua fome de experiência, que faz a sua competência na hora de atribuir à menor das suas descobertas uma importância decisiva, uma importância vital e capaz de alterar a relação entre todas as suas verdades.

E, a este respeito, as palavras de Sendak ganham a clareza atroadora de um relâmpago, quando diz: “Acredito que não há nenhuma altura das nossas vidas, seja a adulta ou a infantil, em que não estejamos a fantasiar. Simplesmente, preferimos relegar a fantasia para as crianças, como se não fosse mais do que uma tolice que só é adequada às imaturas mentes dos mais jovens.” E conclui com este fenomenal remate: “As crianças vivem mesmo na fantasia e na realidade; andam de trás para a frente com uma habilidade que a nós já se nos foi esquecendo.”

Afonso Cruz, que não deixou nunca a fila dos miúdos que fazem um ato de socialização traçando a mijo nos muros os arabescos e hieróglifos da infância, é também um dos nossos romancistas mais destacados. Mas há sempre uma marca desviante, uma queda pelo onírico que marca a sua ficção, que põe tração no desfasamento lírico com que inflige golpes no mundo adulto. E quando lhe perguntamos se o campo infanto-juvenil funciona como uma abre-latas dos horizontes editoriais, diz-nos o seguinte: “Sim, acho que o livro infantil-juvenil, paradoxalmente - paradoxalmente, porque aquilo que é dirigido às crianças tem normalmente regras muito rígidas - permite liberdades e uma exploração que noutros casos não são aceites pacificamente. De resto, os adultos reagem a qualquer factor de estranheza, não se limitando aos livros que lhes são dirigidos. Os leitores adultos, que deveriam ser experientes e com plasticidade, têm especial dificuldade em compreender inovações nos livros infantis-juvenis, criticando cores (quando comecei a ilustrar, o preto era uma cor proibida ou a evitar), vocabulário e temas tratados como sendo inadequados. Em alguns contextos, é uma atitude compreensível, noutros é simplesmente falta de visão.”

Quanto ao que o atraiu para este género, o escritor vinca essa relação, não apenas dialogal, entre texto e imagem, mas que chega a ser uma transfusão de sangues, de razões singulares “que permite explorar duas linguagens diferentes com potenciais distintos”.

Para se estar apto à tal ascensão à infância é preciso, antes de mais, absorver aquilo que a mãe de Manoel de Barros lhe disse tinha ele 13 anos, idade em que lhe apareceu o seu primeiro verso: “Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.” Diz o poeta que foi mostrar a obra à mãe, e ela retrucou: “Agora você vai ter que assumir as suas/ irresponsabilidades.” E ele adianta: “Eu assumi: entrei no mundo das imagens.” Assim,  para ganhar margem de manobra no mundo, é bom começar logo com as palavras, fazer delas um brinquedo. E isto acontece de forma bastante natural, como sublinha Giselly dos Santos Peregrino num ensaio sobre o poeta mato-grossense: “Um dia, não sabíamos o significado de determinada palavra e, quando o descobrimos, passamos a usá-la toda hora, mostrando a todos nosso novo brinquedo, nossa infantil descoberta. Um dia, olhamos para certa coisa e não sabíamos nomeá-la e, por isso, inventamos um nome. Isso é sentir a infância. Não significa ter saudades do que vivemos, mas atualizarmos o que vivemos.”

Na voz do poeta, o mesmo serve para lembrar que, às explicações mais seguras, a infância escapa sempre, não se deixando agrilhoar como objeto de ciência. E neste modo de resistência ao mundo moderno subjugado pelo regime dos tecnocratas, Manoel de Barros sugere “aproximarmo-nos daquilo que em nós são vestígios de crianças, resíduos insistentes e, por vezes, impertinentes sinais pueris daquilo que não conseguimos deixar de ser”.

O livro infanto-juvenil é um ensaio para a rebelião. Se surge tão constrangido por tudo o que se espera que ele faça, diga e seja, as exigências didáticas e a condição moral que lhe é imposta, ele torna-se hábil no seu modo de evadir-se, sair dessa camisa-de-forças. É por isso que os livros que vão fazendo deste um género selvagem são objectos tão difíceis de definir, como explica ao i André Letria, o editor da Pato Lógico. Com um catálogo também ele bastante desenvolto nesta área, Letria diz-nos que este livro “empurrou e diluiu as fronteiras que de certa forma o oprimiam e catalogavam como género menor e invadiu espaços que não lhe pertenciam até há alguns anos”. E precisa até que “a própria designação ‘infanto-juvenil’ é posta em causa pelos autores e editores que concebem livros que dizem ser ‘para todos’, ‘para quem os quiser ler’, ‘para os mais novos e os menos novos’. 

Este género tem tido um papel significativo no próprio setor editorial, cada vez mais voltado para o lucro imediato, aquele de que os gestores do livro podem orgulhar-se nas avaliações trimestrais com a administração. É o tipo de análise que faz boa figura na folha de Excel, mas que, na sua razão abstémia, deixa escapar e até escorraça tudo o que sejam patinhos feios. Neste desafio, para não frustrar a componente lúdica deste objeto, sem complexos na hora de reforçar a sua dignidade literária, o livro infantil extravasa a sua função, sendo uma leitura e um brinquedo, um jogo e uma construção.

E a propósito da relação mais profunda que se cria com o leitor, André Letria esclarece um dos princípios norteadores da atividade editorial da Pato Lógico: “Os livros que publicamos encaram o leitor como uma parte integrante do processo criativo, desafiando a curiosidade e apelando à sua vontade de descodificar mensagens que podem ser de interpretação múltipla.”

E destaca dois títulos do catálogo: 1. “A Nuvem”, de Rita Canas Mendes e João Fazenda, uma alegoria sobre os tempos modernos. Uma nuvem misteriosamente estática provoca reacções desmedidas, como as que vemos e muitas vezes fomentamos no nosso dia a dia. 2. “Sonho”, de Susa Monteiro, o livro mais recente da nossa coleção de livros silenciosos - Imagens Que Contam -, em que convidamos ilustradores a contar uma história apenas com imagens. Este “Sonho” é uma viagem entre um homem e um tigre, personagens improváveis à procura de um destino comum, com todos os finais em aberto.

Outras editoras que, a este respeito, mais do que a nossa estima merecem admiração e até louvor pelo trabalho que têm feito, são a Orfeu Negro, a Kalandraka, a Jacarandá. Se estas três não chegaram a responder às nossas perguntas, perto da hora de fecho da edição ainda nos chegou o testemunho de Isabel Minhós, responsável da Planeta Tangerina, uma editora que, a nível da expressão visual, nos apresenta tantas vezes álbuns que são verdadeiros livros de artista. E Minhós adensa o argumento do livro infantil como um objeto que assume a sua mais plena identidade numa insubordinação face ao mercado, rejeitando ser mais um objeto descartável, produzido em massa para ser consumido à pressa. “Porque é lido, relido, manuseado, tocado, folheado para trás e para a frente (e mordido, cheirado, dobrado…), o livro infantil é um objeto com o qual o leitor tem uma relação mais física. É um livro ao qual quase sempre se regressa (ao contrário de muitos livros que lemos em adultos) e esse é um lado interessante: por um lado, como autores, sabemos que o leitor não está ali de passagem, a saltar páginas, a ler na diagonal (apesar de ter sempre esse direito) e, nesse sentido, concordo que a relação que os leitores têm com o livro infantil possa ser mais profunda (mas esta não é uma regra universal); por outro lado, essa personalidade mais física abre as portas para uma série de aspetos. Se o livro está tanto tempo nas nossas mãos, se passa tanto tempo debaixo dos nosso olhos, se a ele regressamos tantas vezes, faz sentido jogar também com as suas características materiais (formatos, tipos de papel, tipos de impressão, acabamentos etc). Mas nem sempre é fácil fazê-lo, respeitando uma certa ética de produção. Convém lembrar que muitos acabamentos mais luxuosos ou inventivos que vemos nos livros para crianças (pop up’s, cortes, transparências, etc.) só são viáveis porque feitos em países asiáticos, em condições que nem sempre conhecemos. Portanto há que ser inventivo também de outros modos. E olhar para as etiquetas quando se compra.”

E, para fecharmos, aproveitando esta visão do livro infantil como um objeto cujo charme se faz da sua insatisfação com os limites que lhe são postos, voltamos ao autor de “O Sítios das Coisas Selvagens”, e a um dos episódios que mais o marcaram nas interações e trocas de correspondência que foi mantendo com os seus leitores mais novos. “Houve um miúdo pequeno que certa vez me enviou um postal tão encantador onde tinha feito um pequeno desenho. Adorei-o. E tenho o hábito de responder a todas as cartas que recebo de crianças - às vezes faço-o é um pouco à pressa -, mas dessa vez demorei-me a fazê-lo. Enviei-lhe um postal onde desenhei um dos Monstros [d’“O Sítio das Coisas Selvagens”]. E escrevi: ‘Querido Jim: adorei o teu postal.’ Depois recebi uma carta da mãe dele, em que dizia: ‘O Jim gostou tanto do seu postal que o comeu.’ E isto para mim foi um dos maiores elogios que alguma vez recebi. Ele pouco se importou que se tratasse de um desenho original de Maurice Sendak ou algo do género. Ele viu-o, adorou-o e comeu-o.”

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