12/11/18
 
 
João Lemos Esteves 21/08/2018
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

António Costa/Catarina Martins: do socialismo nacional ao nacional-socialismo?

Vivemos tempos perigosos em Portugal

1. A geringonça foi o pior que sucedeu politicamente a Portugal nas últimas décadas. Pior até que o socratismo pelos seus efeitos estruturais no sistema político português: enquanto a governação desastrosa de José Sócrates e a consequente pré--bancarrota do Estado português foram fenómenos temporalmente localizados, cujos vícios primaciais decorreriam de vícios de personalidade do primeiro-ministro, o impacto da geringonça vai prolongar-se muito para além de uma legislatura. A união de facto (poliamorosa) entre o PS de António Costa e o BE - Banhada de Esquerda de Catarina Martins poderá dissolver-se já no próximo ano; porém, o “pântano” que esta legislatura está a criar na administração pública portuguesa (e a apatia cívica que agravou na sociedade em geral) perdurará por muitos anos. 

2. Será muito difícil reverter os estragos que este (des)governo já produziu, onerando ainda mais as gerações futuras: definir um novo paradigma de estratégia nacional exigirá um trabalho meticuloso, persistente e de enorme coragem das futuras maiorias (não socialistas) políticas. Os portugueses não têm a noção exata - até porque a comunicação social lhes omite - da tomada de poder levada a cabo por socialistas, bloquistas e comunistas nas estruturas intermédias da administração pública, decisivas para a promoção de um país mais rico e mais justo. Os problemas, todavia, não são somente de índole económica: antes, projetam-se no próprio plano da vitalidade e do dinamismo da democracia pátria.

3. Desde logo, no que concerne ao sistema partidário em sentido estrito, a geringonça (onde se inclui o PSD anémico de Rui Rio: este ainda confunde amiúde a sua função de líder do PSD com a sua vocação de aliado e amigo do coração de António Costa) levou ao tropismo o domínio da esquerda. Doravante, a regra será a esquerda intervir em qualquer solução governativa; a exceção será a direita governar. Porque, caso PSD e CDS não lograrem obter, em conjunto, uma maioria absoluta, será o PS a assumir o papel de força política dominante. Precisamente porque passou a representar (graças ao BE e ao PSD de Rui Rio) a função de partido-charneira: ora vira à extrema-esquerda, ora vira à esquerda mais próxima da direita (PSD de Rio). Na verdade, hoje, o PS desdobra-se em três planos distintos: no plano da aparência, governa à esquerda; no plano das ideias, doutrina ao centro; no plano da realidade, não está em lado algum porque não governa - limita-se a estar no poder (o que é bem diferente de exercer o poder). Ora, na política portuguesa, não estar em lado algum é estar em todo o lado - o governo de António Costa, ao não governar (ou governando cumprindo serviços mínimos), parece que está à esquerda (para uns) e parece que está ao centro (para outros). Dá para tudo! Oliveira Salazar aconselhava os seus mais próximos colaboradores a fingirem-se de mortos para se manterem vivos politicamente - pois bem, António Costa inventou o “governo faz de morto” ou o “governo faz de conta até às próximas eleições”. 

3.1 Em segundo lugar, a geringonça expôs as fragilidades endémicas da democracia portuguesa. Portugal não é uma democracia liberal: é apenas uma democracia quase iliberal. Estamos, neste sentido, mais próximos da Hungria de Viktor Orbán, no que respeita à saudade do regime democrático, do que da Alemanha de Angela Merkel, da França de Macron. Ao contrário do que é propalado à exaustão pelos nossos políticos e (pseudo)intelectuais, o 25 de Abril construiu a democracia sem criar uma cultura de liberdade. 

3.2 A sociedade portuguesa de hoje dá tanto valor à liberdade como a sociedade que viveu sob os auspícios do salazarismo, se descontarmos as particularidades de cada época. Os portugueses temem a liberdade, temem o exercício pleno da liberdade, porque temem o governo. Temem os poderes, jurídicos e de facto, com os quais se relacionam com um temor reverencial que não é compatível com o funcionamento de uma democracia plena. Emitir opiniões políticas sem cedências a interesses ou fidelidades a grupos ou pessoas é, no Portugal em que vivemos, um ato de excecional coragem e abnegação. Para uns, heroísmo cívico; para outros, pura loucura. Costumamos evocar o exemplo de um ex-aluno nosso que nos confidenciou que gostaria muito de escrever sobre política, mas os pais não o autorizavam. Razão: poderia incomodar gente importante e, consequentemente, ficar desempregado para a vida. Isto foi em 2010 - não foi em 1973! E todos sabemos que um aluno do 10.o ano já tem a perceção de que se entrar para a política ingressando num partido de esquerda (maxime no PS) terá a vida mais facilitada…

4. As considerações expostas supra revestem particular relevância na sequência das pressões para impedir a intervenção de Marine Le Pen na edição da Web Summit do presente ano. Sobre este caso, já muito foi escrito - a maioria pronunciou-se no sentido contrário ao desconvite à política francesa que disputou a última eleição presidencial com Macron. Subscrevemos, no essencial, os argumentos aduzidos para sustentar tal posição. No entanto, não podemos deixar de enfatizar quatro aspetos que ainda não foram devidamente salientados:

4.1 Os que hoje alinham pelo diapasão do Bloco de Esquerda de indignação pelo convite a Marine Le Pen são os mesmos que, há poucos meses, ofereciam extensas lições sobre os benefícios de discutir com os adversários políticos, olhar os “populistas” nos olhos e exaltar os seus erros. Afinal, esqueceram as lições que os próprios nos tentaram impingir até há bem pouco tempo. 

4.2 A repercussão que o desconvite a Marine Le Pen teve nos média franceses (e internacionais em geral) é um embaraço para a imagem de Portugal - da credibilidade da sua democracia - no contexto mundial. No fundo, trata-se de o governo português contribuir para censurar alguém que exerce funções políticas em França e registou um número de votos significativo nas últimas presidenciais. É, pois, difícil de conceber que uma política que já representou o seu país no Parlamento Europeu, que foi a segunda personalidade mais votada nas presidenciais de 2017 de um país que é nosso aliado na União Europeia, seja censurada em Portugal. Depois deste episódio, todas as entidades privadas passarão a submeter os programas de iniciativas por si organizadas ao “exame prévio” das vanguardas socialistas e bloquistas: agora foi Marine Le Pen; amanhã será alguém da direita moderada até se chegar ao “estádio ideal” em que só os apologistas de ideias de esquerda poderão exprimir-se livremente. 

4.3 Esta intromissão informal do governo reforça a ideia, partilhada pela maioria dos agentes económicos e culturais internacionais, segundo a qual para realizar qualquer empreendimento em Portugal é necessária a bênção prévia do poder político. Nenhum negócio, nenhum evento se concretiza sem a total concordância do governo - ora, isto asfixia a iniciativa privada e diminui drasticamente a liberdade individual. Por outro lado reforça--se, assim, o poder do Partido Socialista - havendo a ideia de que Portugal é maioritariamente de esquerda, os agentes internacionais julgam que basta ter a proteção do PS para almejarem os seus objetivos. 

4.4 Catarina Martins e António Costa mostraram-se muito ofendidos pela vinda de Marine Le Pen devido ao seu “discurso de ódio” - no entanto, esta é a mesma Catarina Martins que promove, no site do seu partido, mensagens de ódio contra Israel, corroborando declarações antissemitas do Hamas e de Mahmoud Abbas. Que apela ao boicote e destruição de Israel, de todo um Estado e, portanto, também do seu povo. No entanto, este discurso de ódio promovido por Catarina Martins não é objeto de investigação criminal pelas autoridades competentes nem de repulsa geral. Só há dois tipos de ódio que não são interditos, sendo até promovidos: o ódio contra os cidadãos que não são de esquerda e o ódio contra Israel e os judeus. Atenção: ao contrário de Catarina Martins, que amordaçou Marine Le Pen, nós defendemos exatamente o contrário - não calem nem a Catarina Martins nem nenhuma figura da esquerda portuguesa. Deixem-nos falar: quanto mais falarem, mais os portugueses perceberão a sua inacreditável incompetência e falta de senso. 

5. Tempos perigosos estes que vivemos em pleno Portugal geringonçado. Neste Portugal amordaçado. Aplicando o critério de Costa/Catarina Martins, ditadores como Salazar, Mussolini, Hitler ou Estaline eram uns verdadeiros democratas: tal como António Costa e Catarina Martins, aqueles ditadores apreciavam as liberdades de pensamento e de expressão - desde que se concordasse com as suas ideias e se elogiasse a sua atuação providencial. Heil, António Costa! Heil, Catarina Martins!

joaolemosesteves@gmail.com

Escreve à terça-feira
 

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