21/11/18
 
 
António Cluny 21/08/2018
António Cluny

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Dos incêndios das florestas aos dos espíritos: uma reflexão de verão

É na floresta de enganos propalados por alguns média que se desenvolvem depois os fogos incontrolados dos populismos

Se, nos primeiros instantes, o tempo das férias permite, aparentemente, mudar as rotinas e as preocupações que pontuam os outros dias do ano, rapidamente, ainda que de outra maneira, algumas delas assaltam-nos de novo, inquietando-nos até mais.

Depois de uns dias na praia, lendo os jornais, sentado ou deitado, a lentidão do tempo aquecido pelo sol mostrou--me, de facto, os problemas de sempre, mesmo que a uma luz mais reflexiva e, por isso, mais cruamente aguda. 

Parece, pois, por via desta luz mais direta e duradoura que as particularidades e os vícios dos relatos jornalísticos sobre a atualidade se tornam assim, de repente, mais evidentes e menos aceitáveis.

Tomemos, a título de exemplo, a maneira como muitos deles noticiaram os incêndios deste verão.

Na sua manifesta vontade de demonstrar responsabilidades, sempre difíceis de apurar e de estabelecer com alguma razoabilidade, reflete-se, afinal, uma convicção esmagadora sobre as possibilidades reais de os homens - políticos, técnicos, bombeiros - dominarem e resolverem, sempre e em qualquer circunstância, os desígnios da natureza e as causas que, ao longo de muitos anos, outros homens propiciaram, e se tornaram perenes. 

Não há dúvidas: se aconteceu assim é, necessariamente, porque alguém falhou.

Esta fé cega na capacidade de, num instante, o homem resolver problemas que lhes escapam por completo ou exigem, para serem superados, uma atuação pensada e concertada ao longo dos tempos - impõem uma atuação racional fundada num projeto social consistente - apenas contribui para a inflamação inconsequente dos ânimos e para a manipulação politiqueira dos factos.

Daí que depois se aceitem também, com a mesma ligeireza acrítica, as justificações políticas ou científicas mais inconsistentes e irresponsabilizantes e as apreciações mais oportunistas. 

Com efeito, esta propalada fé na existência inevitável de uma solução eficaz para tudo o que sucede, se, por um lado, incensa a racionalidade das soluções políticas quotidianas para além dos limites do possível, contradiz, por outro, a forma irrefletida como os mesmos órgãos de comunicação se dedicam a noticiar, quase sempre acriticamente também, respostas anticientíficas para problemas reais e realmente suscetíveis de solução com os conhecimentos atuais da ciência e a cautela exigíveis aos organismos competentes. 

É nesta floresta de enganos que se de-senvolvem depois os fogos incontrolados dos populismos, que ora apelam a racionalidades inexistentes, ora se alimentam apenas de emoções já turbadas pelo fumo da desinformação exaltada e pouco reflexiva. 

Quem tiver lido no “Ípsilon” a entrevista de António Guerreiro ao filósofo francês Frédéric Neyrat - cuja obra, de resto, não conheço - poderá, porventura, compreender melhor esta minha preocupação com os riscos do predomínio atual dos lugares-comuns veiculados hoje em dia por muitos órgãos de comunicação social. 

Dizer, como alguns, que isso obedece a uma estratégia predefinida de embrutecimento e manipulação política dos cidadãos será, possivelmente, exagerado.

Creio, aliás, que muitos dos que assim procedem são tão primariamente irrefletidos quanto imponderadas são as notícias ou opiniões que transmitem.

São já um produto de um relativismo transmitido e inculcado brandamente, ao longo de anos, por - esses sim - ideólogos politicamente interessados numa cidadania amansada, menos informada e, por isso, menos racional e politicamente interveniente. 

Escreve à terça-feira
 

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