19/11/18
 
 
António Rodrigues 20/08/2018
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

Apocalipse dantesco

O infoentretenimento televisivo transformou o jornalismo em vídeos de ação com palavreado hiperbólico onde não basta mostrar o fogo e as pontes caídas, é quase preciso arder e cair com elas

Desde que num direto de horas na BBC, com imagens de um avião parado numa pista de aeroporto, fui ouvindo os jornalistas contar, com o mesmo peso, notícias confirmadas e rumores, percebi que o mundo tinha mudado. Se nem a circunspecta BBC se contém naquilo que transmite é porque, hoje, a informação televisiva está modificada e o rigor cedeu na lista ao poder imediato das imagens.

O direto suplantou qualquer outra forma de jornalismo televisivo, convertendo-se em infoentretenimento, onde o repórter não só faz parte da história como a sua interveniência chega a ser essencial. Na queda da Ponte Morandi, em Génova, passei horas a ver a cobertura da questão pela Rai News, o canal noticioso da televisão pública italiana, e nele vi e ouvi o mesmo tipo de diretos (de repórteres a encherem minutos de transmissão com pouca informação) e o mesmo género de palavras que se vê e ouve na televisão em Portugal.

É como se, hoje, a cobertura noticiosa de um desastre tivesse de ser hiperbólica ou não ser. Um constante dramatismo, uma torrente de termos que começa a partir da tragédia e vai em crescendo. Já nos habituámos sempre que acontece um desastre natural, um grande incêndio ou um acidente de dimensões consideráveis a que surjam as habituais palavras no léxico.

“A tragédia, o drama, o horror” de Artur Albarran deixou de ser o exagero para se tornar o comum. O “apocalipse” ou o “dantesco” são adjetivos generalizados aquém e além- -fronteiras neste tipo de cobertura noticiosa. Se dantesco normalmente se usa na questão de incêndios, o apocalipse lá se ouviu no desastre anunciado da ponte de Génova.

O apocalipse está tão gasto que quando o verdadeiro chegar não vai haver na televisão palavra para o nomear (se bem que é certo que será o menor dos nossos problemas nessa altura).

Pelas nossas televisões, nunca seriam apenas quatro os cavaleiros do Apocalipse, mas quatro milhões, obrigando a maioria a montar pilecas por falta de alazões.

As televisões são como um Pedro que continuaria a gritar “lobo” mesmo quando a espécie já estivesse considerada extinta. Tanto se habituaram à gordura de encher emissões com diretos que muitas vezes, para se encontrar o osso da notícia, quase é preciso pedir um raio-X.

A televisão assumiu o jornalismo de proximidade como mantra e isso inclui o repórter envolto em chamas, como nesse direto de Monchique onde um jornalista à mercê do fogo vai fazendo o seu direto como se estivesse perfeitamente a salvo. Por trás dele, o vento lança fagulhas pelo ar de um dos lados; no outro, há uma casa e um carro a arder; e não conseguimos ouvir as palavras porque só pensamos que, se o vento muda, eles ficam ali.

E não sei se elogiar a coragem daqueles dois homens (jornalista e operador de câmara) por fazerem o seu trabalho em considerações extremamente perigosas ou criticar os seus editores que lá longe, em Lisboa, nada fizeram para interromper uma situação que estava a pôr em risco a vida de duas pessoas.

Como espetáculo televisivo, era de uma proximidade perfeita, deixava--nos sem fôlego como num bom thriller; em termos jornalísticos, o seu valor era quase nulo, porque não só nos distraía de qualquer palavra que o repórter estava a dizer como seria difícil que no meio do escuro da noite, só com as chamas como companhia, pudesse haver ali material informativo essencial para transmitir em direto daquele preciso ponto.

Sempre admirei a capacidade dos repórteres para falarem durante minutos de emissão mesmo quando têm pouco ou quase nada para dizer, mais ainda quando o fazem em situações desconfortáveis ou de perigo. Há excelentes jornalistas de televisão, mesmo que o espaço para o jornalismo de excelência se tenha reduzido – o que parece quase um contrassenso, tendo em conta a excecional duração dos nossos telejornais.

Uma das primeiras coisas que nos ensinam no jornalismo, para distinguir os diferentes meios, é que a rádio informa, a televisão mostra e os jornais e revistas (e agora os sites) explicam. A televisão carregou a tinta nesse mostrar e quanto mais de perto melhor. Não lhe basta transmitir as imagens de um incêndio, não descansa enquanto o espetador lá em casa não sente o calor das chamas e o cheiro a chamuscado.

E quando é colocada à distância de um desastre pela polícia, como o da queda da Ponte Morandi, a televisão tenta compensar com a multiplicação de diretos por todos os ângulos. Até as equipas de resgate e salvamento já filmam e distribuem imagens para que se possa conter a ânsia das televisões.

Neste tempo de redes sociais e estilhaçar de fontes, em que qualquer pessoa com um telemóvel pode filmar e colocar online imagens quase instantaneamente; em que o dinheiro da publicidade se dissemina e aquilo que chega aos canais televisivos (que continua a ser uma atividade cara) é cada vez menos, não estranha que a tabloidização televisiva se agudize e os repórteres se vejam obrigados a andar cada vez mais perto das chamas. Não tarda que tenham de cair quando caem as pontes, numa televisão snuff que adoraria colocar a advertência: as imagens que iremos transmitir poderão ferir os espíritos mais sensíveis (mas nós vamos transmiti-las na mesma).

 

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