24/9/18
 
 
Alfredo Barroso 20/08/2018
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Um adeus à minha geração

Mas isto não é um exercício de nostalgia. Nem de saudade. É tão-só evocar o que em tempos fomos e vivemos. E como a vida que tão intensamente quisemos viver – com as suas paixões e desamores, pequenas e grandes vitórias, e as inevitáveis desilusões e derrotas – nos escorrega rapidamente por entre os dedos e se desfaz em pó quando chega ao fim

Agora morreu a Aretha Franklin, rapariga de extraordinário talento, três anos mais velha do que eu. Nem sei quantas vezes ouvi “I say a little prayer”, quando saiu o disco de 45 rotações, tinha eu vinte e muito poucos anos de idade. E é cada vez mais angustiante a sensação de que a minha geração está a desaparecer, de que o meu mundo está a desabar. É sempre a música que me emociona. E são os que melhor a interpretaram, tanto a popular como a “séria”, que me abandonam. Com as mortes de Sergiu Celibidache e Claudio Abbado, por exemplo, dois admiráveis maestros, bem mais velhos do que eu, foi idêntica a sensação de perda, apesar de ter os discos com as suas soberbas interpretações de Bruckner e Verdi.

Agora estou a olhar para a magnífica fotografia que o mestre Augusto Cabrita nos tirou, no intervalo do jogo entre “cineastas” e “associativos” da tertúlia do “VáVá”, com alguma malta do jazz à mistura, no Estádio Universitário, em 26 de Março de 1966. Constato que mais de metade dos 25 que nela estão já morreram. Entre os “associativos” de quem fui amigo, morreram o Nuno Brederode Santos, o António Russo Dias, o Simão Santiago, o Carlos Barbeitos, o Armando Trigo de Abreu e o José Medeiros Ferreira. E ainda tenho de acrescentar dois amigos que não foram a essa “futebolada”: o José Luís Nunes e o Artur («Quico») Castro Neves.

Na foto, porventura histórica, também lá estão os cineastas do “Cinema Novo” que já morreram: o João César Monteiro, o Fernando Lopes e o Alberto Seixas Santos. Não está o Paulo Rocha, que era visita algo esporádica do “VáVá”, mas que filmou lá pelo menos uma cena dos “Verdes Anos”. E também lá está, na foto, o grande actor brasileiro Geraldo Del Rey (1930-1993), que contracenou com a minha tia Maria Barroso (1925-2015) no admirável filme de Paulo Rocha “Mudar de Vida”. Também estão na foto, e já morreram, o grande homem do jazz fundador do Hot Clube de Portugal, Luís Villas-Boas, pançudo e com a camisola de Direito, além de um grande fotógrafo e cinéfilo, o Gérad Castello Lopes. Felizmente vivo está outro homem do jazz, Manuel Jorge Veloso, autor da magnífica música de “Belarmino”, o belíssimo filme de Fernando Lopes com roteiro do Baptista-Bastos. E também está o António Escudeiro, cineasta e director de fotografia.

A expressão “cineastas” não precisa de explicações. Já a expressão “associativos” explica-se facilmente: andávamos quase todos em Direito, e outros em Letras, no Técnico ou em Agronomia. Tínhamos em comum, além da amizade, ser militantes e/ou dirigentes das Associações e pró-Associações de Estudantes, politicamente do “contra” e ideologicamente de esquerda, cinéfilos indefectíveis, quase todos leitores de Stendhal, Redol, Cardoso Pires e muitos outros autores (o meu tio José Manuel Mouzinho de Albuquerque Duarte já me citava de cor páginas inteiras de Camilo), melómanos, adeptos do bilhar e do poker, boémios e namoradeiros. As raparigas fiéis ao “VáVá” não estão na foto (não eram dadas ao pontapé-na-bola) mas estavam nas bancadas a apoiar os dois lados em campo. Cito algumas por ordem alfabética: a Ana Louro, a Lena Carneiro, a Maria Alice (“Milice”) Ribeiro dos Santos, a “Nina”, namorada do Simão Santiago. Também lá estaria a Marta, bela ex-mulher do Cristiano de Freitas, o mais famoso “playboy” do “VáVá”, com vários encantos, entre os quais um Triumph Spitfire depois trocado por um TR 4. Já eu, tinha de puxar pelas minhas qualidades de dançarino, no “Caruncho”.

Olho para a fotografia e lá estou eu de pé, elegante e esguio como já não sou, e com a farta cabeleira que já não tenho, enfiado na camisola de Direito. À minha direita: o Carlos Barbeitos (será o Manuel Amado que espreita entre nós dois?), o Alberto Seixas Santos (também à espreita), o Simão Santiago de mão na anca e um braço no ombro do Luís Villas-Boas, o Fernando Lopes, o António Escudeiro, o João César Monteiro a coçar a cabeça, e o Manuel Jorge Veloso já com uma meia descaída. À minha esquerda: o José Paulo Gascão Nunes (meio entalado), o Nuno Brederode Santos, o Fernando Vilhena (a espreitar), o Gérard Castello Lopes, um músico de jazz (belga, creio eu) que tocava no Hot Clube, o Ângelo Sajara, o Pedro Coelho (caído ali de páraquedas) e o Cristiano de Freitas. Sentados na relva estão o Geraldo Del Rey, o José Loureiro, o José Medeiros Ferreira, o Fausto Monteiro, o José Manuel Picão de Abreu, o António Russo Dias e o Armando Trigo de Abreu. Não estava lá o A-PV, António-Pedro Vasconcelos, logo ele, grande adepto da bola e do Benfica – estaria lesionado ou andava noutras vidas.

Esta tertúlia do “VáVá” (havia outras, por exemplo com o Lauro António, o Eduardo Prado Coelho ou o Fernando Tordo), a par da militância política e “associativa”, foi para mim e para os meus amigos bem mais importante do que o curso de Direito (que nessa altura durava cinco-anos-cinco). O “VáVá” era o vértice de um triângulo que incluía passagens (cada vez mais raras) pelos cafés do Saldanha, Monte Carlo e Monumental, já desaparecidos, e estadias (cada vez mais frequentes, a partir da meia-noite) na sala mais “democrática” do “Gambrinus”. Falávamos imenso das “fitas” que passavam pelos cinemas de Lisboa, quase todas censuradas, ou das que víamos nas retrospectivas do CCUL, Cine Clube Universitário de Lisboa, e, no Verão, em salas como o antigo “Alvalade” e o “Império”. Falávamos bastante das voltas que a vida nos dá, com muito “mal-dizer” e alguma gastronomia à mistura, mas também do que íamos lendo e ouvindo, de política pouco, do eterno feminino muito, e até das casas de fados onde por vezes íamos cear. Todos gostavam de “arrastar a asa” a dançar, mas, quanto a “boîtes”, entre tantos “tertulianos”, creio que eu seria o único frequentador “militante” e incondicional.

Mas isto não é um exercício de nostalgia. Nem de saudade. É tão-só evocar o que em tempos fomos e vivemos. E como a vida que tão intensamente quisemos viver – com as suas paixões e desamores, pequenas e grandes vitórias, e as inevitáveis desilusões e derrotas – nos escorrega rapidamente por entre os dedos e se desfaz em pó quando chega ao fim. Eu tinha 18 anos quando três amigos e colegas de Direito, o Nuno Brederode, o António Dias e o Ângelo Sajara, me “arrastaram” para o “VáVá”. Lembro-me de, logo no primeiro dia, ter ido com eles aos bilhares, numa cave das traseiras, onde conheci, a jogarem “às três tabelas”, o Fernando Lopes e o João (Martins) Rodrigues – magnífico artista plástico que desenhou, entre outras obras-primas de humor, um apartamento portátil que cabia todo numa gabardina. Mas o João Rodrigues, infelizmente, suicidou-se pouco tempo depois.

Ter-me-ei esquecido de referir alguns nomes? É provável. A idade não perdoa. Mas também tinha amigos que se repartiam por tertúlias em outras bandas. O Jaime Gama e o José Medeiros Ferreira, por exemplo, como todos os açorianos(as) que se prezavam, também frequentavam a “Grãfina”, cerca de 500 metros distante do “VáVá”, quase em Entrecampos. Mas a “Grãfina” também era sítio de convívio de jovens de Letras, futuros poetas, actores e encenadores de Teatro. E havia, ainda, quem preferisse o “Canas”, em Campo de Ourique, como era o caso, entre outros, do Hélder Costa, do José Luís Nunes ou do Fernando Brederode (irmão do Nuno e da Maria Emília). Mas foi na tertúlia de “cineastas” e “associativos” do “VáVá” que mergulhei a fundo, num tempo em que ainda ninguém vivia sob a “ditadura” da TV e preferíamos conviver e conversar uns com os outros nos cafés, viver as nossas vidas fora de casa, ir muito ao cinema, depois beber uns copos, às vezes ir cear a uma casa de fados, e errar pela cidade até altas horas da madrugada. Confesso que, não raras vezes, “fugi”, bem acompanhado, para a “boîte” mais divertida de Lisboa, o “Caruncho”, ali para as bandas do Lumiar. Direi até, toponimicamente falando, que a minha vida passou, basicamente: pela Praça das Flores, onde os meus avós moravam; por Campo de Ourique, onde morei com a minha mãe; pelo Campo Grande, onde fui aluno interno, durante 12 anos, no Colégio Moderno; pela Avenida dos EUA, onde frequentei o “VáVá” e, décadas depois, fui morar num nono andar; regressando a Campo de Ourique há cinco anos. Andei, por assim dizer, a gravitar em círculos. E agora, como dizem os franceses, “la boucle est bouclé”.

 

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