21/11/18
 
 
Mário João Fernandes 17/08/2018
Mário João Fernandes

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Velhos turcos, novos problemas

Erdogan já tinha usado contra a União Europeia a arma da imigração em massa. Esta semana explora as fragilidades da zona euro para conseguir apoio contra um gémeo político, Trump

A silly season já não é o que era, culpa da globalização. O bater de asas das borboletas afecta de forma imediata a vida dos lusitanos, mesmo que estes não saibam. Se a borboleta bater as asas em Ancara, não serão as televisões lusas que darão nota da chegada do tufão.

Uma das formas tradicionais de sobrevivência política assenta na criação de um inimigo externo, real ou imaginário, que permita mobilizar o apoio interno em torno de um líder. Esta mobilização torna mais fácil o controlo ou a supressão da oposição interna, facilmente acusada de conluio com o inimigo.

Erdogan ganhou, com surpresa, uma maioria absoluta na primeira volta das eleições de Junho. Os 52% de vantagem surgiram, pela primeira vez, num contexto de real possibilidade de vitória da oposição, ainda que dividida por três candidatos mas com Muharem Ince a obter quase 31% dos votos, disputando o voto religioso, suburbano e rural. Erdogan nunca governou numa conjuntura económica tão má, com um jovem genro como ministro das Finanças desde Julho. O braço de ferro entre Washington (com o Pentágono a querer recuperar o controlo político da utilização militar do território turco e o Departamento de Estado a sonhar com o regresso ao poder do laicismo republicano e o fim da coligação de interesses entre Ancara, Moscovo e Teerão) e Ancara evoluiu esta semana para o nível da zaragata. Com o pretexto da falta de vontade de Washington em extraditar um ex-aliado de Erdogan, o religioso Fettulah Gülen (o inventor do discurso político religioso, um anátema desde o kemalismo), Ancara achou por bem deter um pastor evangélico de nacionalidade americana, acusando-o de espionagem e de conspiração com Gülen no golpe de Estado de 2016. A possibilidade de troca, de tão forçada, parece ter escapado a Washington.

O início de uma guerra comercial, com sanções e aumento radical das tarifas alfandegárias, acelerou a desvalorização da lira face ao dólar e ao euro (40% desde o início do ano) e fez disparar a inflação (sobretudo no preço dos bens e serviços importados). O discurso de Erdogan, apelando aos patriotas turcos para trocarem dólares, euros e ouro pela lira, só contribuiu para o receio de estarem próximas as medidas administrativas de controlo da circulação de capitais, potenciando os movimentos de pânico, não só por parte dos nacionais mas, sobretudo, por parte dos investidores estrangeiros. A economia turca, no segmento das empresas privadas, está muito endividada junto da banca estrangeira. Pequeno pormenor: os bancos mais expostos à dívida contraída pelas empresas turcas (em euros e em dólares) são espanhóis (ou seja os bancos que dominam o sector bancário português) e italianos (os bancos com pior desempenho na zona euro e que há muito deveriam ter sido recapitalizados ou objecto de resolução à la BES).

Erdogan está em condições de abanar o sistema bancário espanhol e de fazer implodir o italiano, basta que o descalabro cambial continue e as empresas turcas não consigam pagar os empréstimos. Ameaçou com a saída da NATO e não precisa sequer de referir que pode voltar a escancarar as fronteiras turcas para deixar passar as vagas de imigrantes.

Em Setembro Erdogan visita Berlim e espera que a Srª. Europa lhe apresente soluções para gerir o amigo americano e salvar a economia. 

Por Washington nunca se apostou tanto no regresso da Turquia à tradição dos golpes militares em defesa de um regime laico e republicano.

Os cisnes negros continuam a ensombrar os verões europeus.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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