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Maias. Cientistas mais perto de descobrir razão da queda do império

Maias. Cientistas mais perto de descobrir razão da queda do império

DR Tatiana Costa 16/08/2018 21:59

Cientistas conseguiram, pela primeira vez, quantificar as dimensões do longo período de seca extrema que poderá ter determinado o fim da civilização Maia

A queda da civilização Maia é um dos mistérios mais debatidos entre a comunidade científica. No entanto, os especialistas continuam a investigar este povo, para tentar reescrever a história desta civilização, em busca da resposta para a tão célebre questão: Afinal o que provocou o declínio dos Maias?

Nesse sentido, já muitos estudos foram feitos e muitas teorias sobre a queda desta civilização têm surgido. Mas a maior parte da comunidade científica acredita que o que provocou o fim da civilização centro-americana foi um longo período de seca extrema. No início do mês, um grupo de cientistas conseguiu, pela primeira vez, quantificar a gravidade dessa seca, que terá ocorrido entre os anos 800 e 1000 a.C. 

A descoberta, que foi publicada na revista “Science”, vem assim reforçar a explicação para o declínio da civilização. Segundo o estudo, realizado por cientistas da Universidade de Cambrigde, no Reino Unido, e da Universidade da Florida, nos Estados Unidos da América, o período que foi identificado como o de seca mais extrema coincide com o declínio dos Maias. À “BBC”, Nicholas Evans, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambrigde, explicou que o grupo de investigação descobriu “que a precipitação média anual diminuiu cerca de 41 a 54% em relação a hoje, ao longo de várias décadas de seca. Períodos com até 70% de redução da precipitação podem ter ocorrido em períodos de tempo mais curtos dentro das secas”.

Agora os cientistas sabem que nas zonas onde fica atualmente a Guatemala, Norte de El Salvador, oeste de Honduras, alguns estados do sul do México e Belize, a humidade relativa diminuiu entre 2 a 7%. 

Os cientistas dizem ainda, que durante período de seca, a agricultura - uma das principais atividades e fonte de rendimento da civilização - foi severamente afetada.

Para chegar a esta descoberta o método foi bastante complexo. Os especialistas fizeram uma análise ao lago Chichancanab, no México, recorrendo a uma técnica de análise da composição isotópica dos sedimentos do lago. Esta análise permitiu reconstituir o longo período de seca, que se viveu na altura. “Foi quase como medir a água do lago”, disse Nicholas Evans.

O grupo conseguiu concluir que o período de seca extrema poderá ter durado cerca de 200 anos. 

 

Teoria não é nova

A teoria de que os Maias terão sido extintos devido à seca não é novidade. Já há muito tempo que o declínio desta civilização é justificado como sendo uma consequência das mudanças climáticas. Depois de um período de grande prosperidade, o poder político e económico da civilização começou a decair gradualmente. É por volta do ano de 850 a.C. que a população Maia começa a abandonar a cidade e, num espaço temporal de cerca de 200 anos, a principal civilização da América latina fica resumida a pequenos povos.

Depois de muita especulação, é no início dos anos 90 que a comunidade científica chega a um consenso: os Maias tinham caído no declínio por causa de um período de seca extrema.

Foi nesse sentido que foram desenvolvidos vários estudos que ligavam a queda do império Maia e as mudanças climáticas. No entanto, várias dúvidas sobre o misterioso desaparecimento ainda pairavam no ar. A diferença destes estudos para a descoberta publicada na revista “Science” prende-se com o facto de os estudos anteriores se basearem em reconstruções qualitativas, ou seja, só revelavam que o período de declínio terá sido mais seco que outros períodos. Apesar de ainda existirem bastantes dúvidas sobre a queda do império Maia, este novo estudo vem dar um novo alento à comunidade científica, que pela primeira vez consegue calcular a extensão do período de seca extrema. 

Martín Medina, da Universidade de Auburn, citado pelo “El País” disse que apesar de as secas não explicarem “a queda de todos os locais ou cidades maias”, que quase de certeza que houve eventos sociais e políticos “que contribuíram para a queda da civilização”. Segundo o especialista, este novo estudo vem apenas confirmar que o período de seca foi “suficiente intensa para causar graves perturbações sociais e talvez o colapso da civilização”.

 

Teorias sobre a queda dos maias

Os Maias, uma civilização meso americana pré-colombiana, eram famosos por serem um dos povos da América latina que mais conhecimentos desenvolveu. Eram conhecidos pela escrita, arquitetura, arte, matemática e ainda pela utilização de um calendário bastante semelhante ao dos dias de hoje. Resistiram à conquista dos espanhóis, continuando a desenvolver-se e atingindo o seu pico de desenvolvimento entre os anos 200 e 950 a.C., acabando por começar a regredir e a cair no declínio depois desse período. 

Guerras internas, invasões de povos estrangeiros, doenças, sobrepopulação ou até mesmo a mudança de clima, são algumas da teorias apontadas para o declínio desta civilização, no entanto, esta última hipótese tem sido bastante estudada e, de acordo com a comunidade científica, o clima seco terá provocado a dispersão do povo para outras zonas levando a que este sofresse um retrocesso a nível social, político e cultural, danificando severamente o seu maior meio de subsistência, a agricultura.

Mas afinal o que poderá ter dado origem a esse clima? De acordo com Nichols Evans não existe apenas uma explicação para este acontecimento: “Existem várias teorias, mas os dados não sustentam qualquer causa singular. Possíveis teorias incluem a desflorestação, mudanças na frequência dos ciclones tropicais, mudanças na frequência dos eventos El Niño e mudanças na posição da Zona de Convergência Intertropical, entre outros”. 

À seca, junta-se ainda a falência do sistema político, da agricultura e a sobrepopulação que poderá ter originado uma escassez de comida e assim provocado o desaparecimento dos Maias. Contudo, o mistério do que aconteceu ainda paira no ar e muitas perguntas ainda continuam sem resposta.

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