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Aretha Franklin. A voz de respeito

Aretha Franklin. A voz de respeito

AFP Davide Pinheiro 16/08/2018 18:00

Rainha da soul não era hipérbole para Aretha Franklin. Uma das mais importantes cantoras do Séc. XX calou-se aos 76 anos. Deixa uma obra em que a música foi a imitação mais perfeita do combate pelo afro-americanismo e um vozeirão maior que a vida

No dia do 60º aniversário da Rainha da pop, a Rainha da soul partiu após semanas no arame entre a vida e a morte.

Um cancro foi-lhe descoberto em 2010 e se no Séc. XXI a voz absoluta já fora cada vez mais silenciosa, de então para cá quase não se ouviu Aretha. No ano passado, ainda foi capaz de participar num concerto da Fundação Elton John pela prevenção e luta contra a SIDA_mas o corpo já não era capaz de suportar a dor. E a anunciada retirada dos palcos fez temer o pior, confirmado esta quinta-feira, 16 de agosto, aos 76 anos.

Uma sensação “doce e amarga”, declarou então. “A música é tudo o que fiz na vida”, reconheceu._E não foi pouco. Antes do empoderamento feminino de marca Beyoncé, já havia Aretha Franklin.

Filha de pai Pastor, começou por cantor no coro da igreja Baptista construída por Clarence LaVaughn Franklin. A mensagem passa e nomes como  Mahalia Jackson, Dinah Washington, Sam Cooke e Jackie Wilson frequentam a casa onde a petiz cresce. Aos dez anos, Aretha Franklin é conhecida como “a voz do milhão de dólares”. Com a ajuda do pai, grava um álbum gospel aos 14 anos. Em Nova Iorque, grava uma maqueta e chama a atenção de uma das duas editoras cruciais da soul, a Motown. Opta, no entanto, pela Columbia e passa a trabalhar com John Hammond, produtor de Billie Holliday e Count Basie.

É aí que Aretha Franklin evolui de cantora religiosa para diva do r&b, num tempo de modificação do rhythm & blues, para algo mais distante das bases do rock & roll e mais parecido com o r&b popularizado desde a década de 90 não só por Beyoncé, como também por Aaliyah, Rihanna ou Justin Timberlake. Grava e regrava  canções populares como “Walk On By” (Dionne Warwick), “You’ll Lose A Good Thing” (Barbara Lynn) e “People” (Barbra Streisand), além de um álbum integral de homenagem a Dinah Washington.

Êxitos modestos que antecederão a  época de ouro de Aretha Franklin quando não renova com a Columbia e assina pela Atlantic. Em 1967, é editado “Respect”, escrito por Otis Redding dois anos antes, mas enquanto o autor reclamava o respeito e reconhecimento da uma mulher, Aretha inverteu os papéis. O original foi bastante popular entre a comunidade negra mas “Respect” acabou por ser um daqueles casos na história da música em que a versão se fixa na memória coletiva como a interpretação definitiva.

Não só se tornou uma das canções simbólicas dos anos 60, como foi usada como hino de diversos movimentos feministas. “Foi a canção certa no momento certo”. haveria de contar à Elle em 2016. “Fiquei estarrecida quando chegou a número um. Manteve-se por várias semanas [no topo]”, reconheceria na mesma entrevista.

O título de Rainha da soul é-lhe atribuído não só pela popularidade alcançada numa era decisiva de luta pelos direitos civis dos afroamericanos, como pela honestidade. O canto de Aretha Franklin vinha de dentro. Atrás dela, não havia uma história para se arvorar.

Em 1963, o pai organizou em_Detroit a maior manifestação até então pelos direitos da comunidade negra. Cerca de cem mil pessoas assistiram à estreia de  uma versão inicial de “I Have a Dream”.

Através do pai, Aretha Franklin torna-se próxima de Martin Luther King, com quem chega a viajar. Quando este morre em 1968, só pode ser uma a voz de todas as orações fúnebres.

Morre Luther King mas não o sonho. Às lutas conta a opressão racial, a cantora junta-lhe o combate pelos direitos das mulheres. “Enquanto mulheres, nós ‘podemos’. Temos força e somos muito capazes. As mulheres merecem todo o respeito. Mulheres, crianças e idosas são as três classes menos respeitadas na sociedade”, criticava.

O radicalismo de Aretha Franklin é educado. Não participa em atos de desobediência às autoridades, comuns na época, mas prontifica-se, por exemplo, a pagar a fiança da ativista e membro do Partido Comunista, Angela Davis, quando esta é presa por 16 meses, devido a acusações de que seria ilibada.

A política passa a estar quase sempre presente. Em 1977, é convidada por Jimmy Carter a cantar na tomada de posse do novo Presidente dos EUA. E em 1993, Bill Clinton imita o seu antecessor. Aretha Franklin responde com uma interpretação sentida de “I Dreamed a Dream”.

Quando Barack Obama concorre à Casa Branca em 2008, une a comunidade negra à sua volta e, rodeada de artistas contemporâneas como Beyoncé ou Alicia Keys, é uma das vozes pivot. E é aí que arranca um dos maiores momentos neste século quando arranca “My Country, Tis of Thee” no empossar do primeiro presidente negro.

Quem entrega a Medalha Presidencial Liberdade é, ironicamente, o conservador George W. Bush em 2005. Para uma voz absoluta, o Séc. XXI é de discrição crescente e contrasta com a maratona de êxitos anterior. De 1967, ano do primeiro número um com “I Never Loved a Man (The Way I Love You)”, a “Break It to Me Gently” de 1977, soma e segue. Chega a ser a artista com maior número de canções no top americano – oitenta. E em 1987, é a primeira mulher com direito a uma estrela no Rock and Roll Hall of Fame.

Enquanto a estrela se apaga, a voz perde alcance. “Jump To It”, de 1982, é o último grande êxito reconhecível. É cada vez mais rara em palco. Sucedem-se os tributos premonitórios do pior. Não chega a nova gerações mas nunca perde o respeito entre músicos. Amy Winehouse venera-a e cita-a como referência maior.

Aretha Franklin, símbolo da América negra e da igualdade.

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