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Diz-me que comediante te faz rir e eu digo-te o teu tipo de sangue

Diz-me que comediante te faz rir e eu digo-te o teu tipo de sangue

Diogo Vaz Pinto 16/08/2018 11:54

Mais do que uma preferência de tom ou registo de humor, a tese que aqui defendemos é de que o nosso comediante de eleição criou connosco um laço de sangue. É o irmão mais velho ou o tio meio levado da breca que nos ensina o tipo de coisas que mais ninguém na família está disposto a fazer

Há ocasiões, invariavelmente lixadas, em que certas informações pessoais podem fazer a diferença entre vida ou morte. Estamos no verão e, como de costume, a silly season parece menos uma consequência indesejável do que uma operação bem montada. Afinal, ninguém quer ver um perfeito dia de praia arruinado por vislumbres do diabo a aparelhar a sela a algum presságio. O nível de descontração geral é de tal ordem que boa parte de nós nem faz ideia do seu tipo de sangue. Por agora, ainda é tão ridículo andar com chapas de identificação, e, com exceção dos militares, só rappers meio untuosos o fazem. Já no terreno social, com wifi ou sem, nunca um mal-entendido pôde tanto. Ora, para evitar as minas anti-pessoais espalhadas com tão grande zelo pelas brigadas ultra-prosseguistas, não seria má ideia se, além de uma app com dicas ao nível de georeferenciação, pudéssemos levar ao pescoço chapas com duas ou três informações cruciais, e que servissem como repelente para esse género de agentes infiltrados sempre ansiosos por transformar uma banal conversa num debate excruciante.

Ao fenómeno da tele-evangelização era de esperar que, no tempo das redes sociais, sucedesse algo mais enervante, nas linhas desta forma de ativismo à paisana, que revira as virtudes da boa convivência, da harmonia, do respeito pela diferença e que as troca por técnicas de assédio incessante e tortura dissimulada. Um tipo chega a dar por si nostálgico dos tempos em que o pior que lhe podia acontecer ao sair de casa era ser assaltado, ter de entregar a carteira, o telemóvel e mais qualquer coisa. Hoje, é mais provável, mesmo numa cidade que se conhece como a palma da mão, dar por si encurralado numa conversa como num beco sem saída, e isto por alguém que, ao invés de interessado em simples valores monetários, enfia o pé-de-cabra nas nossas convicções e valores mais profundos, para arrear as calças e defecar lá dentro. Manchar a carpete, enfiar um chuto no gato, quebrar os vasos de manjericão e salsa, mudar a disposição dos móveis...

Mas estamos a afastar-nos, a perder-nos a sul de nenhum norte, quando a base para esta rubrica é a ideia de que não há melhor indicador da nossa personalidade social do que o comediante que maior pandemónio causa no nosso galinheiro mental. Inversamente, podemos afirmar que aquele comediante que mais nos faz rir, é uma espécie de irmão mais velho, às vezes o tio, sangue do nosso, mas mais experiente, envelhecido em cascos de carvalho até adquirir aqueles subtis e, por vezes, intensos aromas da vida não só vivida mas analisada, e isso diz muito sobre aquele saber profundo a que acedemos e transmitimos como um legado familiar.

Face à praga que vem tentando legislar o que pode ou não dizer-se, não são poucos os comediantes que se têm levantado da mesa, levando o prato para a cozinha onde poderão, sozinhos, comer descansados. E com isto é claro que, muito em breve, a festa deixará de ser na sala, e ficará pela cozinha, pelos quartos dos fundos, onde não se está sujeito ao constante policiamento do que se diz. Se os comediantes não podem divorciar-se das audiências, estamos a falar de uma tribo que mantém sérias reservas em relação ao hall de entrada na vida pública. A dura caminhada até conquistarem uma posição, depois de um doloroso arco de aprendizagem feito ao longo de anos a tentar manobrar os humores do público das sórdidas espeluncas com noites de microfone aberto, passando pelas festas privadas, e subindo a escada de caracol dos clubes de comédia, leva-os a desenvolverem uma carapaça, e a nutrir os piores instintos em relação à condição humana. Não é, por isso, de estranhar que muitos dos melhores comediantes sejam personagens um tanto anti-sociais, como notou há uns anos Ian Crouch num artigo na “New Yorker”. Ponderando o impacto negativo das redes sociais na Comédia, ele recordava que Chris Rock havia dito numa entrevista que a cultura norte-americana voltara a ser um coito do politicamente correcto, como acontecera na década de 1990. Para Rock, o aparecimento dos telemóveis e das redes sociais nos clubes de comédia tinha dado cabo daquele espaço de exceção e do contrato que os comediantes celebram com o seu público. Agora, a meio da noite, depois já de a Cinderela ter-se retirado, e já com algum álcool a cozer lentamente no bucho, o número de comédia feito diante de alguns convivas podia facilmente ser partilhado com uma audiência muito mais vasta e sóbria que, no dia seguinte, estivesse a distribuir roupinhas de alvos pelos cães da sua indignação.

O que se retira disto é que o comediante está a perder o acesso ao seu laboratório. Não tem podido experimentar material novo junto de uma amostra de público como fazia antes, como se faz com os ratinhos para testar tudo o que é produto dermatológico ou medicamentos. Agora, tem de considerar sempre a hipótese de alguém na audiência sacar do telemóvel para registar aquele momento e expor o comediante ao juízo dos ociosos vigilantes de sofá, sempre tão disponíveis para dar uma de ofendidos.

E se “há alguns tipos excecionais que conseguem escrever um número perfeito, subir ao palco, e arrasar”, dizia Rock, “todos os outros precisam de testar e testar a coisa”, e, antes de o estudo clínico chegar ao fim, a coisa “pode ainda ficar muito feia”. “Mas se te dás conta de que já não tens margem para cometer erros, então isso irá necessariamente tornar o teu material mais brando, mais chocho. Já não tens a liberdade para pensar as coisas que gostavas que te viessem à cabeça se sentes que estás a ser vigiado e tens de acautelar o tipo de coisas que estás disposto a dizer”, concluía.

Se nem dos nossos irmãos mais velhos e tios bêbados ou simplesmente destravados podemos ouvir o tipo de exageros, boçalidades e mentiras que, fazendo-nos rir desalmadamente, cercam a verdade pela forma como nos ajudam a conhecermo-nos a nós próprios, então ficamos reféns dos planos nacionais de boa consciência, e até a nossa estupidez é pouco mais do que o resultado de um programa escolar. E resta lembrar que, se há um motivo por que a comédia está entre as modalidades artísticas que surjem à cabeça das listas de todos os tiranos, isso deve-se à sua ousadia iconoclasta, a ser um discurso que irrompe contra mundum. Um gajo e um microfone, uma anedota que se desdobra numa narrativa e que opera uma acutilante forma de crítica social, doseando impressões pessoais, elementos paródicos e outros simplesmente delirantes, num tipo de espetáculo minimalista que tem vindo a assumir o peso que o teatro clássico teve, reavaliando as estratégias de catarse coletiva. Muitas vezes rir é até secundário. E os tantos gatilhos cómicos servem menos como força motriz do que para ligar as partes e aliviar a tensão.

A verdadeira chama que consome o rastilho de qualquer número mais ousado de comédia é a controvérsia, como Ian Crouch assinala. Ele fala mesmo no sangue que lhe dá vida. Ora, este nosso trabalho é uma tentativa de rastrear diferentes tipos de sangue que partilham este entendimento da comédia como uma arte que, para ser relevante, para transcender a simples graçola ou os estalinhos de pólvora seca das piadas mais inanes, precisa reclamar esse espaço de coragem que é vir dizer em público o que a maioria de nós tem medo de dizer. O poder do riso não é, afinal, outro que o de tornar tolerável essas coisas que tantas vezes recalcamos, em relação às quais chegamos a estar em negação, verdades sobre nós próprios e que não seríamos capazes de confessar sem tomar um grande balanço primeiro. Como reconhece Crouch, “a melhor comédia tem de ser ofensiva, pelo menos terá de o ser para alguém, para um certo número de pessoas ou coletividade”, e esse é o teste do algodão que lhe cabe. Se o passar por uma superfície e continuar imaculado então é sinal de que o comediante não está a fazer o seu trabalho. Não está a fazer mais do que entreter-nos. E esse é o mínimo denominador comum da nossa sociedade espetacular. Para chegar a arte, é preciso fazer mais. E se nem toda a arte tem de provocar escândalo, essa é certamente a especialidade da comédia.

 

Comédia para (quase) todos os gostos. A versão dos factos segundo a ovelha negra da família

Se fôssemos ao talhão da família, teríamos de exumar os restos de lendas como George Carlin, Richard Pryor, Lenny Bruce ou Bill Hicks. Mas na hora de procurar um elo nesta terra, temos de nos contentar com os vivos. Felizmente, alguns dos maiores nomes de sempre da comédia estão hoje entre nós. Esta é uma lista que tenta ser abrangente sem perder de vista essa pedra no sapato dos radicais da inclusão: o talento.

 

LOUIS CK

Não será uma desavergonhada laustríbia, ou mesmo várias, por mais desconforto ou trauma que cause, que nos impediria de reconhecer que Louis CK é o maior génio da comédia hoje vivo. Talvez o maior de sempre. Ou isso ou um renhido segundo lugar face a George Carlin. Nada nos faria ignorar um talento destes. O que não significa ilibar o homem, mas tão-só rejeitar que se arraste o artista para a lama dos juízos morais apenas para fazer dele um exemplo. Além dos muitos especiais, há que ter ainda em conta o contributo como guionista e realizador em séries como “Louie” e “Horace and Pete” - esta num registo mais dramático. Reconhecendo a influência de Carlin, CK é o comediante que mais elevou a parada, ao ponto de se poder falar no espetáculo de stand-up como a forma de arte quintessencial da nossa época. Despida de aparato, é o perfeito antídoto para um tempo acelerado até à perda dos sentidos. Frente a audiências menores, este comício sem fins eleitorais, tem maior impacto do que o concerto de rock. E o que CK fez pela comédia foi torná-la o palco por excelência de um diagnóstico tão profundo quanto hilariante do vazio espiritual, do modo de consciência zombificada produzido pela sociedade do consumo.

 

AMY SCHUMER

Levamos já séculos de feminismo na cabeça, para não dizer nos cornos (e não faltam chifrudos para mostrar o lado escuro dessa lua), e esse movimento igualitário ainda se vê confundido com lógicas de vitimização, quando no fundo bastava aparecer uma tipa desabusada, capaz de cheirar a hipocrisia a léguas de distância, e de perceber que se as mulheres vão ser iguais aos homens têm de começar por não pedir licença, nem aguentar numa de pilares da sociedade, defensoras dos valores sociais e da família, antes marimbarem-se nisso tudo, enterrando as bandeiras. Serem tão pândegas, tão endiabradas ou mais que eles. Amy Schumer não dá uma de vaso, não quer ser a bonitinha, a frágil e doce donzela em apuros. Para chegar à igualdade, e até mais do que o direito a divertir-se tanto como qualquer dos rapazes, ela percebeu que tinha de saltar a barreira do género sempre que lhe apetecesse. Fazer merda como os rapazes, não pedir desculpa, ainda se rir de tudo na cara dos que defendem que a mulher, ai, a mulher é o símbolo... Contra a tradição, Schumer está longe até de ser a mais talentosa das comediantes da sua geração, mas até nisso ela percebe a vantagem de ficar fora da corrida, dominando a partir da bancada.

 

BILL BURR

Para alívio das nossas tentações disfuncionais, na mais ajuizada das famílias lá aparece um tio que, para um gajo mal-encarado, consegue ser fabulosamente cómico. Fazendo da rabugice um número omnívoro, dá a sensação de que é esse raro talento capaz de escrever um espetáculo tomando notas em guardanapos, bastando-lhe ficar de comando na mão, a fazer zapping e a ralhar com tudo o que lhe vai aparecendo à frente à medida que vai avançando pela grelha de canais e sendo exposto ao azucrinante vazio cultural que acorrenta milhões de existências aos sofás. No fundo, o seu principal alvo é a bandalheira nacional, e a comédia de Burr chega a ser desconfortável e ameaçadora para quem detesta quando sente que a sua própria cabeça se tornou um bar mal frequentado numa terra de parolos. A questão é que este nosso tio consegue cozinhar pratos tradicionais a partir de toda a sorte de estereótipos e preconceitos, e se o potencial ofensivo dos seus especiais leva muitas vezes o público àquele momento de nervosismo e suspensão, reconhecendo a possibilidade de a coisa descambar de repente, como qualquer montanha russa nada é mais empolgante do que sentir o risco de ir tudo para o galheiro. Acontece que o operador desta volta de feira é um artista fenomenal e salva sempre a malta in extremis.

 

ANTHONY JESELNIK

Se os choninhas e os nerds tomaram conta do panorama social - e segundo Burr isto deve-se à escassez do seu predador natural, o bully -, era uma questão de tempo para se fazerem notar também nos palcos de comédia. Para quem já perdeu a paciência para esses filatelistas das interacções sociais com o seu humor burocrático que parece ter sido ensaiado à margem de jogatanas madrugada fora de Dungeons & Dragons, apresentamo-vos o tubarão branco da cena de stand-up. É a altura certa para entrar a faixa do “Jaws”... Jeselnik tem a confiança para fazer em palco um número cujos dentes não só entram na carne mas ainda a serram. O ex de Amy Schumer faz suceder o tipo de piadas que se lançam à costa como ondas bem altas, provocando um arrepio antes de se desfazerem entre risos. Não é que este bad boy frequente as praias mais vigiadas pelos nadadores salvadores do politicamente correto na ânsia de pôr de fora as tripas dos banhistas. Simplesmente, eleva o humor negro a um nível cósmico. Jeselnik é o buraco negro do stand up. Consome tudo em seu redor. Há aquela pergunta da praxe a que hoje todos os comediantes são sujeitos repetidamente: Há ou não limites para a comédia? No dia em que todos concordarem que há uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada, poderemos contar com Jeselnik para estabelecer uma colónia do outro lado.

 

DAVE CHAPPELLE

Se passar tempo suficiente, em todas as formas de arte acaba por surgir um verdadeiro herói. Alguém que podia ter reinado no inferno mas preferiu não o fazer. Chappelle teve o diabo a assediá-lo como a mais ninguém. Os floristas esgotavam sempre que ele andava pelas redondezas, foi uma corte que se prolongou, com o chifrudo a ordenar, finalmente, aos seus lacaios para se espalharem no leilão pela sua alma e a licitarem como se ela fosse pôr fim de uma vez ao equilíbrio entre o bem e o mal na Terra. Chappelle ainda cedeu inicialmente, mas acabou por dar de frosques. Deixou ficar uma proposta milionária (50 milhões de dólares) e a terceira temporada do “Chappelle’s Show” não chegou a ir para o ar. Em 2006, desaparecia sem nem dar explicações. Os do negócio, irados, deram a ideia de que era mais uma estrela cujos fusíveis haviam queimado antes de alcançar o estatuto de lenda. Mas esse não foi o fim. Depois de ter emergido como jovem prodígio e ter criado o mais icónico e imitado programa de sketches do século XXI, voltou à estrada em 2013, e no ano passado aceitou regressar aos especiais, recebendo uma fortuna da Netflix, e gozando de total liberdade criativa. Mais velho, mais cínico, com um faro danado para as hipocrisias da vida pública, é hoje um mestre na hora de furar e expor o esquema mediático.

 

JIM JEFFERIES

A fazer frente à hegemonia dos norte-americanos no stand up, a Velha Ilha não tem sabido honrar os seus pergaminhos na comédia, e isto talvez se justifique com a dificuldade que o humor britânico tem tido para se levantar sem derramar o chá. Já no que toca à Austrália, há sinais de que podem vir de lá algumas surpresas. É sabido que a colonização dessa ilha começou com o objetivo de esvaziar as cadeias superlotadas da Inglaterra. Assim, e mesmo tendo-se passado já alguns séculos, é mais do que natural que no sangue desse continente persista o génio pelintra que tão bem serve a comédia. O australiano Jefferies tem sido bem sucedido no esforço para aparecer ao lado dos grandes nomes do stand up, e isto sem brandir um handicap qualquer. Se a primeira impressão nao é grande coisa, a pinta de bronco é algo que ele sabe usar a seu favor e, aos poucos, vai despindo o fato de treino do brugesso para mostrar que há um charme infeccioso na sua atitude rude. Jefferies é aquele bacano sem o qual nenhum grupo de amigos está completo. É o palhaço que não se importa que se riam dele, desde que o riso seja honesto, toque fundo, tenha uma qualidade vertical. A questão é que se há sempre um palhaço do grupo, este tem o seu número elevado a uma tal potência que já nem é preciso sair à noite nem fazer merda da grossa. Ele providencia todos os elementos necessários à nossa diversão. 

 

MIKE BIRBIGLIA

O que não tem faltado nesta acareação são desordeiros, sacanas trocistas e até javardolas, dealers nas traseiras do bom senso e outros tantos safardanas. Mas se a comédia é antes de tudo uma forma de passar a perna no sistema de valores sociais, inverter a coisa a favor dos que não estão muito interessados na triste comédia que cava um fosso entre vencedores e vencidos, com Mike Birbiglia estamos muito longe daquela zona do recreio dominada pelos pequenos rufias, e entrámos num território bem mais intimista, onde as conquistas se fazem no um para um. Este é um comediante que, ao construir um espetáculo, dá primazia ao arco da narrativa. Ao invés de esta servir apenas como tapete rolante para manter um ritmo no transporte de umas piadas para as outras, Birbiglia desenvolve monólogos bastante complexos, aproveitando-se de toda a gama dos recursos dramáticos, puxando a audiência para si como se estivesse a assistir a uma excelente fita de cinema. As piadas funcionam como pontuação, vírgulas que mudam o sentido da frase, pontos inesperados que fazem um comboio saltar da linha sem magoar os passageiros. Birbiglia é aquele tipo por quem ninguém dá nada, mas que,  nutrindo o vínculo mais pessoal, faz o papel do amável tio que aparece naqueles momentos decisivos e nos ajuda a tomar a decisão de uma vida.

 

HANNAH GADSBY e a Pós-Comédia

E chegamos ao fim com um dos mais inglórios finais alternativos para a época de ouro que se está a viver na comédia. Era de esperar que o ambiente mediático que puxou o tapete à própria cena política, impondo os interesses do entretenimento acima dos da governação (curiosamente, sem colocar em risco os interesses corporativos), chamasse para o palco o circo de pulgas dos factos alternativos, instalando o reino da pós-verdade... Era de esperar, do mesmo modo, que este mesmo contexto orquestrasse uma golpada no campo da comédia, acusando-a de fins sociais vergonhosos, de compactuar com a intolerância, e ser outra forma de opressão, para poder assim dispensar-se dela de uma vez e ir ao que verdadeiramente interessa: que tudo seja transformado numa plataforma para a cruzada identitária e as histerias ideológicas que até desapossaram a esquerda das suas prioridades quanto à luta de classes. Esta comediante vinda da Tasmânia não fala de outra coisa senão do muito que sofreu por ser lésbica, da dificuldade para se assumir num meio pequeno, e depois, para os seus fins, desenha uma noção bem redutora do que é e faz a comédia, para a condenar de seguida, e dizer que o que vai ser preciso agora é lavá-la com as nossas lágrimas. A comédia vai ter de fechar para obras, e antes que se possa voltar a rir vamos ter todos de andar com os baldes de lágrimas das legiões de oprimidos à face da Terra.

 

 

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