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Pedro Ferros 16/08/2018
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre quando a popularidade do governo se sobrepõe ao progressismo

Como se poderá perceber com clareza, a matriz ideológica e filosófica deste governo, infelizmente, não vai muito além da sobrevivência da coligação dos perdedores garantida com estranhas concessões a agendas contraditórias e, sobretudo desde o ano passado, com um cuidado extremo e quase doentio de protecção da imagem do governo

À medida em que as brasas se vão apagando lá para a Serra de Monchique sucedem-se as análises à actuação do governo, dos bombeiros, da GNR e de todos os muitos agentes deste combate ao que é, para já e entretanto, o maior incêndio do ano na Europa.

É de tal forma evidente que o combate ao incêndio correu pessimamente que até o seu óbvio insucesso (ou descalabro) foi apontado e evidenciado pelo primeiro-ministro para numa leitura alucinada sobre as enormes vantagens que os portugueses devem reconhecer no facto de terem assistido à Serra de Monchique agudizar, ardendo, durante uma semana, porque tal – ao invés de dever pintá-lo atento ao histórico do ano passado, num profundo e vergonhoso breu – antes pelo contrário era tão só a (singela) excepção que confirmaria a regra de que onde os fogos eram fáceis de apagar não se repetiram iguais desgraças.

É difícil conceber exercício mais ignóbil e delirante. Note-se que o tal grande sucesso invocado nesta tentativa de spin, pelo governo, acontece num cenário onde sem “downburst”, sem raios identificados pela PJ, e sem situações meteorológicas absolutamente excepcionais com ventos ciclónicos, pelo segundo ano seguido Portugal, e ainda vamos em Agosto, o mesmo governo, devidamente avisado e atento desde o ano passado, não conseguiu evitar que tivéssemos oura vez o tal maior incêndio da Europa.

Como imagem maior deste inconseguimento, relembremos o ar absolutamente inestimável de Eduardo Cabrita (que para quem não percebeu é o responsável máximo da Proteção Civil e dos Bombeiros que caminhava timidamente e de preferência muito despercebido nas povoações da Serra de por Monchique ao lado do PR) que ouvia calado e ledo, em estado semi-catatónico e silêncio comprometido, a inflamada e a espaços patriótica reacção que um popular discursava a Marcelo minutos a fio sobre a “desprotecção civil” e a responsabilidade pessoal do ministro.

É que sem o devido importante realce mediático, passou-se um ano sobre os primeiros grandes incêndios de 2017, e se vemos bem, toda a ladainha salvífica de que com os relatórios de Pedrógão e dos incêndios de Outubro o governo tinha as ferramentas necessárias para que não voltassem a repetir-se incêndios daquelas proporções, só faz hoje transparecer toda bazófia, demagogia e costumada imposturice do PM em todo o seu esplendor e de dimensão (como de costume) trágica.

E é por isso que o mínimo que tem de se referir, que mais não fosse pela enorme propensão para a ridículo desculpabilizante, que ouvir-se o PM a referir que (note-se!) o maior incêndio da Europa deste ano é a excepção que confirma a regra do espetacular trabalho que diz ter sido feito, só pode ser entendido como um acto de demência ou chacota, e que está em tudo perto do mesmo despudor acintoso e a roçar o desumano das primeiras intervenções que o mesmo teve no ano passado em vários palcos, até que finalmente se apercebeu da dimensão da incómoda tragédia dos seus administrados que morreram queimados e dos concelhos inteiros reduzidos a cinzas.

Este ano ficou claro, outra vez, que a política feita à medida das ilações retiradas do “Focus Group” mantém-se, e em todo o seu esplendor. Como se poderá perceber com clareza, a matriz ideológica e filosófica deste governo, infelizmente, não vai muito além da sobrevivência da coligação dos perdedores garantida com estranhas concessões a agendas contraditórias e, sobretudo desde o ano passado, com um cuidado extremo e quase doentio de protecção da imagem do governo.

A isto tudo, se junta um povo prostrado e acrítico e uma comunicação social de joelhos, sem esquecer um PR outra vez numa rota errática dos afectos, e que permitem que um PM depois de deixar arder durante 7 dias um concelho quase inteiro e partes relevantes dos circundantes, reclame aqui uma vitória qualquer, só porque não houve mortos.

É o grau de exigência mínimo, a vitória de Pirro aclamada pelo próprio como um feito notável, sem nenhuma contestação. É o cavalinho fora da chuva por decreto executivo que todos, muito estranhamente, acatam.

Mas é também a tal absoluta falta de coerência, de fio condutor, de reflexão filosófica ou moral é a sobrevivência pela sobrevivência, nada de ideias, nada de elevação só a sobrevivência interessa.

Andaram nos últimos meses, parte dos governantes, seu partido e apoiantes a defender o direito a morrer com dignidade. Para mim, a quem questões como a eutanásia, o aborto e outros temas dilectos da coligação me levantam mais dúvidas que certezas, a questão da expulsão pela força das pessoas de suas casas que, tal como em Junho e Outubro de 2017, o governo – através dos incompetentes de serviço – se preparava para deixar arder, não me deixam, ainda assim, grandes reflexões ideológicas sobre as soluções a tomar.

No entanto, quem aceite a relativização destes conceitos, como é o caso das esquerdas unidas que invocam o direito a morte digna, será que pode forçar as populações a abandonar à força a defesa dos seus bens, do seu futuro e sua dignidade, quando aceitam que esse bem que querem proteger (aqui à força) não é absoluto e é disponível noutro catálogo habilitante?

Onde está a diferença assim tão relevante na opção sobre como sucumbir e quando, se o futuro para onde se volta são as cinzas, a provável miséria e a ausência, também, de esperança e de um futuro.

É nas encruzilhadas da vida – ou nos vectores saídos de focus group – que se percebe que há valores que ultrapassam, em muito, as retóricas simplistas e limitadas das agendas progressistas. O governo – contra a matriz moral que defende noutras ocasiões para o mesmo exacto bem – decidiu, ainda assim bem, mesmo que pelas razões erradas, proteger vidas.

Não o fez por acreditar nela enquanto valor inviolável – e provavelmente fê-lo com o enfado que o país rural sempre lhe suscita – agiu apenas e só na defesa da sua popularidade e, outra vez, deu-nos a dimensão da sua enorme inconsistência e da sua indisfarçável incompetência.

Mas desta vez ao menos, por mal haver, bem fez.

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt

Escreve à quinta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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