18/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 15/08/2018
Carlos Zorrinho
opiniao

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Nas mãos do tio Donald

Com a chegada ao poder de Donald Trump, a "pax americana" deixou de ser uma plataforma de equilíbrio de poderes

O mundo viveu o último século, em particular a seguir à segunda guerra mundial, nas mãos do tio Sam, naquilo a que se convencionou designar a “pax americana”, alicerçada na hegemonia militar, económica, política e diplomática dos Estados Unidos da América (EUA).

Com a chegada ao poder de Donald Trump a “pax americana” deixou de ser uma plataforma de equilíbrio de poderes ao serviço de uma visão do mundo baseada na troca e na competição económica e financeira com recurso pontual à coação pela força, para passar a ser um poderoso instrumento ao serviço daquilo que a Administração Trump definiu como o interesse americano. Esta mudança de paradigma não pode deixar de ser considerada como um elemento estruturante na nova geopolítica global.

Se dúvidas existissem quanto à profundidade da mudança, a decisão unilateral da Administração Trump ao denunciar o acordo nuclear com o Irão, impondo sanções diretas e forçando sanções indiretas através dos países que desejam manter o acordo, penalizando a relação das suas empresas com os EUA, é a prova de que a “pax americana” deixou de ter uma componente de soberania partilhada e tornou-se um mecanismo de submissão forçada dos que dependem dos EUA para a sua segurança.

As próximas eleições para o Parlamento Europeu têm que ser também analisadas no quadro desta nova realidade. De um lado, com diferentes matizes programáticas, os pró-europeus convergirão na aposta numa soberania partilhada no contexto da União, que terá que ser reforçada para combater a hegemonia perversa dos EUA, enquanto do outro lado os nacionalistas, mesmo usando discursos populistas soberanistas, contribuirão para colocar os seus países e a União, se as suas teses tiverem acolhimento, ainda mais nas mãos do tio Donald.

Em Portugal, dizem-no todos os estudos de opinião, o sentimento pró-europeu continua a ser forte. Os nacionalismos populistas de esquerda e de direita, ainda que por vezes disfarçados ou encapotados, não têm conseguido mobilizar mais do que um quinto dos votos nas sucessivas eleições europeias. A minha convicção é que continuarão a não passar essa barreira mesmo com o regresso do CDS/PP a esse espaço e a incerteza sobre o território político em que aportará a jangada solitária com que Pedro Santana levantou ferros do PSD/PPD.

O fator geopolítico torna as importantes eleições para o Parlamento Europeu do próximo ano ainda mais importantes. Além de estarem em jogo escolhas sobre o grau de compromisso com os ideais europeus de paz e liberdade, sobre os valores humanistas e democráticos, sobre as prioridades políticas de consolidação do projeto europeu, sobre a afetação dos recursos para o próximo ciclo de programação financeira e sobre os modelos de promoção da segurança e da defesa comum, os europeus vão ainda decidir sobre se querem reforçar a parceria europeia, ganhando progressiva autonomia estratégica para participar na recomposição da ordem global, ou se pelo contrário querem uma União Europeia (UE) nas mãos de Trump.

Desejo, em nome de um futuro melhor para a humanidade e para o planeta, que os europeus decidam dar a Donald o que é de Donald e à UE um futuro partilhado de paz e convergência.

 

Eurodeputado

 

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