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14 de agosto de 1940. Ah, como o infante D. Afonso gostava dos cavalinhos!

14 de agosto de 1940. Ah, como o infante D. Afonso gostava dos cavalinhos!

DR Afonso de Melo 14/08/2018 21:16

Comemoravam-se as bodas de ouro do Coliseu dos Recreios e recordava-se a inauguração esplendorosa levada a cabo pela companhia Caracciolo, que viera de Nápoles, de navio. O maestro Rio de Carvalho escreveu o Hino do Coliseu. A construção da estação dos Restauradores empurrou definitivamente o Coliseu para as Portas de Santo Antão

Coliseu dos Recreios, na Rua das Portas de Santo Antão. Bodas de ouro: “O seu ilustre empresário, o sr. Ricardo Covões, organizou um espetáculo verdadeiramente grandioso, no qual tomaram parte cerca de 200 artistas e cujo produto reverte a favor da Caixa de Previdência dos Profissionais da Imprensa e do Cofre dos Artistas Teatrais.”

Não era para menos.

Cinquenta anos de Coliseu! Com ponto de exclamação!

O Coliseu das matinés infantis, das festas de assistência, das variedades e da ópera, glória artística de Lisboa – por ele passaram as maiores sumidades do mundo lírico e os mais célebres artistas de circo.

Ah, sim! O Coliseu também dos circos.

Quando foi inaugurado, no dia 14 de agosto de 1890, era o tempo do teatro lírico e dos palhaços. O tempo das divas e dos clowns. Outra Lisboa bem diferente, como se imagina.

Um palhaço em especial: Thomas Price. Um palhaço antiquíssimo: a sua companhia vinha de 1860. (“Inglês simpático e vermelhudo. Fez uma época. Acabou mal. O seu segundo circo, ao Salitre, o Circo Price, acabou por dívidas e pela sua face corriam lágrimas de desilusão – está provado que os que fazem rir também choram.”)

São Carlos vivia o auge da popularidade. A música também. Todos queriam assistir a uma opereta, a uma zarzuela. Havia o Teatro da Rua dos Condes. As pessoas caminhavam pela Baixa assobiando modinhas, árias do “Fígaro”. Ou “Os Palhaços” de Leoncavallo: “Ridi pagliaccio...”

Tinha havido um Coliseu dos Recreios nos Restauradores. Começara por ser o Circo Whyttoine. Ardeu. Ergueu-se outro. Depois veio a estação do caminho-de-ferro. Era altura para sonhar com uma casa de espetáculos grande, moderna. Manuel Garcia Júnior tomou a direção da obra juntamente com o eng.o Goulard. A armação metálica foi da responsabilidade de Castanheira das Neves – uma cúpula de ferro encomendada à Hein Leman, de Berlim.

“As vistorias demoraram semanas. A Inspeção exigia cada noite uma coisa. Fazia-se-lhe a vontade. É preciso isto e mais aquilo. A companhia que iria inaugurar o edifício de Santo Antão era a de Caracciolo e chegou por navio, no dia 10, vinda de Nápoles. O infante D. Afonso apareceu. Era novo e esbelto. Haveria de ser um dos grandes frequentadores do Coliseu. Dos cavalinhos.”

“Boccaccio” como peça de abertura, no dia 14. Inauguração esplendorosa!!! Com três pontos de exclamação. Cinquenta anos mais tarde, ainda havia quem se recordasse. Com saudade. “A primeira nota de música que se ouviu foi a do Hino do Coliseu, do maestro Rio de Carvalho, e que hoje deveria repetir--se na comemoração”. Esqueceram o hino.

Não foi o sucesso que se esperava, no entanto. Era caro, muito caro. “O público acorria mas sem entusiasmo. Um camarote custava três mil reis. A geral, dois tostões. A opereta não deu felicidades iniciais. Os jornais estimulavam a empresa mas insinuavam: a bela sala está mais indicada para espetáculos de circo. Veio a Ópera de São Carlos – e que companhia! – e a opereta sumiu-se. Em seguida, os cavalinhos.”

Os cavalinhos eram do circo.

O Real Coliseu não tardou a transferir-se para o Coliseu dos Recreios. A Rua Nova da Palma foi vencida pela velha Rua das Portas de Santo Antão.

“A crónica dos seus cinquenta anos seria uma crónica de anedotas.”

O infante D. Afonso gostava...

 

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