24/9/18
 
 
Mário Cordeiro 14/08/2018
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

Perguntas (e ingenuidades) de verão

Aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água

“Gostava de saber se é bom ou mau comer antes de jogar futebol na praia - é que todos os dias jogamos e é mesmo ‘a partir’.” - João, 15 anos, a passar férias no Algarve.

João: Não se pode pôr as coisas assim tão linearmente, tipo “bom” ou “mau” - depende do que vais comendo nesse dia, da hora do dia, etc. O que te posso dizer é que, se vais ter atividade muscular intensa, vais precisar de consumir mais energia (essencialmente o “açúcar” do teu sangue) e oxigénio. Por outro lado, como os teus músculos, articulações, coração e pulmões vão trabalhar mais, vão precisar de mais sangue. Se não comeres nada antes de praticar desporto, provavelmente vais gastar o teu açúcar e, a meio do jogo, começar a ter quebras de rendimento e sintomas de hipoglicemia (irritabilidade, falta de concentração, falhanços na performance, dores de cabeça, tonturas), e a sentires-te mal, sobretudo se estiver calor, como é de esperar nesta altura do ano. Por outro lado, se comeres demais, o teu aparelho digestivo vai precisar de sangue para realizar a função de digerir e metabolizar o que comeu, pelo que o sangue pode faltar nos tais territórios importantes durante a prática desportiva.

Assim, aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água (e também durante o jogo, se estiver muito calor, mas não em grandes quantidades - pouco e muitas vezes é melhor). Só deverás comer uma refeição mais abundante algum tempo depois.

“É verdade que as abelhas picam com maior probabilidade as pessoas que são doces?” - Vera, 16 anos, a passar uns belos dias de vento e nevoeiro no Baleal.

O que é uma pessoa doce? Um diabético sem controlo? Muitas vezes usa-se este argumento para consolar uma criança que foi picada, no sentido de dizer que foi uma privilegiada… duvido que este argumento te convença, Vera. Todavia, há algum fundo nesta ideia, mas que diz respeito ao odor adocicado, e não ao sabor doce. Alguns desodorizantes, perfumes ou até o cheiro natural adocicado de algumas pessoas pode atrair abelhas, vespas e zângãos. Por outro lado, as cores brilhantes atraem-nos também, pelo que usar uma camisa às flores, tipo Havai, é um risco! Claro que se andares com um gelado na mão, em plena praia, este transforma-se num alvo dos insetos e depois do gelado quem irá ser picada és tu.

“Li num romance que o protagonista, um homem violento, ficava sempre mais violento em dias de sol. Isso tem alguma explicação? Não deveria até sentir--se mais bem-disposto por estar bom tempo?” - Maria, 16 anos, diretamente de Esposende.

Tens alguma razão, Maria. Há muitos estudos que reportam um pico de violência quando o tempo está bom, ou melhor dizendo, no verão. Pode haver diversas razões para tal: por um lado, a baixa de serotonina cerebral que se faz sentir nesses períodos (e não o aumento da testosterona, ao contrário do que muita gente crê) - a serotonina cerebral está, aliás, mais baixa nos soldados mais agressivos, nos agressores e assaltantes e nos suicidas; depois, porque as condições externas são mais propícias: as mulheres, por exemplo, andam mais na rua, mostram mais o corpo, coisas que para um agressor sexual são fatores de encorajamento (atenção: não quer isto dizer que devam ser atenuantes e que andar de minissaia seja um convite para se ser violada! Chega de culpar as vítimas!). Por outro lado, há mais hipóteses de assalto (mais carros estacionados com objetos dentro, mais vivendas ou casas com janelas abertas) e alguns dos assaltos podem correr mal. De igual modo, a possibilidade de fuga é maior no verão do que com chuva ou com pouca gente na rua com a qual o assaltante se possa misturar.

“Devemos respeitar mesmo um intervalo de três horas entre as refeições e a entrada no mar ou na piscina? Mesmo depois do pequeno-almoço ou do lanche? Eu nunca percebi porquê e tenho dificuldades em explicar as razões dessa ideia aos meus filhos.” - Margarida, com três crianças e muito pouco tempo para aproveitar as férias na Costa Alentejana.

Compreendo a sua perplexidade, Margarida. Claro que o que vai ler não deve interferir com as crenças nem convicções. Se a pessoa não se sente confortável em tomar banho antes da “digestão” (está entre aspas, note), não o deve fazer. Mas, sucintamente, é o seguinte: quando comemos, obrigamos o tubo digestivo a trabalhar mais e, por isso, há uma chamada maior de sangue a esse território. As temperaturas extremas - água muito fria, água muito quente (só na banheira!), estar ao sol “a cozer” - causam perturbações na distribuição do sangue, sobretudo ao nível da pele, desviando sangue, o que pode causar a chamada “paragem de digestão”. Mas atenção: é preciso comer mesmo muito (e beber bebidas alcoólicas, também...), o que as crianças não fazem, e entrar na água fria de repente, depois de ter estado deitado ao sol. É um padrão de adulto, e não de criança. 

Se comerem pouco (o normal de um pequeno almoço, almoço de praia ou lanche), se não estiverem a “grelhar” ao sol (estão sempre a mexer-se e nunca param quietas) e se a temperatura da água for dentro do normal, não há qualquer problema. 

Há um bom indicador para perceber se comemos ou bebemos demais, o que deverá obrigar a esperar - é sentirmo--nos pesados, com vontade de dormir a sesta, sonolentos, com a cabeça “a andar à roda”, a bocejar, sem capacidade de fazer esforços físicos ou de aguentar conversas muito “elaboradas”. Mostra que o nosso aparelho digestivo “roubou” sangue a todos os outros órgãos, designadamente ao cérebro, e que há que esperar.

Todavia, obrigar as crianças a respeitar as três ou quatro horas (há pessoas que controlam pelo relógio!) quando petiscaram coisas poucas e não beberam álcool... é capaz de ser um bocadinho excessivo e até ligeiramente “sádico”...

“O meu bebé tem seis meses. Acha que o posso deixar comer areia?” - Manuel, pai-galinha em férias na praia fluvial de Constância.

A areia não tem, em si, qualquer problema - é terra! Desde que não esteja contaminada, não tenha partículas duras que possam magoar (restos de conchas partidas, etc.), algas ou outras coisas do género, não faz qualquer mal aos bebés comer areia. Na idade em que está, até o pode ajudar a “rilhar” as gengivas e no processo de dentição. A areia que comerá... sairá...

No entanto, há que ter cuidado com uma coisa: as beatas que muitos fumadores (e fumadoras) enterram na areia, sem pensarem um segundo que seja que uma beata, mastigada por uma criança da idade do seu filho, a pode matar. Uma basta. É uma ideia que não está muito disseminada entre nós, mas temos de ter cuidado. Resumindo: se for areia “de qualidade”, deixe-o comer. Se não, tenha cuidado, mas vai ser difícil evitar que ele o faça, na fase de experimentação em que está, e na qual “levar tudo à boca” é uma necessidade fundamental.

Pediatra

Escreve à terça-feira 
 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×