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Se os EUA não recuarem, a Turquia fará novos aliados

Se os EUA não recuarem, a Turquia fará novos aliados

AFP Ricardo Cabral Fernandes 12/08/2018 21:50

Erdogan acusou Washington de declarar guerra comercial à Turquia e ameaçou procurar novos aliados, numa alusão à Rússia

Ancara vai começar a “procurar novas alianças e mercados” se Washington não der um passo atrás no aumento das tarifas ao aço e alumínio turcos. A ameaça partiu do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que acusa Washington de ter incluído Ancara numa guerra comercial com o aumento das tarifas do aço (em 20%) e alumínio (em 50%) turcos. “Vamos responder àqueles que declararam guerra comercial ao mundo inteiro - e que incluíram a Turquia - ao procurar novas alianças e mercados”, disse o presidente turco num discurso em Trabzon, na costa turca do Mar Negro. 

A decisão de aumentar as tarifas à Turquia por Donald Trump aconteceu depois de Erdogan se ter recusado a libertar um pastor norte-americano e ameaça empurrar a economia turca para o abismo. Na sexta-feira, a lira desvalorizou em relação ao dólar cerca de 20%, com os consumidores turcos a verem o preços dos bens alimentares, combustível e medicamentos a subirem. Espera-se que a inflação ultrapasse os 15,4% estimados pelo governo para este ano. E espera-se que os mercados financeiros penalizem a economia turca quando a bolsa abrir esta segunda-feira.

Com o aumento das tarifas vieram as ameaças de Erdogan, que nos últimos dias se tem desdobrado em discursos ameaçadores contra Washington. Na sexta-feira, alertou que as “ameaças” e a “chantagem” não podem ser usadas contra Ancara e no sábado voltou à carga dizendo que “Washington deve abdicar da noção errada de que a nossa relação pode ser assimétrica”. “O falhanço na reversão desta tendência de unilateralismo e desrespeito vai-nos obrigar a procurar outros amigos e aliados”, avisou ainda no sábado, referindo-se à Rússia de Vladimir Putin.

As relações entre Washington e Ancara têm-se degradado nos últimos meses, mas agora atingiram um ponto de frição nunca antes visto desde que Trump chegou à Casa Branca. Em causa não está apenas a libertação de um pastor norte-americano, Andrew Brunson, acusado há mais de dois anos pela Turquia de ter ligações ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão, mas também a política turca face à Síria, a compra de sistemas antimíssil à Rússia e a política seguida por Erdogan pós-golpe de Estado falhado, em 2016, com a detenção e despedimentos de milhares de militares, funcionários públicos e académicos. “É uma pena [Washington] ter escolhido um pastor em vez de um parceiro estratégico da NATO”, lamentou Erdogan num dos seus discursos.

Da parte de Ancara, a recusa de Washington em extraditar o inimigo número 1 de Erdogan, Fethullah Gülen, clérigo acusado de ser o cabecilha do golpe de Estado falhado, e de um banqueiro turco, Hakan Atilla, condenado por violar as sanções petrolíferas ao Irão, são outros temas sensíveis que têm contribuído para o acentuar das tensões entre os dois históricos aliados da NATO. 

Antes de o tom ter subido no fim-de-semana, os dois lados ainda tentaram chegar a um consenso. Uma delegação composta por representantes de alto nível do Estado turco reuniram-se com o vice-Secretário de Estado norte-americano, John Sullivan, para tentar trocar a libertação de Brunson pela de Atilla, mas sem sucesso. Sullivan exigiu a libertação unilateral e imediata do pastor até quarta-feira, algo que os turcos recusaram liminarmente. Em resposta, e passado o prazo definido pela administração norte-americano, Trump avançou com o aumento das tarifas. E não foi a única retaliação. Também o Congresso entrou em jogo e aprovou uma lei que impede a exportação de 100 caças F-35 de fabrico norte-americano para a Turquia se esta não libertar o pastor e abdicar de comprar os sistemas antimíssil russos.

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