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Uns riffs de jazz nos jardins de Lisboa

Uns riffs de jazz nos jardins de Lisboa

DR Diogo Vaz Pinto 10/08/2018 11:21

Na edição deste ano, o “Lisboa na Rua” celebra os 70 anos do Hot Clube, com concertos de jazz ao ar livre em quatro grandes jardins da cidade

Não falta quem, antes de tudo, dê as graças por na terra ao menos termos a música. Os mais pisados pela ordem das coisas são os que primeiro dão com o caminho até essa imaginária república: o jazz. Como alguém disse, do apelo deste género, faz parte a “ilusão de espontaneidade”, e a melhor homenagem que se terá feito a um dos seus génios, foi dizer que tocava o piano como se nunca antes tivesse visto um. Nada como a sucessão passional de algumas notas para acotovelar a alma, ver abrir-se à tona da desordem um outro sentido.

Em Lisboa, essa pátria de exilados tem há 70 anos um consulado: o Hot Clube de Portugal. E, para celebrar a data em que Luiz Villas-Boas preencheu a ficha de sócio número um, não têm faltado umas quantas iniciativas meio desirmanadas, como convém. Aproveitando a efeméride, na edição deste ano do “Lisboa na Rua” – iniciativa da EGEAC, da Câmara Municipal de Lisboa –, a programação quis render homenagem a esse que é um dos mais antigos clubes de jazz em atividade na Europa. Se antes um pequeno rádio a pilhas num café podia ser suficiente para levar ao rubro uma dessas plateias mais disponíveis para os desassombros do acaso, hoje faz parte das coisas que tudo precisa de hora marcada. As casas que o ócio mais frequentava fecharam, os antigos cafés deram em monumentos históricos, e restam algumas tabernas, os últimos tugúrios onde “os mármores das mesas,/ com desenhos obscenos,/ surdinam vagas rezas...// E as garrafas dos álcoois e absintos,/ em garbos áticos,/ oferendam viáticos...” (Saul Dias). Depois há os jardins. E será em quatro dos maiores da capital que terão lugar quatro concertos, a partir de dia 23 de agosto, no final da tarde (19h), aos sábados.

A programação que se estenderá por um mês, não ficará pelo jazz, e nem só pela música. Haverá espaço também para a dança e o teatro, o cinema e a magia. Assim, entre os dias 28 de agosto e 2 de setembro, o Festival Internacional de Magia de Rua mostra os melhores truques de 15 mágicos de nove países. E porque a arte não pode deixar de tocar as grandes causas, porque a consciência vai precisando de sal para se manter, os refugiados e emigrantes estarão também em destaque, no espectáculo “Moving People”, da encenadora e realizador brasileira Christiane Jatahy – a Artista na Cidade de 2018. Contado na primeira pessoa, esta performance-documentário será apresentada no Palácio Pimenta do Museu de Lisboa de 20 a 23 de setembro.

E se o “Lisboa na Rua” tem já desenhado uma certa tradição, o Coro e a Orquestra Gulbenkian estarão de volta ao Vale do Silêncio, onde, a 8 de setembro, as actuações irão partir de bandas sonoras de filmes, escolhidas por votação do público, como é o caso de “2001: Odisseia no Espaço”, “O Clube dos Poetas Mortos” ou “West Side Story”. A meio de setembro alinham-se as outras propostas que o festival já não dispensa, como as sessões de cinema ao ar livre do CineCidade, a arte sonora do “Lisboa Soa”, que nesta edição tem a água como elemento comum, e as noites “Sou do Fado”, este ano na praça do Município, e nas vozes de Paulo Bragança, Teresinha Landeiro, Sara Correia e Katia Guerreiro. O público é também convidado a “Dançar a Cidade” e a descobrir Lisboa através do olhar arquitetónico da Open House Lisboa, acrescenta a EGEAC.

Entretanto, parece que nos esquecemos do jazz, que ficou lá, naquele café de que o poeta falava, onde viu o pianista comer os dentes do piano, e cantar, de pernas para o ar, uma canção azul. Mas porque a memória ainda conta boas estórias, e porque esta edição termina no dia 30 de setembro, coincidindo com a data do fim da Expo’98, há 20 anos, a autarquia quis encerrar em grande, e confiou a tarefa à Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Mário Laginha. Marcado para as 19h, o concerto “Venham mais Vinte” irá decorrer na Altice Arena, o antigo Pavilhão da Utopia – que, afinal, de utopias, nestes vinte anos, viu muito pouco. E talvez a única utopia que nos resta seja a entrada livre em eventos como este.

 

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