9/12/18
 
 
Carlos Diogo Santos 10/08/2018
Carlos Diogo Santos
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carlos.santos@newsplex.pt

A vela de um bolo? Não me faça rir…

A melhor prova de que a estratégia falhou e este incêndio não é uma exceção que confirma a regra do sucesso do combate aos incêndios – como diz António Costa – é que, logo no primeiro megaincêndio deste ano, a Proteção Civil não cumpriu as regras que definiu como essenciais após a tragédia de Pedrógão Grande

Às vezes fico com o olhar perdido quando estou a cantar os parabéns a uma pessoa com mais idade. Acontece quase sempre tentar antever como é que se vai safar no final, quando todos estiverem já a bater palmas. Será que vai precisar de ajuda? Certamente já aconteceu à maioria das pessoas ter de reforçar o sopro de um familiar sem que ele se aperceba da sua incapacidade. A força é fundamental até para soprar a vela de um bolo de aniversário.

Inconscientemente, sempre dei atenção a estes momentos – fico a imaginar que uma falha do aniversariante deve ser um castigo nestas idades – e talvez por isso me tenha ficado a martelar a analogia que o primeiro-ministro fez esta semana a propósito dos incêndios. António Costa afirmou que “a vela de um bolo de aniversário, todos nós apagamos com um sopro” (o que não é verdade, porque até para isso é preciso força), adiantando que quando as chamas ganham a dimensão de um incêndio como o de Monchique “não bastam sopros”.

Esta última é uma constatação que, de tão óbvia, se torna infeliz. E se, por um lado, deveria ser exatamente por essa complexidade acrescida dos incêndios que existem autoridades competentes, por outro percebe-se que esta Proteção Civil, cansada e desorientada, está sem fôlego sequer para um sopro.

Ao contrário dos mais velhos no dia dos seus anos, não lhe falta força. Parece, aliás, claro que os recursos são hoje muitos mais que os do aniversário anterior: há mais meios aéreos, mais homens no terreno e uma ação mais musculada das autoridades para salvar pessoas.

Mas continua a faltar-lhe a estratégia e, no final do incêndio de Monchique, o governo terá de tirar consequências em vez de se conformar com a tese de que são precisos muitos dias para controlar um incêndio florestal. António Costa bem sabe – agora é a minha vez de usar uma analogia – que a força, o emprego de mais meios, não basta para apagar incêndios, tal como ter mais votos não basta para governar. A estratégia ou a falta dela é determinante para o desfecho de um caso como Monchique.

E a melhor prova de que a estratégia falhou e este incêndio não é uma exceção que confirma a regra do sucesso do combate aos incêndios – como diz o primeiro-ministro – é que, logo no primeiro megaincêndio deste ano, a Proteção Civil não cumpriu as regras que definiu como essenciais após a tragédia de Pedrógão Grande. Como o “Público” noticiou ontem, as novas regras que definem como se devem organizar as operações de socorro no terreno determinam que o comando nacional da Proteção Civil devia ter assumido a liderança em Monchique logo na madrugada de sábado.

Já para não falar que a liderança até chegar o comando nacional estava entregue a Vítor Vaz Pinto, o homem que em 2012, então comandante nacional, assumiu erros pessoais no combate ao incêndio da serra do Caldeirão – como noticiou o i esta semana.

Mas se, por um lado, continua a faltar estratégia à Proteção Civil, a estratégia de comunicação em tragédias do governo também não existe. Não é que seja algo novo. Já no ano passado, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, perante uma das maiores tragédias nacionais, afirmou que a população não podia ficar à espera dos bombeiros e tinha de se proteger pelas próprias mãos. “Sejam proativos”, disse. E a ex-ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, em plena catástrofe nacional, também frisou que seria mais fácil ir de férias, porque ainda não as tinha tirado. Agora ficou a saber-se que além de não se poder contar com os bombeiros, não se pode pedir um combate eficaz e rápido a um incêndio (entenda-se alguma estratégia) porque um fogo como o de Monchique não é a “vela de um bolo de aniversário”.

Esta semana, depois de um novo desastre de comunicação frente às câmaras, com analogias infelizes, só me apeteceu devolver ao primeiro-ministro a resposta que em 2017 deu a uma jornalista da SIC: “Não me faça rir a esta hora.”

 

Jornalista

 

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