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Gary Snyder. O poder das possibilidades fora do trilho

Gary Snyder. O poder das possibilidades fora do trilho

DR Marcos Pereira 09/08/2018 11:32

Nos ensaios de “A Prática da Natureza Selvagem”, Snyder defende que estamos a perder todas as ferramentas para identificar o mosaico que habitamos. E a perder de vista como tudo é um sistema vivo pronto a ser descoberto, descodificado e preservado

“A Prática da Natureza Selvagem” é um conjunto de nove ensaios em que Gary Snyder (1930), poeta “figura central da geração beat”, ativista ecológico, amante do budismo zen e de tantos outros saberes vagarosos, nos conta aprendizagens e experiências de quem, no ventre de sítios permanentemente ameaçados, questiona o outro e tudo o que vive em seu redor.

Gary Snyder bateu à porta do leitor português o ano passado numa magra mas iluminada seleção de poemas intitulada “Nada Natural” (ed. Douda Correria). Apesar do atraso inexplicável estava aberta a brecha por onde entrar a luz que bateria no rosto dos mais distraídos e, em 44 páginas, estava aí feito o aviso a todos nós, homens do séc. xxi, cheios de pressa para meta nenhuma – ainda conseguem ouvir o vento que passa entre alguns versos; o trabalho das clareiras entre algumas estrofes ou as reflexões dos lenhadores do século passado, se nisso se quedarem e se no caminho encontrarem quem vos garanta que permanecem com os cinco sentidos aptos.

No começo do livro, Snyder deambula pela pequena quinta onde cresceu no noroeste dos Estados Unidos, explica que, nos seus primeiros anos, a maior força motriz que presenciou foi “a implacável desflorestação de uma das maiores florestas temperadas do mundo”, vai contando como surgiu o seu envolvimento com grupos como a Wilderness Society e como se juntou a um grupo de montanhismo no Oregon. Depois, a dada altura podemos ler a bússola que guiará o livro quando nos aponta que na “origem destes ensaios está o meu trabalho com gente do interior do Alasca, da baixa de Manhattan ou de Tóquio sobre temas ecológicos, espécies ameaçadas, sociedades primitivas, religiões asiáticas e estratégias ambientais. O outro aspeto [essencial aos ensaios] era o da espiritualidade”.

Snyder não escreve para ditar certezas científicas (os sedentos por material detalhado e impositivo, com gráficos e mil adornos afiados acerca dos assuntos aqui tratados, podem procurar o capítulo “Dead Land, Dead Water” no livro de Saskia Sassen “Brutality and Complexity in the Global Economy”), nem se coloca do lado do fanatismo guerrilheiro (tendo trabalhado, por exemplo, vários anos como estropeiro). Preferindo apresentar cada ensaio como um relato feito à luz de candelabro no alpendre, conjuga experiência em primeira mão no meio de florestas inóspitas, conversas tidas com pessoas indígenas, amigos estudiosos que não temem uma caminhada de centenas de quilómetros, reflexões animistas sobre cada assunto, alguns dados contabilísticos de relatórios de várias associações, uma pitada de história ecológica e, enfim, a arte de respeitar tudo o que vive. Assim, num tom monocórdico de avô que nos conta histórias, Snyder vai-se lembrando de viagens, de pessoas, de lendas, de lutas, numa mudança de foco imprevisível, habitual à tapeçaria que é tecida de memória.

Para melhor se entender a última linha olhemos para o primeiro ensaio, “A Etiqueta da Liberdade”: Snyder e um amigo encontram um velho índio, Louie, ao qual o amigo de Snyder diz amavelmente “Louie, encontrei outra pessoa que fala nisenan” – na altura, não haveria mais de três falantes da língua. Depois de perguntar quem era e de lhe ser dito que se tratava de uma mulher em Oroville, os ocidentais, do alto da sua boa vontade, prestam-se a trazê-la até Louie, e a resposta que receberam foi: “Eu conheço-a. Ela não ia querer vir aqui. Não me parece boa ideia vê-la. Além de que a minha família e a dela nunca se deram bem”, colocando assim o seu orgulho e a sua dignidade acima da ameaça de uma extinção cultural. Pouco depois, Snyder reflete sobre o coiote e o esquilo-terrestre enquanto arquétipos de predador e presa, até que se foca no termo “Livre e selvagem”, frase de excelência do sonho americano onde há uma Harley Davidson e, especulando nós, uma projeção restaurada do “Easy Ryder”. Depois inicia uma investigação acerca do significado de “selvagem” e o modo como se liga ao “livre”. Para isso, vai à origem das palavras em chinês e japonês e, daí, aponta caminhos sem que o leitor se sinta pressionado a aderir a nenhum em particular. A moral é um halo que paira sobre estas páginas, nunca se materializando num objeto passível de ser agarrado. Numa das mais belas passagens do ensaio pode ler-se: “O mundo está a ver: não podemos atravessar um prado ou uma floresta sem que uma onda de rumores se espalhe à nossa volta. O tordo precipita-se para longe, o gaio grita, um escaravelho escapa-se por entre as ervas e o sinal de alerta é transmitido. Toda a criatura sabe quando um falcão anda a caçar ou um ser humano a passear. A informação transmitida através do sistema é inteligência.”

O livro prossegue centrando-se na gestão de terras comuns, os baldios, os comunais e as biorregiões. Estas últimas são um conceito caro a Snyder e aos seus companheiros de luta. “O biorregionalismo é o ponto de entrada na dialéctica da história” conta-nos Gary, e depois, citando o texto seminal de Max Cafard, “Manifesto Surre(gion)alista”, adianta: “As políticas regionais não tem lugar em Washington, Moscovo e outras ‘sedes de poder’. O poder regional não se ‘senta’, antes flui por toda a parte. Por bacias hidrográficas e correntes sanguíneas. Por sistemas nervosos e cadeias alimentares. As regiões estão por todo o lado e em lado nenhum. Somos todos ilegais. Somos nativos e estamos descontentes. Não temos país; vivemos no campo. Estamos longe das estradas interestaduais. A Região é contra o Regime – qualquer regime. As regiões são anárquicas.” E vem-nos à memória a busca da “dicção mítica” nas cantigas vertidas por Herberto Helder, ou o fascínio quase infantil do perpetuamente encantado Le Clézio, o “índio branco”, que trocou a sua pele por um entendimento mais amplo das gentes e das matérias virgens. No fundo, o que nos está a ser pedido é que reflitamos sobre o que é estar num lugar presencialmente, intelectualmente, espiritualmente. O que nos é mostrado é que estamos a perder todas as ferramentas para identificar o mosaico que habitamos, os mosaicos vizinhos, os mosaicos maiores. Porque tudo é um sistema vivo pronto a ser descoberto, descodificado e preservado.

Entre aventuras de lenhadores, aventuras do montanhismo em vários países e a aprendizagem num mosteiro no Japão, ou quando abranda para falar do poder sociológico da dança, o autor oferece- -nos pequenas pérolas, como a vez em que, depois de serrar uma árvore de um tamanho esplendoroso, “um ancião, um ser de grande presença, uma testemunha secular”, se sentiu na obrigação de guardar cascas do tronco e fazer um altar com elas e outras oferendas para depois confessar “não eram as ‘minhas’ oferendas à floresta, mas as oferendas da floresta a todos nós. Penso que o que eu estava a fazer era simplesmente recordar esse facto”.

Os valores dos povos nativos são enumerados e evidenciam que o poder dos livros ocidentais, desde o princípio, é insuficiente para compreender o que fica fora do trilho. Leitor atento da poesia e da filosofia ocidental, Snyder parece acreditar no poder emancipador de uma biblioteca, mas só se com as páginas sublinhadas de Homero conjugarmos o poder das mitologias onde a poesia e a filosofia são alicerces a par do milho, da rena, da abóbora ou do arroz.

É arriscado transmitir a impressão da leitura deste livro: se enterramos o bisturi em cada ensaio, traímos o ritmo da memória de Gary Snyder; se tentamos iluminar os contornos do livro, falhamos por percebermos que são os limites de um homem o que descobrimos, e que só ele pode testemunhar por si. O que resta então contar para que os olhos do curioso funcionem como faróis acesos no caminho por abrir?

Há espaço para vários parágrafos onde se discute o que é o sagrado; é feita uma defesa do ensino bilingue nas regiões dos povos nativos que se começam a ocidentalizar; é explorado o ensaio “O Sutra das Montanhas e das Águas”, escrito em 1240 pelo mestre zen-budista japonês Dogen Kigen; é transcrita a história d’“A Mulher Que Se Casou Com Um Urso”, contada por uma mulher do clã Tuq’Wedi à etno--historiadora Catherine McClellan; é-nos proposto que desconfiemos do progresso contínuo e aprendemos que um agradecimento (à árvore que nos faz sombra, ao animal que iremos comer ou à rocha onde nos sentamos) nunca é inapropriado.

Um sentimento previsível é a impaciência que Snyder, no papel de revolucionário manso para todos aqueles que procurem em si o rasto fugitivo da bondade e da gentileza, pode causar com a enumeração de dezenas de espécies (fauna e flora) pelo seu nome científico. Um exercício pertinente, caso cheguemos aqui, será o da reflexão e o de olhar pela janela. Quem tiver a sorte de não estar somente cercado de ferro e betão sentirá a inquietude do sujeito que percebe que já passaram demasiados anos sem saber quem povoa os seus dias.

O tom destas páginas, publicadas há 20 anos, é de aviso sereno. Muitas das árvores enunciadas, das pessoas descritas ou dos santuários enumerados irão desaparecer a médio prazo. O dom de quem escreveu encontra-se sempre no final de cada ideia onde, entre a ponta incandescente do fósforo e o cachimbo tremeluzente, parece dizer-nos “it’s up to you”.

Para rematar, puxamos para a mesa o ditado da costa noroeste dos Estados Unidos “O mundo é afiado como o gume de uma faca”, citado no livro. Relembremos os versos de Roger Wolfe: “Tú contra el mundo/ y el mundo contra ti./ Y en esta guerra sólo hay una/ cosa que es segura:/ aquí va a haber/ un muerto.” Resta--nos somente a escolha do que dar, e como dar, a cortar. E se agradecemos ou não.

 

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