18/11/18
 
 
José Cabrita Saraiva 09/08/2018
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

É preciso uma catástrofe para olharmos para o Interior

Faz parte da natureza humana: por que só damos valor a uma coisa quando a perdemos? Mesmo que antes quase nem reparássemos nela, assim que não a temos já era bestial e sentimos a sua falta de uma maneira intensa.

Com o Interior do país - e a província, em geral - passa-se algo muito semelhante. Pouco se fala deles… até ao dia em que acontece uma desgraça. E das grandes. Durante alguns dias discute-se acaloradamente o que correu mal. Depois o tema volta a cair rapidamente no esquecimento. Pelo menos até surgir o próximo infortúnio...

O caso da Serra de Monchique é paradigmático. Esteve nas bocas do mundo em 2003 quando arderam 40 mil hectares; passou 15 anos negligenciada, a sarar as feridas; e só voltou a falar-se dela - e a olhar-se para ela - por causa do incêndio terrível que ainda lavra por estas horas.

Como mudar alguma coisa? Não é certamente com soluções avulsas, como tornar a limpeza dos terrenos obrigatória (e multar os incumpridores) ou dar mais meios aos bombeiros, que se resolve o problema.

Portugal precisava de uma espécie de campanha de repovoamento que assegurasse uma ocupação mais equilibrada do território, com transferência de serviços, criação de empregos, estratégias de fixação de habitantes e, se necessário, incentivos para quem tomasse a decisão de se mudar.

Ora, o que se verifica é justamente o contrário: serviços a fechar (estações de correio e agências de banco são só dois exemplos) e as povoações periféricas cada vez mais envelhecidas, mais minguadas e votadas ao esquecimento.

O pior é que, com a ameaça dos fogos sempre a crescer, a situação tenderá a agravar-se. Quem vai querer mudar-se para o campo quando vê na televisão as pessoas a correrem risco de vida e na iminência de perderem os seus bens? É um ciclo vicioso. Para o quebrar seria preciso contrariar esta tendência tão humana de só darmos valor ao que perdemos. E mudar esta mentalidade tão portuguesa de só reparar nas riquezas que temos quando as vemos escaparem-se-nos como areia entre os dedos.

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