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Darkweb. Mãe alugou o filho a pedófilos desde os oito anos

Darkweb. Mãe alugou o filho a pedófilos desde os oito anos

Thomas Kienzle / AFP Ricardo Cabral Fernandes 08/08/2018 21:47

O tribunal alemão de Friburgo condenou a mãe de uma criança, agora com dez anos, a 12 anos e meio de prisão por a alugar online a pedófilos e abusadores sexuais por milhares de euros

Aceitou a ideia de alugar o seu filho menor de oito anos através da internet por recear que o seu parceiro, um pedófilo condenado, a abandonasse, mas ao ver o retorno financeiro que a ideia produzia, deixou-se de dúvidas e abraçou o projeto de corpo e alma. Berrin T., de 48 anos, prostituiu durante dois anos o seu filho na internet, alugando-o a abusadores sexuais, mas uma denúncia anónima estragou-lhe os planos e, esta terça-feira, foi condenada a 12 anos e meio de prisão por um tribunal alemão da cidade de Friburgo. O seu parceiro, Christian L., de 39 anos, foi condenado a 12 anos de prisão. Seis outras pessoas - homens que alugaram a criança na internet - foram condenados a penas de entre oito e dez anos. Se o escândalo por si só não bastasse, o caso levantou todo um debate sobre o sistema de proteção de menores na Alemanha e a sua incapacidade em salvaguardar os direitos da criança.

Tudo começou quando a criança tinha oito anos e a mãe começou a namorar com Christian L que se mudou para a sua casa em Staufen, nas proximidades de Friburgo. Foi o parceiro que teve a ideia de o casal alugar o rapaz para fins sexuais na darkweb (ver texto secundário). Os clientes seriam abusadores e pedófilos, tanto alemães como estrangeiros, que pagariam cerca de 10 mil dólares (8653 euros) por cada encontro sexual com o menor. O casal combinava um local com os abusadores e entregava a criança por tempo limitado. Quando a criança não era “alugada”, a mãe e o parceiro abusavam dela sexualmente. 

Durante o período de aluguer, os pedófilos podiam fazer o que quisessem com a criança - relações sexuais, gravação de vídeos pornográficos, etc. Alguns dos vídeos gravados chegaram inclusive a circular na darkweb para serem comprados.

A vida do menor chegou mesmo a estar em perigo. Um dos “clientes”, um alemão de 44 anos, pagou ao casal para violar o rapaz, querendo, depois, assassiná-lo, algo que a mãe conseguiu evitar por pouco. Mas nem por isso deixou de prosseguir com o negócio. No decorrer do julgamento, o psiquiatra Hartmut Pleines explicou que a mãe tem uma capacidade mental pouco desenvolvida, o que faz com que praticamente não sinta compaixão para com outros seres humanos, e que acreditava não ter sido obrigada a cometer os crimes, ao contrário do que a própria disse em tribunal. 

O negócio corria bem até as autoridades alemãs receberem, em setembro de 2017, uma denúncia anónima. Conhecida a identidade do casal, as autoridades avançaram e detiveram o casal. Na sala de interrogatórios, pressionaram a mãe e o seu parceiro a denunciarem as identidades dos “clientes” em troca de uma pena de prisão mais suave. Com as informações recolhidas foram detidos mais seis homens, três alemães, um suíço, um espanhol e outro de nacionalidade não divulgada.

Apesar do acordo, o casal não escapou de ser acusado de mais de 60 crimes, incluindo prostituição forçada, intimidação verbal e abuso, humilhação extrema, escravidão e violação. Se as investigações das autoridades mostraram os horrores a que a criança foi submetida, o julgamento levantou o véu sobre muitas outras questões.

Em plena sala do tribunal percebeu-se que os serviços de apoio à criança e o tribunal de família tinham atuado negligentemente na salvaguarda dos interesses da criança. Em março de 2017, quando os abusos e a prostituição do rapaz decorriam, o gabinete de apoio à criança de Friburgo chegou a ficar com a custódia do menor quando descobriu que esta vivia na mesma casa que um pedófilo condenado. A mãe contestou a decisão em tribunal e, surpreendentemente, ganhou a custódia do filho. Uma decisão que se deveu ao facto de o juiz não ter ouvido a criança, nem garantido que a afirmação de que Christian já não vivia na mesma casa era mesmo verdadeira - um dos principais argumentos apresentados pela mãe.

Devolvido o menor à casa de Staufen junto com a mãe e Christian L., foi a vez da escola que frequentava lançar o alerta de que havia suspeitas de abuso sexual, Estranhamente, o aviso foi ignorado por as autoridades terem considerado as suspeitas demasiado vagas e guardou a informação na gaveta. 

O menor, hoje com dez anos, vive sob custódia das autoridades numa casa de acolhimento desde setembro de 2017. “Está bem, dadas as circunstâncias”, disse o seu advogado à Deutsche Welle. 

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