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António Barahona. A flor entre os dentes

António Barahona. A flor entre os dentes

Hugo Alves Diogo Vaz Pinto 08/08/2018 11:35

Ao sexto volume, a suma poética de Barahona apresenta-se hoje como o mais empolgante acontecimento na poesia portuguesa, e demarca-se da abulia da nova geração que, por enquanto, pouco se tem influenciado a si própria

 

Há uma atenção às coisas que dói. E começa aí, na escolha dos mestres. Como se tira um embalo da rábula do vento, como uns vasos de flores numa disposição bem estudada fazem música de um aroma, e mesmo o saber estar-se quieto, enquanto os créditos do tédio vão passando, até que o filme volte ao início. Estar um dia inteiro em vigília para se preencher vivamente a distância imensa de um verso. E saber também expurgá-lo de silvas, das forcas mais daninhas. É um cálculo que se toma no sangue. E é algo em que a obra de António Barahona é pródiga. O mais inatual dos poetas portugueses contemporâneos prefere expor as coisas nestes termos: “Deus põe em cada verso uma miragem”.

Eis um exemplo dessa respiração saliente, tão perfeitamente contida: “E, na berma da estrada, uma fonte d’água farta/ Viceja alfavaca de cobra, agriões, salsa brava/ Toda a casta de verdura que se dá a muita água/ Tufos d’erva vidrada ao cair da lentura/ A litúrgica voz da água por um fio/ A demandar cascata acima o rio/ Na onda do caudal que inunda a Hora”.

É um trecho que aparece reescrito e com alguns cortes na secção “O Som do Sítio”, do sexto volume da suma poética de António Barahona, “Aos Pés do Mestre”, agora publicado. A versão acima transcrita é a que comparece na antologia “O Sentido da Vida é Só Cantar” (2008), e, não sendo o caso para dizer que, não raras vezes, o autor piorou os textos com as remodelações praticadas, os leitores de Barahona não devem prescindir de comparar as correções e perceber o que se sacrificou, seguindo, assim, o confronto entre as intuições que o poeta foi tendo ao longo das suas várias idades.

Face a este caudal que se vai abrindo em veios segundo um apuro cardíaco, é particularmente aconselhável seguir as variações de alguém que, se não falsificou a inspiração original, procurou escrever cada poema “como se fosse o último”, tomando notas “no caderno onde o seu êrro criara raízes”.

“Os poetas inspirados, ou identificados com o cosmos, como Pascoaes gostava de dizer, são assim: escrevem o que ouvem. E as vozes que lhes ditam os versos nem sempre são exigentes”, diz-nos Eugénio de Andrade em “Os Afluentes do Silêncio”. No caso de Barahona, a tonalidade afetiva e lírica que sempre anima os seus versos, não se constrói apenas da articulação entre o poético e o religioso, mas acompanha a lição de Cesário na “descoberta e exaltação dos objectos quotidianos e da vida prática, em obsessiva sintonia descritiva, onde o poeta se torna ator e representa a realidade através de uma técnica de distanciação entremeada com aproximações e mergulhos fulgurantes de ingenuidade cósmica” (resposta a um inquérito sobre a influência daquele poeta na poesia portuguesa do século XX / Colóquio Letras, setembro de 1986).

Não tendo gozado alguma vez de grande favor, fosse junto da crítica, fosse entre os leitores, e surgindo as mais das vezes como uma tumultuosa e fugidia presença na linha de fundo, esta obra mostra-se crivada de cicatrizes das suas tantas voltas, conversas até muito tarde com gente de toda a proveniência, das infinitas e inconsoláveis buscas, das febres alucinantes e do erotismo radiante à mais casta ternura. Deste modo, manteve a sua graciosa inquietude, conquistando a admiração dos seus pares. Mas foi no início desta década, num resgate que ficou a dever-se primeiramente a Changuito – com a publicação de “O Som do Sopro” (2011) pela Poesia Incompleta –, que esta poesia começou enfim a ser tomada muito a sério pelos poetas mais novos, menos levianos na hora de virar as costas à sumptuosa elaboração de influências e vivências, num discurso que, se não parte do zero, tem a mira apontada ao infinito. Tendo publicado folhetins altamente polémicos, manifestando o seu desacordo em face da moral-buffet própria da inconsequência e irresponsabilidade das opiniões que desalmam este tempo, Barahona foi irradiado quando outros faziam as unhas para ir às cerimónias da consagração. Entretanto, a sua obra tem vindo a impor-se como uma razão nua e cintilante, separando a treva do vidro, e tocando o fundo do fundo desse entendimento de que, “frente à poesia, toda a morte é precoce” (Antonio Carlos Secchin).

Num tempo em que o real anda traficado entre as rimas internas da mais baixa biografia, com o quotidiano rebaixado aos seus tiques mais desgostosos, a lição deste poeta está no modo como se aproveita de um encantamento pagão, trabalhando entre a memória e o ardor místico um reflexo amorosamente envolvido com a vida: “O poema inspira-se no poeta para se escrever/ e vira-se/ um barco no mar/ à distância de um cabelo longo de mulher”.

Colocando-se tantas vezes de joelhos, na posição do tradutor de encantos, se esta poesia é atravessada dos sinais de uma profissão de fé, sempre que se volta para Deus, levantando as mãos para ler com os dedos o seu rosto, não encontra esse cão que cheira o pecado em tudo, e que só mostra um inventivo talento na hora de inspirar temor. Ao invés disso, a divindade a que rezam estes versos é a mesma que nos causa vertigens ao contemplarmos a magnificência da Criação.

E nunca o corpo se nos deteve em tão subtis sensações na boca como quando o poeta nos oferece um vislumbre das horas que passou em devoção às mulheres que amou: “Os sorrisos de Sujata cirandavam pela casa, atiravam romãs aos vidros: nos cacos via-se a païsagem estilhaçada/ Aquela mulher entrara no meu sono com um sonho desconhecido”. E, num outro livro, “Pátria Minha”, completamente reescrito face à primeira edição, lemos estes versos: Perdi a caneta/ de tinta eterna/ no teu cabelo.// O Adamastor lá estava, no relvado,/ onde mais duma vez nós conversámos/ a contemplar o rio com desencanto.// A caneta perdida impedia-me de escrever/ quanto te amo e odeio/ como se ardesse a frio num incêndio.// A côr da friagem na minha barba hirsuta/ toldada de brancura e nevoeiro:/ é a velhice magra que me espreita, atenta/ à caneta perdida em teu cabelo.”

Se algum dia vier, o reconhecimento devido a esta obra irá regozijar-se perante um espantoso poço aonde qualquer leitor poderá ir gritar-se, recebendo na volta as ressonâncias mais vivas deste idioma. No fim, a grandeza de Barahona não está apenas na sedução que lhe é própria, mas vai mais longe, pela mão da generosidade de alguém que se fez mestre com virtudes de discípulo: escutando, acolhendo, homenageando essas outras vozes que misturou na sua: “Na minha voz há ecos de tom íntimo,/ poetas a falar, aberto o peito ao sôpro/ e santos d’olhos postos no som mystico”.

E isto nem pode estranhar-se num poeta que se formou naquele café à beira do abismo, escrevendo nos braços, tirando notas diretamente no espírito e participando daquelas “conversas incendidas, sismo a sismo,/ no desabar da época”. É isto o que, enfim, nos permite ir mais longe e afirmar que, fazendo chegar mais leitores a este poeta, o que se consegue é uma justiça feita não a um mas um estrepitoso bando: “assembleia de pássaros ignotos/ em ilhas de desejo.”

De tudo o que faz da obra de Barahona uma arrebatadora antologia da nossa tradição lírica, sendo detida no sangue, no sopro e no ritmo, não pode deixar de se vincar o que há de único neste poeta: a inebriante vertigem que prendeu como fogo aos versos a mais desenfreada das juventudes: “E foi assim que tudo começou:/ eu tinha saudades de mim e procurava-me/ Emigrei, emagreci, escrevi éclogas,/ subi escadas nos meus sonhos/ (a minha almofada era uma pedra)/ e habitei dentro do peixe/ na escuridão junto ao fígado/ Desdobrei o mapa no chão do meu quarto:/ bandeirinhas, bastões, bardos, bonecas de cera,/ noites de trovoada, enciclopédias, bruxas, prateleiras/ – era este o meu vocabulário, o vento que soprava/ e a minha canoa triste à bolina parecia um cão a cortar a água/ Viajei, varri o céu com uma vassorinha,/ as histórias da minha infância voltaram a ser verdade”.

 

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