18/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 08/08/2018
Carlos Zorrinho
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O desenho da memória e do futuro da UE

A tecnologia está cada vez mais apta a captar a memória do que somos e a ajudar-nos a projetar o futuro com ela. Se captar boas memórias, projetará o bem, e o contrário é igualmente verdade

Aceitei com entusiasmo e sentido de responsabilidade a missão de representar os Socialistas e Democratas (Grupo S&D) na apreciação pelo Parlamento Europeu do Programa Europa Digital, que se prevê venha a ser dotado, entre 2020 e 2027, de cerca de 9,2 mil milhões de euros para investimento em áreas como a inteligência artificial, a computação de alta performance, as competências digitais avançadas, a cibersegurança e a interoperabilidade. A União Europeia tem neste programa uma oportunidade para se reposicionar estrategicamente, recuperando através da revolução tecnológica a memória e a alma do seu ideal partilhado

Uma das minhas primeiras aventuras de investigação empírica, no início da última década do século passado, ainda doutorado de fresco na área emergente que era então a gestão da informação e com o incentivo de mestres inesquecíveis, foi o projeto ALMA (abordagem lógica da memória ativa).

Num tempo em que o sistema informático da minha universidade (UE – Universidade de Évora) tinha uma ínfima capacidade daquilo que tem o pequeno portátil em que escrevo este texto, o ALMA estudava a memória como a base de atribuição de significado e de desenho do futuro através do impacto da crescente capacidade de armazenamento, processamento e transmissão de dados nas dinâmicas organizacionais.

Desenhar a memória é desenhar o futuro num ciclo perpétuo. A inovação surge sempre através dos instrumentos que a induzem. Os potentes impulsionadores tecnológicos dos nossos dias fazem, contudo, recear que as próteses cognitivas, cada vez mais sofisticadas, capturem essa mesma memória e o destino da humanidade.

Os abusos comprovados no uso dos dados obtidos e geridos pelos grandes gigantes tecnológicos têm vindo a criar uma corrente de denúncia e alerta contra os perigos da manipulação e do controlo das redes de informação e, através delas, do controlo dos processos de decisão e de exercício do poder.

O potencial e os riscos da memória aumentada, que me atrevi a estudar há quase 30 anos, chegaram hoje ao domínio da apropriação da consciência dos indivíduos, das comunidades e dos povos, ou, pelo menos, dos processos que lhe dão origem.

Não partilho o deslumbramento dos que pensam que a revolução tecnológica no domínio dos dados, da informação, das redes e da inteligência artificial é a semente automática de um admirável mundo novo. Também não partilho do pessimismo catastrofista que vê nessa revolução a raiz de todos os males. Não é por parecer banal que se torna menos importante reafirmar que a tecnologia deve servir as pessoas, e não o contrário.

A chave para um futuro melhor não é a tecnologia, mas a ética e os valores de quem com ela interage. É na ética e nos valores que se vai travar a grande batalha do futuro. A tecnologia estará cada vez mais apta a captar a memória do que somos e a ajudar-nos a projetar o futuro com ela. Se captar boas memórias, projetará o bem, e o contrário é igualmente verdade.

Ao embeber a ética e os valores do ideal europeu na revolução tecnológica, a União Europeia pode dar um passo decisivo para consolidar o seu futuro e para contribuir para um futuro melhor para o mundo.

 

Eurodeputado

 

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