20/9/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 08/08/2018
Eduardo Oliveira e Silva

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O PSD com as tricas do costume

A agitação atual nada tem a ver com ideologia. O que está em causa são lugares de deputados nacionais e europeus, a distribuir para o ano. O resto são cantigas

1. Tal como Sá Carneiro, Balsemão, Mota Pinto, Fernando Nogueira, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite (para citar apenas alguns dos ex-líderes sociais-democratas), Rui Rio é objeto de uma contestação sistemática e fora de tempo no PSD.

Apenas um líder passou absolutamente incólume a este tipo de processo. Foi Cavaco Silva, que pôs e dispôs do partido como quis, sem que ninguém se atrevesse a contestá-lo abertamente. É verdade que houve ataques que vieram de dentro, mas exprimiam-se na imprensa da época, nomeadamente n’“O Independente”.

Os sociais-democratas sempre viveram em sobressalto e guerras internas. Isto porque, ideologicamente, não têm um partido definido, mas sobretudo porque são um conglomerado com um apetite voraz pelo poder, nervoso e que convive pessimamente com passagens pela oposição e pior ainda com a perspetiva de não voltar ao poder rapidamente.

Apenas seis meses depois do congresso sucedem-se manobras de bastidores ou públicas para desacreditar Rio, supostamente porque ele facilita a vida ao PS. Ainda que fosse uma verdade objetiva, os ataques existiriam na mesma, pois o que está em causa não é isso.

Salvo no caso de Montenegro, que de forma clara se afastou de Rio no congresso e abandonou todos os cargos, a agitação reinante tem por base uma coisa fundamental: a caça aos lugares de deputado nacional e europeu no ano que vem.

A indisposição em relação a Rio nasce fundamentalmente num grupo parlamentar constituído por Passos (cujo regresso eventual aqui se abordou na semana passada, depois de notícias a esse respeito) e seus apaniguados, que receiam ser substituídos por gente próxima do atual líder. Com uma ou outra rara exceção, deve, aliás, reconhecer-se que o grupo é fraco, não havendo muitas figuras que justifiquem lugares cativos. A somar a isso, Rio é imprevisível e muitas vezes errático nas escolhas de nomes, como está bem patente em certas figuras da sua comissão política.

O outro eixo da contestação interesseira tem a ver com os lugares de eurodeputados. A previsão de resultados aponta racionalmente para que PS e PSD mantenham os mesmos assentos, pois Portugal continuará a contar com 21, apesar da saída dos britânicos do parlamento. Como cabeça, o PSD apresentará Paulo Rangel. Em parte é isso que leva Santana, agora retocado de eurocético, a sair do partido (será que já saiu mesmo?) para se bater por uma cadeira de sonho em Bruxelas e, depois, um pequeno partido nacional que possa fazer alianças de poder. Face às batalhas de Santana no passado, o mais certo é esta também ser perdida.

Na política, a guerra das cadeiras é uma realidade constante e os confrontos iniciam-se muitos meses antes da ida às urnas. Perceber isso é essencial. São as coisas mais comezinhas que estão normalmente por detrás das grandes proclamações. Pedro Duarte conhece essa realidade. É jovem e gosta do poder. Percebe que há um tempo de agitação no qual convém marcar o ponto. Foi o que fez ao dar uma entrevista ao “Expresso” em que mostra a sua disponibilidade para concorrer já à liderança. É nessa ótica de agitação e confusão que se enquadra a sua repentina manifestação de disponibilidade. Não será ele que se vai mexer para tombar Rio. A leitura certa é que irá a jogo se o líder deixar de ter condições. O momento ideal para ele e outros pode ser depois das europeias, se Rio não ganhar. Seria um “poucochinho” à moda do PSD, como disse António Costa quando inopinadamente atacou e derrubou Seguro depois de europeias. Para ser coerente e linear, Pedro Duarte deveria ter sido candidato contra Rio e Santana, mostrando ser uma terceira via, diferente e refrescante. Se o tivesse feito, agora não teria tido necessidade de aparecer, dando um sinal aos potenciais descontentes para que possam contar com ele. Quanto a ideias, nem uma apareceu na entrevista. É certo que, ao contrário do profissional, o curriculum político é curto e pode ter pouco para dizer. Ter sido secretário de Estado é algo de que muitos se podem gabar. Quanto a ter sido diretor de campanha de Marcelo, sabe-se que o atual presidente fez tudo sozinho, sem cartazes e sem grande organização. Limitou-se a aparecer e ser ele próprio.

2. Antes de ir de férias, Marcelo promulgou a lei sobre o alojamento local. Ajudou assim a tentativa de destruição de um pequeno negócio de gente que poupou e tirou o dinheiro dos bancos para não ser enganado. A nova lei favorece a inveja e a bufaria pidesca. Querem combater os excessos? Muito bem. Não deixem os chineses e quejandos comprarem casas, obterem vistos gold e depois irem para a terra deles, alugando prédios inteiros para hostels ou deixando nascer pensões para 20 pessoas nas avenidas de Lisboa, destruindo a hotelaria clássica que não é afetada pelo alojamento local. Que incómodo causa uma família de quatro ou cinco pessoas a chegar a um prédio? Certamente muito menos que cães a ladrar, discussões domésticas ou gente a beber copos ao fim de semana e a ouvir música étnica aos berros. Contra esses, normalmente não há queixas. Primeiro, porque a Polícia Municipal nada faz. Depois, porque esses infratores vivem ali e podem retaliar. Mas contra o turista do trólei e não muito abonado vai haver participações. Desde logo porque a criatura não fica cá e os donos das casas não estão lá em permanência. A nova lei tem como suporte uma coisa muito portuguesa: a inveja e a denúncia escondida. Marcelo deveria ter tido isso em conta, até porque ele já cá andava antes da revolução e nos tempos de brasa que se lhe seguiram.

 

Jornalista

 

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