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Hotéis. Oferta vai continuar a crescer mas “fobia” ao turismo também

Hotéis. Oferta vai continuar a crescer mas “fobia” ao turismo também

Shutterstock Sofia Martins Santos e Sónia Peres Pinto 04/08/2018 13:03

Só para este ano está prevista a abertura de quase 50 novas unidades hoteleiras. Mas a ideia de ter mais turistas não agrada a todos e Portugal corre o risco de enfrentar os mesmos problemas que outros países europeus

Mais turistas em Portugal também significa mais alojamentos e, em 2018, os números deverão voltar a aumentar. Só para este ano, a Deloitte aponta para o aparecimento de 49 novos hotéis, sobretudo de quatro e de cinco estrelas. Só na capital está prevista a abertura de 21 novas unidades hoteleiras. A região do Porto irá receber 11 novos estabelecimentos, enquanto a região Centro e a Madeira irão receber sete cada um. Já o Algarve irá abrir duas unidades, e o Alentejo um estabelecimento.

A verdade é que esta tendência de subida não é nova. Já em 2017, o número de empreendimentos turísticos (1993) e de unidades de alojamento (mais de 143 mil) também aumentou, contando com mais 48 e 3350, respetivamente, face ao ano anterior.

“O setor de turismo continuou, ao longo de 2017, a dar provas do seu potencial, batendo recordes não só no número de hóspedes, mas também na riqueza que gera. Com esta dinâmica, assistimos também a uma valorização dos ativos imobiliários que, obrigatoriamente, se assumem como a base do negócio hoteleiro”, diz Jorge Marrão, partner e real estate leader da Deloitte.

Com este reforço na oferta, é natural que o número de camas tenha disparado no espaço de um ano ao passar de quase 101 mil para mais de 205 mil. Feitas as contas, tal representa um aumento de 103 mil e um crescimento de 102% (ver quadro ao lado).

A Deloitte revela ainda que o número de unidades de alojamento local (AL) existentes em Portugal aumentou, tendo passado de 26 151 em 2016 para mais de 51 mil em 2017, o que representa um aumento de 85%, correspondente a um total de quase 25 mil unidades.

Segundo o mesmo estudo, o Algarve e o Norte são as regiões que concentram o maior número de empreendimentos turísticos (22% cada), seguidas da região Centro (21%), Lisboa (16%), Alentejo (8%), Madeira (7%) e Açores (4%). No que toca ao número de unidades de alojamento, o Algarve mantém a liderança, com 32%, mas é Lisboa que assume a segunda posição, com 21%.

 

Outra oferta A esta oferta há que somar ainda o alojamento local (AL), que mais do que duplicou em dois anos e que, em termos de números de camas, já ultrapassa as que são disponibilizadas pela hotelaria tradicional.

As contas são simples: as 59 300 unidades de alojamento local em Portugal oferecem 229 mil camas, um número que fica bem acima das 181 mil oferecidas pelos hotéis existentes no país, revela a a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP). E mesmo com o aparecimento de novos hotéis, o ritmo de crescimento de novas unidades em regime de alojamento local continua a ser sempre superior, o que irá continuar a aumentar a distância. A ideia de rentabilidade neste segmento continua a cativar os proprietários para este negócio, remetendo para segundo plano o arrendamento de longa duração.

E os números falam por si: se no final de dezembro de 2015 existiam cerca de 28 mil unidades de AL, atualmente elas já ultrapassam as 59 mil, revelou a secretária de Estado do Turismo. De acordo com Ana Mendes Godinho, parte destes alojamentos já existiam, mas estavam “fora do mercado normal”.

Fobia ao turismo Os números chegam das mais variadas fontes e não deixam margem para enganos: com ou sem uma tendência atual de abrandamento, o turismo cresceu muito em Portugal nos últimos meses e transformou-se um dos maiores suportes da economia nacional. A verdade é que o país nunca recebeu tantos turistas e isso traduziu-se num aumento das receitas na hotelaria e nas companhias aéreas. O ano de 2017 acabou por ficar na história nacional como o melhor ano de sempre no setor. Todos aplaudiram. Mas também foi exatamente no meio de todo este cenário de crescimento que começaram a levantar-se algumas vozes a chamar a atenção para a necessidade de ser estabelecido um plano de crescimento mais sustentável.

A discussão em torno deste assunto ganha cada vez mais relevância e é suportada pelo facto de a ONU ter declarado o ano de 2017 o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Mas em que consiste, afinal, este ponto na agenda internacional? A ideia é alertar para a necessidade de todos reconhecerem “a importância do turismo internacional e, em particular, para promover uma melhor compreensão entre os povos em todo o mundo, levando a uma maior consciencialização sobre o rico património das diversas civilizações”.

Até porque, se por um lado as pessoas viajam cada vez mais, há também cada vez mais cidades a colocar um travão na entrada de estrangeiros. A verdade é que em algumas cidades europeias já está aberta a caça ao turista. Há quem avance mesmo que o turismo de massas está a caminho de uma verdadeira explosão social. Assistimos a cada vez mais manifestações, há queixas por causa do aumento das rendas e do custo de vida. Os velhos habitantes falam de uma invasão e os governos tentam fazer face ao crescimento do número de turistas. O que não falta são exemplos de medidas criadas por vários países e a promessa é que os casos comecem a multiplicar-se.

Em 2016, a cidade de Barcelona recebeu mais de 32 milhões de visitantes. Há quem se queixe de ter deixado de andar nas Ramblas para evitar as centenas de turistas que lá passam todos os dias. E quem pensa que para os comerciantes as notícias são apenas boas, desengane-se. A maioria assegura que são mais os que apenas passeiam e tiram fotografias do que os que compram alguma coisa. Uma forma de proteger mais a cidade do turismo de massas passa por aplicar taxas e é neste sentido que o governo tem estado a ponderar aplicar um imposto por cada turista que fique na cidade por menos de 12 horas. “Se não queremos acabar como Veneza, temos de impor limites”, explicou Alda Colau, a presidente da câmara local, quando tomou posse. Uma das primeiras medidas foi criar, logo em janeiro de 2017, uma proibição de novas licenças para a construção de hotéis. O movimento contra os turistas na cidade já chegou mesmo a furar os pneus de bicicletas dos turistas e passou a ser frequente ver frases como “voltem para casa” nas mais variadas ruas da cidade.

Londres, Berlim, Dubrovnik, Roma e Santorini são exemplos de destinos onde também foram adotadas medidas para controlar a entrada de turistas. Mas existem exemplos em todo o lado. Também a Áustria cobra taxas aos turistas mas, neste caso, a cobrança é feita à saída. O dinheiro angariado reverte para medidas ligadas ao ambiente.

 

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