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Celeste Rodrigues. Uma pedra de Lisboa

Celeste Rodrigues. Uma pedra de Lisboa

Mariana Madrinha 01/08/2018 22:08

Foram 95 anos, 73 de cantigas. Celeste Rodrigues partiu hoje 

A voz de Celeste Rodrigues silenciou-se. A fadista, um dos nomes mais antigos do fado, partiu ontem, aos 95 anos. “É com um enorme peso no coração que vos dou a notícia da partida da minha Celestinha, da nossa Celeste”, escreveu nas redes sociais o neto da artista, Diogo Varela Silva.

Começou a cantar com a irmã, Amália Rodrigues, antes de prosseguir o seu caminho - e cantou até ao fim. Em maio comemorou uns impressionantes 73 anos de carreira com uma festa cantada no Tivoli.

Fundão, Lisboa e mundo Celeste Rodrigues nasceu no Fundão a 14 de março de 1923. Numa entrevista dada ao “Público” em 2014, Celeste recordou a infância, que teve tanto de dura como de feliz: dos dez filhos do casal Rodrigues, apenas cinco chegaram à vida adulta. E foi quando perdeu uma das irmãs, Maria do Rosário, com seis anos (Celeste tinha nove), que deixou de acreditar em Deus. “Estava a pedir por ela, na igreja, quando o meu irmão veio ter comigo e me disse que ela tinha morrido. Nunca mais acreditei em nada. Deus, Pai Natal, acabou aí. Tenho impressão de que era mais violento do que agora, porque éramos mais unidos. Também não tínhamos mais nada - a não ser uns aos outros”, contou. Apesar das dificuldades, Celeste não sentiu a falta de desafogo na infância como um entrave à felicidade - até reconheceu méritos à pobreza. “Doeu na carne [a privação]? Doeu nada. Dá mais poesia. A pessoa cresce mais depressa.” 

Mas a família era feliz e, depois, havia a música: o pai, sapateiro, tocava trompete, saxofone e clarinete, a mãe “tinha a voz mais bonita do mundo”. “Chamavam-lhe o Rouxinol da Beira! Tinha uma voz que se ouvia a dois quilómetros”, contou na mesma ocasião, recordando a altura em que a mãe lhe ensinava o beirão “Milho Grosso” enquanto descascavam ervilhas. Mas ninguém na família sonhava ser artista. “Nem eu nem a Amália.” Celeste foi a última dos irmãos Rodrigues a partir.

Sou uma pedra de Lisboa Veio com cinco anos para Lisboa e tornou-a sua. “Gosto de Lisboa de todas as maneiras, sou uma pedra de Lisboa. Sem Lisboa, não sou nada”, explicou este ano numa entrevista publicada no site NIT.

Amália Rodrigues começou a cantar em 1939, Celeste seguiu-lhe as pisadas seis anos depois. “A minha mãe dizia que éramos o roque e a amiga. Andávamos sempre, sempre juntas”, explicou ao “Público”. Começou a cantar em 1945, no café Casablanca, depois de o empresário da irmã (José Miguel, dono de vários teatros e casas de fado) a ter ouvido cantar na Adega Mesquita. Mas antes já tinha ido a Madrid, à Madeira e até tinha cantado para “um filme de pescadores bacalhoeiros da ‘National Geographic’”. Depois seguiu com Amália para uma digressão no Brasil onde participou na opereta “Rosa Cantadeira” e na revista “Bossa Nova”. Gravou temas como “A Lenda das Algas” e o “Fado das Queixas”. Em 1952 gravou “Olha a Mala” , uma música que falava de um hidroavião e que passava recorrentemente nas rádios. Ao longo da carreira foi também voz assídua nos elencos de várias casas de fados: Café Latino, Marialvas, Adega Mesquita, Tipóia, Adega Machado, Parreirinha de Alfama, Embuçado...

Em 2005, ainda fez uma digressão europeia no espetáculo “Cabelo Branco é Saudade”, encenado por Ricardo Pais, então diretor do Teatro Nacional São João, no Porto.

Fado Celeste Também aprendeu a falar muitas línguas: “Devíamos falar só uma língua, sem fronteiras. Era bom ou não? A primeira que aprendi foi o alemão e, às tantas, já sabia manter uma conversa. Praticava com um amigo do meu pai que falava inglês, francês, alemão, italiano, russo. Ensinou-me uma cantiga em italiano. Tinha uns nove anos e andava a cantar toda contente, sabia lá que era o hino do fascismo”, disse ao NIT.

Em 2007 editou o álbum “Fado Celeste”, com letras de Hélder Moutinho, José Luís Gordo e Tiago Torres da Silva, em que cantava no fado com o seu nome: “Há tanta gente a passar/ Que às vezes chego a escutar/ O pregão duma varina/ Sei que a vida continua/ Mas vejo passar na rua/ Os meus tempos de menina”. Três anos volvidos estreou, pela mão do neto Diogo Varela Silva, também realizador, um documentário com o mesmo nome que percorria a vida da fadista. E em 2012 foi condecorada pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique. 

Continuou sempre a cantar; nunca perdeu um sentido de humor refinado, irónico, que perpassa por todas as suas intervenções, nem a vontade de usar batom vermelho. E tratou até ao fim as casas de fados por tu, como lembrou ontem a fadista Carminho na mensagem que lhe dedicou nas redes sociais, lembrando a presença de Celeste no Embuçado: “Sempre com um galão e um cigarro, ia ficando em silêncio até que alguma história ou memória fosse pertinente, e era aí que eu tentava não perder nada. A vida na Beira, as cantigas da sua mãe, as noites de fado... E depois cantava. Cantava! Cantava de um lugar tão profundo como se o seu timbre doce e grave fosse trazer ali outras vidas.”

No ano passado, os mundos dela e de Madonna cruzaram-se. Tornaram-se amigas, cantaram em dueto em Alfama uma música de Elvis e, na passagem de ano, Celeste, a lenda, foi com a rainha da pop para Nova Iorque. “Os dançarinos da Madonna, eram uns quatro, todos estupendos, estavam ali a dançar e eu levantei-me da mesa para a pista. Um deles veio dançar para o pé de mim, agarrou-se a mim e disse-me: ‘You’re so young, so young, wonderful, wonderful!’ Uns piropos simpáticos”, contou na mesma entrevista ao NIT, onde também revelou que, para ela, o rei não era Elvis, mas antes David Bowie.

Na página seguinte republicamos as declarações da fadista aquando da comemoração das mais de sete décadas de carreira. 

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