13/11/18
 
 
José Cabrita Saraiva 01/08/2018
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Robles ou o fim do idealismo da esquerda

Um vereador da Câmara de Lisboa compra um edifício por 350 mil euros e, depois de fazer obras de recuperação, põe-no à venda por 5,7 milhões. Um belo negócio, sem dúvida. Mas não seria um assunto de interesse meramente local? Nada disso. Até ver, tornou-se o grande caso do verão.

O aspeto mais evidente é que a conduta de Ricardo Robles entra em chocante contradição com o discurso do partido e do próprio vereador, que ainda na véspera de estalar o escândalo se tinha insurgido, via redes sociais, contra a especulação imobiliária. Ou seja, Robles tentou lucrar usando os mesmos métodos que tanto criticava.

Mas há algo talvez ainda mais terrível: é que o ex-vereador milita num partido da extrema-esquerda. E, ao contrário do ‘centrão’ - que é visto como o meio onde proliferam as negociatas - a extrema-esquerda era considerado por muitos o último santuário do idealismo. Enquanto a direita era conotada com o dinheiro, com os capitalistas selvagens, com os privilegiados e com os negócios duvidosos, a esquerda era o reino puro e casto dos ideais.

O nome de Mark David Chapman pouco dirá à maioria dos portugueses. Ele foi o homem que, a 8 de dezembro de 1980, disparou cinco tiros contra John Lennon. Questionado por que o fez, explicou como se sentira desiludido quando descobriu que Lennon, embora nas suas belas canções falasse sobre um mundo sem propriedade privada, andava num Rolls Royce personalizado e tinha um apartamento na avenida mais cara de Nova Iorque.

No caso de Robles, também são aqueles que acreditavam genuinamente que o Bloco era um partido de ideais puros que se sentem mais magoados e desiludidos. O poder de atração do dinheiro insinua-se por todo o lado. E até no seio da extrema-esquerda há quem não lhe seja imune.

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