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Neurociência cognitiva. Projeto português quer desenhar um mapa do cérebro

Neurociência cognitiva. Projeto português quer desenhar um mapa do cérebro

Shutterstock Beatriz Dias Coelho 31/07/2018 19:42

O projeto de um investigador português na área da neurociência recebeu um financiamento de 1,8 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação. Jorge Almeida quer perceber como é que reconhecemosos objetos que nos rodeiam de forma tão rápida e de que forma é que o cérebro organiza a informação

É algo que fazemos de forma inata e sem pensarmos. Olhamos em nosso redor e, a par de dezenas de outros estímulos, identificamos, por exemplo, os objetos que vemos de forma automática e sem hesitações, por muito diferentes que sejam uns dos outros. Contudo, embora o façamos inconscientemente, esse automatismo diz muito sobre a forma como organizamos a informação no cérebro. E isso foi o que Jorge Almeida, investigador da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), se propôs a estudar: idealizou o projeto ContentMAP e candidatou-se aos apoios do Conselho Europeu de Investigação (European Research Council, em inglês). Na sexta-feira, soube que a sua ideia foi uma das contempladas: recebeu um financiamento de 1,8 milhões, que vai usar para desenhar um ‘mapa do cérebro’.

Ao i, o professor e investigador em Coimbra explica que o que pretende é “tentar perceber como é que diferentes objetos, imagens e propriedades levam a diferentes respostas no cérebro”. Para tal, o investigador vai reunir uma amostra de “alunos da universidade, com idades entre os 18 e os 23 anos”, e submetê-los a ressonâncias magnéticas, enquanto lhes mostra um conjunto de imagens para ver como é que o cérebro responde.

O estudo deverá arrancar dentro de seis meses, no princípio do próximo ano, e vai decorrer por cinco anos, período ao longo do qual Jorge Almeida prevê que se vão retirando e publicando conclusões, que serão depois compiladas quando o projeto chegar ao fim. Mas o estudo vai recorrer também a outras técnicas, como experiências comportamentais - pedir aos participantes que relacionem imagens, por exemplo - ou até técnicas não-invasivas, que passam por estimular diferentes áreas do cérebro.

A intenção que vai agora pôr em prática, nota ao i, não é algo novo na área da psicologia - tem-se tentado fazer desde a criação da ressonância magnética. O que é diferente neste projeto, esclarece Jorge Almeida, “é o modo como se pensa na organização”.

“Nós vamos seguir o modo como, por exemplo, os nossos sentidos no cérebro estão organizados. Se olharmos para o córtex auditivo, está organizado por forma a que frequências mais altas de som estimulem uma parte desse córtex auditivo. À medida que vamos modificando a frequência do som, tornando-a mais grave, as respostas neuronais vão mudando de sítio de uma forma não aleatória, mas sim sequencial. A parte do cérebro que responde a uma frequência muito alta, está ao lado da que responde a uma frequência ligeiramente mais baixa e assim sucessivamente - a isso chama-se ‘mapa tonotópico’. O mesmo acontece com a visão: estímulos próximos são processados por áreas próximas no cérebro”. Neste projeto, direcionado para um tipo de conhecimento dito mais conceptual, é essa a lógica que vai ser seguida. “Acredita-se que este tipo de conhecimento seja mais complexo, mas o que nós defendemos é que para o cérebro não é assim, para o cérebro é irrelevante se é informação sobre uma cadeira ou sobre uma sequência do som, é igual, não existe a ideia de complexidade. Acredito que a forma como o cérebro organiza informação nessas áreas sensoriais não deve ser muito diferente da forma como organiza outro tipo de informação”.

Feito o mapeamento, Jorge Almeida pretende depois “arranjar um modelo que torne possível prever como é que o cérebro de uma pessoa responde à imagem de um martelo, de um gato ou de um cão antes de ser submetido a uma ressonância magnética, comprovando de seguida se é assim que o cérebro responde realmente”.

Mapear o cérebro de pessoas com lesões Mas Jorge Almeida quer estender a investigação além dos cérebros ‘saudáveis’. O investigador quer também perceber, “quando o acesso a pessoas com lesões no cérebro for possível”, qual o impacto que essas lesões - como um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou um tumor cerebral, por exemplo - têm no reconhecimento de objetos. “Há grandes diferenças, dependendo do local da lesão. Uma determinada lesão pode resultar em que aquela pessoa deixe de reconhecer ferramentas, mas continue a reconhecer animais, por exemplo”, explica Jorge Almeida.

Primeiro financiamento do ERC para psicologia em Portugal É a primeira vez que, em Portugal, um projeto de psicologia é financiado pelo ERC. “Num organismo da UE que existe desde 2007, o financiamento que agora recebi vem provar que a neurociência cognitiva é uma das áreas mais importantes da psicologia. Mas não é assim que é vista em Portugal”, defende o investigador, que descreve que “nos departamentos de psicologia de universidades como Harvard ou Cambridge, a neurociência cognitiva é a área mais forte. Em Portugal, estamos ainda a pensar na psicologia como psicologia aplicada, ou seja, em vez de pensarmos na psicologia como uma ciência que estuda a mente, continuamos a ter uma visão mais de terapia”. Para Jorge Almeida, o argumento mais forte é o facto de, na Fundação Para a Ciência e Tecnologia (FCT), “não existir um único laboratório de psicologia”. “Espero que este financiamento contribua para mostrar que esta área merece e que há pessoas para isso, mas falta investimento e infraestruturas”, acrescenta.

O investigador não esconde o entusiasmo com a verba atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação, mas lamenta que financiamentos como este estejam sujeitos “a uma quantidade enorme de burocracia”, brincando mesmo com a situação ao dizer que “acaba por ser muito difícil gastar este dinheiro, como acho que a investigadora Elvira Fortunato já disse”. Em jeito de exemplo, o investigador conta que “só para contratar um pós-doutorado para integrar a equipa do projeto, pode demorar até nove meses, segundo a nova lei da contratação pública. E isso torna muito difícil a contratação”. E conclui: “30 ou 40% do meu tempo neste momento é a pensar em burocracias e nas formas de aplicar o dinheiro, em vez de estar já a pensar no projeto. Devia haver um Simplex para a ciência”.

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