23/01/2022
 
 
Missão possível?

Missão possível?

Luís Caldas de Oliveira 31/07/2018 20:15

A ideia de que as universidades têm uma terceira missão, além do ensino e da investigação, é recente. Essa terceira missão engloba a ligação à sociedade - e não, não é uma missão impossível

Na semana passada recebemos no Técnico equipas de três projetos em fase de prova-de-conceito no âmbito do projeto Erasmus+ IF4TM. Este projeto tem como objetivo criar um enquadramento para o desenvolvimento da terceira missão das universidades na Sérvia e inclui 17 parceiros: 12 instituições da Sérvia e cinco universidades da União Europeia.

A ideia de que as universidades têm uma terceira missão para além do ensino e da investigação é recente. Normalmente, aponta-se a sua origem na década de 80 do século passado, associada à publicação nos EUA da lei Bayh-Dole Act, em 1980. Esta lei transferiu para as universidades os direitos de propriedade intelectual resultantes de projetos financiados pelo governo federal. O aumento do portefólio de patentes levou à criação de gabinetes de transferência de tecnologia com a missão de procurar interessados em explorar essas invenções. Na falta de empresas interessadas, os próprios inventores criaram empresas para esse fim, sendo a Google um exemplo. Através deste processo, o conhecimento criado nas universidades é usado em produtos que vão beneficiar toda a sociedade.

De uma forma mais ampla, a terceira missão da universidade engloba as atividades de ligação à sociedade, que se dividem em três áreas. A primeira é a já referida transferência do conhecimento. A segunda visa dar resposta à cada vez mais rápida evolução tecnológica, que cria necessidade recorrente de formação ao longo da vida. A última área é a do impacto socioeconómico, tendo a universidade um papel no desenvolvimento económico da região onde se insere, dinamizando a atividade económica e atraindo talento.

O título desta crónica inspira-se no artigo “Mission Impossible? Entrepreneurial Universities and Peripheral Regional Innovation Systems” de Ross Brown (2016), que analisa o caso da Escócia e o baixo retorno dos investimentos públicos na comercialização dos resultados da investigação. Estas atividades não parecem ter o impacto regional que se esperava e, apesar da criação de novas empresas de origem universitária, estas tendem a manter-se pequenas ou a serem compradas demasiado cedo. Além disso, as pequenas e médias empresas regionais têm dificuldade em converter em produtos ou serviços as tecnologias de ponta desenvolvidas nos centros de investigação universitários.

Porquê criar então um quadro de desen-volvimento da terceira missão para as universidades da Sérvia? A principal razão é que existe um número muito considerável de benefícios económicos nos canais informais que se estabelecem neste âmbito. Um dos mais importantes é o contributo da maior ligação dos professores e investigadores ao tecido económico na preparação dos alunos para as necessidades do mercado. Mesmo que as empresas não possam ser o veículo de valorização dos resultados da investigação, elas podem beneficiar da consultoria e do conhecimento dos académicos e da sua capacidade de formar talentos. As universidades permitem também manter uma rede de talentos que podem transitar entre os centros de investigação e as empresas existentes, e com potencial para criar novas empresas. Um bom exemplo é o da Universidade de Cambridge, que nos anos 80 nos deu o ZX Spectrum da Sinclair Research e que desde então se mantém como um ecossistema de inovação único na Europa.

A visita ao Técnico das equipas de professores de universidades da Sérvia teve como objetivo elevar o nível de prontidão das suas tecnologias do modelo de laboratório para um protótipo industrial. Tendo as tecnologias uma vasta gama de aplicações, é necessária uma escolha criteriosa do mercado inicial para maximizar as hipóteses de sucesso. O primeiro passo é identificar todo o potencial da tecnologia. Para isso colocámos as equipas em contacto com especialistas do Técnico para identificarem as principais vantagens competitivas. O segundo passo é o mapeamento das patentes já existentes. Treinámos as equipas no uso de ferramentas como o espacenet (https://worldwide.espacenet.com/), que permitem encontrar todas as patentes relacionadas com certas palavras-chave, a sua aplicação industrial, as empresas que as detêm e a data do pedido. Com esta informação é possível conhecer a concorrência e ter uma ideia do potencial económico da tecnologia. O terceiro passo é perceber que produtos ou serviços podem ser criados com a tecnologia para resolver problemas de potenciais clientes. Para isso treinamos as equipas na metodologia de “Value Proposition Design” de Alex Osterwalder (https://strategyzer.com/books/value-proposition-design): conhecer os clientes e a forma como o produto ou serviço pode reduzir as suas dores e aumentar os seus ganhos.

A missão de valorizar o conhecimento criado nas universidades através dos gabinetes de transferência de tecnologia parece, de facto, uma missão impossível. Pensamos que esta abordagem de envolver professores, investigadores e alunos será uma forma de a tornar uma missão possível.
 

Ler Mais

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline