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'O Xeca'. Das lutas estudantis ao combate à gentrificação

'O Xeca'. Das lutas estudantis ao combate à gentrificação

Paulete Matos Rosa Ramos 30/07/2018 12:21

Ricardo Robles, filho de um militar, mostrou fibra desde cedo e no oitavo ano já ia a manifs. Fez-se engenheiro e viajou pela América do Sul. 

Está recenseado em Lisboa e vota na freguesia de Santo António, mas nasceu do lado de lá do Tejo, em Almada. Talvez por isso, quando a meio da campanha eleitoral para a Câmara de Lisboa lhe perguntaram pelo lugar favorito da cidade, Ricardo Robles escolheu a zona ribeirinha. E explicou porquê: “É a cidade virada para o rio”. 

Na altura, há pouco mais de um ano, o atual vereador do Bloco de Esquerda (BE) – que introduziu a palavra “gentrificação” no léxico dos lisboetas – era uma figura um tanto ou quanto desconhecida, apesar de ser dirigente da concelhia do partido desde 2005 e de ter sido eleito deputado municipal em 2009, ainda que em regime de rotatividade. Às portas da campanha eleitoral, com o Bloco a admitir que o grande objetivo das autárquicas passava por conseguir um vereador em Lisboa, Robles foi dando entrevistas. E em todas apontava as mesmas três áreas fundamentais em que eram precisas mudanças na cidade: os transportes, a luta contra a precariedade e a habitação. Já depois de ser eleito, em dezembro de 2017 e numa entrevista ao blogue “Leonismos”, Ricardo Robles elegia um quarto vetor “muito importante”: a “transparência”, antes de voltar a disparar contra a especulação imobiliária.

Não é fácil encaixar a polémica do “faz o que eu digo, não faças o que eu faço” no percurso do vereador do Bloco. É que Robles – surfista, snowboarder, benfiquista e conhecido entre os amigos e os militantes do partido por “Xeca” – não só teve um percurso imaculado, como mostrou fibra desde cedo.   

Filho de um militar, viu-se obrigado a mudar de casa algumas vezes. Aos seis anos, saiu da margem Sul e mudou-se para Santa Maria, nos Açores. Só voltaria ao continente já com 10 anos e para viver no Seixal. Apesar da profissão do pai, Robles não teve uma educação rígida ou conservadora. De tal forma que até contou, numa entrevista, que a inclinação para a Esquerda lhe veio precisamente dos pais, ainda que nenhum dos dois tenha militado em partidos. 

No oitavo ano já ia a manifestações e esteve nos protestos contra a PGA, a Prova Geral de Acesso à universidade. Mais tarde, foi dirigente da associação de estudantes do Instituto Superior Técnico (IST) – onde se formou em Engenharia Civil e onde conheceu Francisco Louçã. Entrou para o curso em 1995 e combateu fervorosamente as praxes, que chegaram mesmo a ser abolidas da instituição e acabaram substituídas por inofensivos jogos de receção aos caloiros. 

Pelo meio, participou em acampamentos de jovens e colaborou com associações como a SOS Racismo. Sempre, contou ao “Público” a rapper Capicua, amiga de adolescência de Robles, de calções. “Fizesse chuva ou fizesse sol”. O vereador do Bloco tornou-se engenheiro em 2000, mas quando ainda estava na universidade participou numa candidatura autárquica e representou as “Esquerdas Unidas” – que juntavam o Partido Socialista Revolucionário (PSR) e o partido Política XXI. 

Mais ou menos na mesma altura, em 1999, ajudou a fundar o Bloco de Esquerda. E quis conhecer mundo. Fez as malas e foi de Erasmus para Copenhaga. Na Dinamarca, integrou um projeto de investigação sobre desenvolvimento sustentável – Robles é especialista em reabilitação urbana e eficiência energética – com uma meta ambiciosa: requalificar um bairro no centro da capital. Os anos seguintes seriam de correria: fez uma tese de mestrado no IST sobre “Previsão do comportamento de betões com agregados reciclados. Levantamento do state of the art experimental internacional” e voltou a viajar. Em 2001, foi de autocarro para Génova com outros companheiros do Bloco para marcarem presença nos caóticos protestos contra o G8. Também esteve no Fórum Europeu de Florença, em 2002, e no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2003. Nessa altura, decidiu viajar pela América do Sul e, durante três meses, percorreu países como o Uruguai, a Argentina, a Bolívia, o Perú e o Equador.  

Pouco tempo depois, em 2005, já era líder da concelhia de Lisboa do BE e em 2013 acabaria eleito diretamente para a Assembleia Municipal, depois de quatro anos em regime de rotatividade. Pelo meio, casou. E tem dois filhos. 

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