15/11/18
 
 
João Lemos Esteves 24/07/2018
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Jean-Claude Juncker: a embriaguez do “euromerdismo”

1. Atenção: o conteúdo da presente prosa pode ferir suscetibilidades. Sobretudo, o título que encabeça a presente página do seu jornal diário de eleição já lhe poderá ter provocado um surto (fugaz, claro) de indignação e vontade de insultar o respetivo autor: está no seu legítimo direito. O autor das presentes linhas apenas lhe pede um singelo obséquio: que prossiga a leitura da crónica até ao fim. Até à última palavra, conservando a indignação e a perplexidade para o stresse pós-traumático europeísta que sentirá quando, após concluirmos esta nossa digressão analítica, virar a página. Aviso prévio: caso já se tenha sentido chocado, considerando aviltante o título da nossa crónica de hoje, então verá que as conclusões serão verdadeiramente aterradoras. Todavia, os nossos estados subjetivos quanto à realidade não têm o efeito mágico de a alterar; tão-pouco constituem uma causa de exclusão de culpa para legitimar a manipulação da realidade de acordo com as nossas conveniências ou interesses.

2. Aceita o desafio? Sem medo ou ideias preconcebidas? Então avancemos. Relembremos que o discurso mediático português e europeu é dominado pelo anti- -trumpismo primário: nunca se discutiu realmente a política prosseguida pela atual administração norte-americana nem o seu impacto sistemático no contexto das relações internacionais e dos equilíbrios geoestratégicos – discutiu-se (e discute- -se) o homem, Donald J. Trump enquanto persona pública : diz-se que o homem não tem maneiras, que o homem não sabe articular uma frase, o homem só come cheeseburgers, o homem não segue o protocolo, o homem não tem finesse, o homem é um bronco (!). Ricardo Araújo Pereira, na passada semana, afirmou mesmo que “Donald Trump é um chimpanzé”: imagine-se só que alguém tinha a ousadia de qualificar Barack Obama como o “chimpanzé ou outro primata que lidera os EUA”. Neste momento, já estaria acusado, condenado, preso, linchado na praça pública – e impedido, formal e mediaticamente, de exercer qualquer atividade com incidência pública. E, porventura, com muita razão: chamar chimpanzé já extravasa os limites da razoabilidade e da civilidade do discurso público.

3. Enfim, os líderes e jornalistas europeus apreciam sempre relembrar a sua superioridade moral, intelectual, cultural e até social face aos norte-americanos. Os europeus (alguns!) acham que pertencem a outra estirpe, ao povo com mais classe à face da Terra; acreditam piamente que têm boas maneiras, umas maneirinhas chiques a valer! Na Europa não há presidentes com um “penteado original”: noblesse oblige, pardons-nous! Ora, nós poderíamos argumentar em sentido contrário, demonstrando que essa pretensa superioridade não passa de um resquício de hierarquias sociais pretéritas. Mas para quê enredar-nos em palavras extensas, em argumentos sofisticados, quando basta, para demonstrar o nosso ponto, evocar um único nome? Esse nome é o de Jean- -Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. Não nos parece que seja propriamente um arauto dessa noblesse europeia: Juncker não tem um penteado original ou alaranjado, o que o liberta dos comentários jocosos dos nossos jornalistas; todavia, a verdade é que deixa muitos europeístas de cabelos em pé, senão mesmo descabelados.

De facto, Juncker tem feito mais pelo descrédito das instituições da União Europeia do que qualquer ativismo de políticos eurocéticos. Se tivéssemos, por mera hipótese académica, de elaborar um manual de “como destruir a União Europeia para totós”, diríamos que cumpre seguir três passos elementares: 1) insinuar ou asseverar que a União Europeia é um pântano ingovernável, que se autodeclara como uma organização supranacional mas que, na verdade, não sabe o que é, para além de instrumento para a concretização de objetivos geopolíticos das suas duas maiores potências (Alemanha e França, com liderança da primeira); 2) ir ao Parlamente Europeu e acusar este órgão de ser vergonhoso e verdadeiramente inútil; 3) já que é um manual para totós, por piada e no extremo, sugerimos aproveitar os jantares oficiais de organizações internacionais nas quais os membros da União Europeia tenham um papel de relevo para promover discussões tão animadas que redundem numa “doença ciática”, como metáfora para o estado de decadência da UE. Algo assim completamente surreal, ilimitadamente bizarro, que nunca poderia acontecer – mas que ficaria, com toda a certeza, na História como documento ilustrativo da agonia que a (des)União Europeia vive.

4. Dirá o leitor: aqui está um exercício fantasioso – jamais se verificariam estas três condições, a não ser que o Steve Bannon obtivesse passaporte europeu e funcionasse como espião. Tem razão, leitor, tem razão (talvez essa do Steve Bannon seja injusta…). Ah, mas espere aí… Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, que supostamente deveria zelar pelo interesse europeu (seja lá o que isso for!), já não cumpriu os três requisitos que enumerámos atrás? Ora vejamos.

4.1 Primeiro: Jean-Claude Juncker, em março de 2017, propôs um livro branco para preparar a UE para responder às brechas deixadas pelo anúncio do Brexit. Em pleno Parlamento Europeu, Juncker, face às divisões e descontentamento (e indecisão) dos eurodeputados, soltou a palavra que lhe ia (vai?) na alma: “Merde!” “Merde, o que querem que eu faça?” Pois bem, esta palavra descreve como nenhuma outra o estado da União Europeia – e a impotência dos seus dirigentes. De direito (como Juncker) e de facto (com Angela Merkel a liderar, embora cada vez menos). A União Europeia, na atualidade, não é mais do que o somatório de regulações (muitas pífias), é liderada por políticos fracos e incompetentes, não sabe o que é, o que quer ser, e tão-pouco sabe o que quer. Concorde-se ou não com as opões do presidente Durão Barroso nos seus mandatos, o facto é que havia um rumo, uma linha estratégica – e uma liderança. Barroso, mal ou bem, tentou criar uma doutrina de “eurocentrismo pragmático”; Juncker limitou-se ao “euromerdismo”. Daqui a uns anos, fazendo o balanço da comissão Juncker, apenas nos recordaremos do “merde” dito, alto e bom som, no Parlamento Europeu, para todo o mundo ouvir a impotência da União Europeia. Primeira condição para destruir a União Europeia – Juncker, checked. O próprio presidente da Comissão Europeia já a cumpriu.

4.2 Segundo: passadas poucas semanas, em abril de 2017, Jean-Claude Juncker deslocou-se ao Parlamento Europeu, em plena presidência maltesa do Conselho Europeu, para deixar claro que…o Parlamento Europeu é inútil. E que os eurodeputados são uns vaidosos gazeteiros: isto porque os deputados resolveram faltar à sessão do parlamento que contava com a intervenção de Juncker, tendo este dito claramente que “se fosse Merkel ou Macron, a sala estaria cheia”… Ora, mais direto e sem rodeios para caracterizar o teatro político em que se transformou a União Europeia era impossível… Nem Nigel Farage diria tanto. Logo, quanto ao segundo requisito – Juncker, checked. O próprio presidente da Comissão Europeia já a cumpriu.

4.3 Terceiro: Jean-Claude Juncker resolveu animar-se em demasia em jantar oferecido por ocasião do último encontro dos líderes dos países da NATO, em Bruxelas, ficando com o passo trocado e a balbuciar palavras para o céu. Como toda a gente sabe, os jantares oficiais têm este efeito secundário da… dor ciática. Resultado: o presidente da Comissão Europeia virou chacota mundial. Se a UE já não se dava ao respeito, desta feita alienou toda a sua dignidade. Será mais um momento que marcará historicamente a comissão Juncker: depois do “merde”, as imagens do presidente da Comissão cambaleando, sem sentido de orientação, com a sua lucidez afetada, são um retrato exato do estado da União Europeia. Uma realidade política cambaleante, sem sentido de orientação, em estado de incapacidade acidental. Logo, terceiro requisito: Juncker, checked.

5. Conclusão: afinal, não será necessário escrever qualquer manual para implodir a União Europeia. Jean-Claude Juncker já o fez: melhor, já o praticou mesmo antes de o escrever. Ou, se preferirmos, escreveu-o praticando. Doutrinou exercendo. É um verdadeiro visionário. Ouvimos dizer que está a ser criado um movimento eurocético que visa destruir a União Europeia como a conhecemos. Bem, a primeira decisão lógica (e justa) é convidar Jean-Claude Juncker para presidente ou membro honorário de tal movimento – pensamos que ninguém fará tanto pelo fim da União Europeia como Jean-Claude Juncker já fez. Brindemos, pois, a Juncker por ter chamado a atenção para as insuficiências e enormes problemas da UE… com água ou bebidas não espirituosas. A não ser que o objetivo seja o de provocar uma embriague… dor ciática à União Europeia. Parece-nos irrefutável: o politicamente correto, a tendência para ignorar problemas em vez de os discutir, a vontade de seguir no “avanço da integração europeia” sem envolver os povos europeus têm conduzido à embriaguez da União Europeia. Esperemos que as próximas europeias não sejam encaradas pelos políticos portugueses apenas como o primeiro round das legislativas, limitando-se aí a repetir velhos slogans já gastos… Aguardemos.

 

joaolemosesteves@gmail.com

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