26/9/18
 
 
António Cluny 24/07/2018
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Linguagem, democracia, direito e ação política e social

As orações ditas durante as missas católicas atuais dizem aproximadamente o mesmo que as que antes eram ditas em latim, mas são agora entendíveis por todos: os crentes e os não crentes

Li há uns dias, no “El País”, um interessante artigo de Áurea Multó, intitulado “A la Búsqueda de Conceptos”.

Sinteticamente, pretendia o citado artigo dizer que académicos, jornalistas e políticos utilizam hoje um jargão comunicativo que não é, em geral, acessível à sociedade.

A estes atores da cena social poderíamos acrescentar, sem sombra de dúvidas, os juristas: trate-se de magistrados ou de advogados e, ainda com mais razão, de professores de Direito.

Há anos, li com curiosidade e mesmo com espanto um estudo desenvolvido por magistrados belgas que pretendia demonstrar como era possível, sem perda de rigor, escrever sentenças e despachos judiciais capazes de serem acessíveis às pessoas comuns.

Nada mais soube do resultado de tal estudo até que, há alguns meses, voltei a contactar com o mesmo assunto, referido num livro de uma magistrada belga intitulado “Radicaliser la Justice; Projet pour la démocratie”.

A questão do uso da linguagem e da escolha das palavras tem necessariamente, em democracia, um sentido político forte.

Tal escolha, que nunca é arbitrária, determina em muitos casos o sentido e o âmbito da compreensão que se pretende obter com a mensagem que se transmite.

Determina o espaço que se quer ocupar e a forma como se quer preenchê-lo.

A linguagem jurídica usada nos nossos dias é disso um exemplo claro.

Louvando-se, com alguma razão, num rigor que não se quer perder, a verdade é que, de facto, o que se preserva é apenas, em demasiados casos, um espaço inacessível e de difícil escrutínio público.

Na política, por estranho que pareça, sucede muitas vezes o mesmo.

Deparei há bem pouco tempo com uma análise política bem feita sobre a situação nacional e internacional que, creio, poderia ser entendida e inclusive partilhada por muita gente.

O tipo de linguagem cerrada em que estava escrita não permitia, contudo – estou seguro –, qualquer aproximação à mensagem que se queria transmitir por parte da maioria dos cidadãos social e politicamente ativos e a quem tal análise, supostamente, deveria interessar.

A sensação com que se ficava depois de ler tal documento era a de que ele se destinava afinal, antes do mais, a um grupo de iniciados que conhecera uma linguagem que fora própria, em tempos, para enquadrar e fazer compreender uma outra realidade que então se deixava traduzir bem por ela.

É verdade que a realidade atual não é, em muitos aspetos, tão acentuadamente diferente daquela que a linguagem antiga, usada no referido documento, retratava.

Quem, de resto, tivesse conhecido os tempos da tal realidade antiga podia, pois, sem dificuldade, compreender o sentido atual do referido documento.

Só que a realidade nele retratada dá--se agora a conhecer de modo diferente porque os referentes dominantes – os conceitos – que hoje a envolvem são, queira-se ou não, também eles diferentes e a compreensão de tal realidade exige, portanto, uma linguagem mais atual e desritualizada: o uso de conceitos identificáveis por um maior número de pessoas que sejam capazes, por isso, de a revelar de modo mais claro e inteligível.

Há já mais de meio século, a própria Igreja Católica decidiu abandonar o latim para passar a expressar-se, durante as missas, nas línguas nacionais.

Fê-lo por ter tido a consciência de que se lhe impunha uma maior aproximação à realidade atual, a qual não era já explicável através do uso hermético e elitista de uma língua desconhecida da maioria dos fiéis.

As orações ditas durante as missas dizem aproximadamente o mesmo, mas são agora entendíveis por todos: os crentes e os não crentes.

 

Escreve à terça-feira

 

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