19/9/18
 
 
José Cabrita Saraiva 19/07/2018
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

"Os Maias" não são obrigatórios? E então?

Se um aluno for obrigado a ler “Os Maias” contrariado, que proveito vai tirar dessa experiência? Não tenderá a desenvolver um sentimento de aversão à obra, ao autor e, possivelmente, até à leitura em geral?

Meio país indignou-se ontem com a notícia de que “Os Maias”, a obra-prima de Eça de Queiroz, ia deixar de ser de leitura obrigatória no ensino secundário a partir do próximo ano letivo. Afinal, como o i explica na última página desta edição, já não o era, pelo menos, há 16 anos.

Entre 2002 e 2014, o programa de Português do 11.o ano previa que Eça, esse sim, fosse obrigatório, mas cada docente podia escolher qual a obra do autor que considerava mais adequada. Foi a esse modelo que agora se regressou. Mas mesmo entre 2014 e 2018 havia uma alternativa a “Os Maias” - chama-se “A Ilustre Casa de Ramires” e nem creio que seja dos melhores livros do autor.

A possibilidade de optar, quanto ao mais, parece acertada. Se um professor, suponhamos, tem uma paixão especial por “A Cidade e as Serras”, poderá com maior facilidade transmiti-la aos seus alunos e convencê-los de que é um livro que merece ser lido.

Ao mesmo tempo, o conceito de “leitura obrigatória” suscita-me muitas dúvidas - talvez, admito, porque tenha lido sempre de livre vontade...

Se um aluno for obrigado a ler “Os Maias” contrariado, que proveito vai tirar dessa experiência? Não tenderá a desenvolver um sentimento de aversão à obra, ao autor e, possivelmente, até à leitura em geral?

Lembro-me de muitos colegas do liceu, nos meus tempos de estudante, me dizerem que “Os Maias” eram “uma seca” e que já não podiam ver o livro pela frente. Será que ficaram com vontade de regressar ao seu genial autor? Tenho as maiores dúvidas.

Face a isso, não acho que nos devamos apoquentar demasiado por “Os Maias” não constituírem leitura obrigatória no ensino secundário. Pouco importa se os alunos leem “Os Maias”, “A Cidade e as Serras” ou “O Crime do Padre Amaro”. Preocupa-me mais a falta de paixão com que os nossos maiores autores são tratados na sala de aula. E, já agora, também fora dela.

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