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Sílvia Ventura. “Voar ao lado de aves e ‘dar beijinhos às nuvens’ são sensações incríveis!”

Sílvia Ventura. “Voar ao lado de aves e ‘dar beijinhos às nuvens’ são sensações incríveis!”

DR Bruno Venâncio 18/07/2018 21:04

É enfermeira, multi-campeã de parapente e a única mulher a representar Portugal no Europeu que se inicia hoje em Montalegre

Nos próximos dez dias, a vila de Montalegre, pertencente ao distrito de Vila Real, irá acolher o Campeonato da Europa de parapente. Mais de 150 pilotos oriundos de 40 países estarão em prova e Portugal não é exceção: a representação lusa reúne seis homens e uma mulher, que não tem medo de se descrever como um dinossauro da modalidade - afinal, anda nisto há 25 anos. E está como sempre quis: a voar... e a sonhar.

Começo pela questão mais óbvia: qual a razão de ser a única piloto feminina portuguesa em competição neste Campeonato da Europa? 

Fui a única a conseguir os mínimos. Para podermos ser elegíveis para o selecionador, temos de conseguir adquirir pontos resultantes de participações em várias provas, nacionais e internacionais. No ano passado, no Campeonato nacional, onde participaram 90 pilotos, fiz uma prova em que consegui uma excelente classificação (sexta classificada geral na primeira manga) e terminei em 12.º na classificação geral, por isso consegui garantir os mínimos para ser selecionável. Além de ter sido campeã nacional. Este ano já não consegui renovar o título, fui vice-campeã, por isso em princípio para o ano será outra menina a estar na equipa nacional.

E quais as perspetivas para este Europeu? Li numa entrevista sua há uns tempos que uma posição da tabela, entre o 10.º e o 15.º lugar, já seria positiva...

Sim. Tendo em conta a realidade que conheço das 24 meninas que vão competir, esse parece-me um objetivo realista. Algumas delas são de topo, a Petra, checa, já ganhou o Europeu muitas vezes; a Seiko é a campeã francesa... Elas só sabem ganhar! São realidades muito diferentes.

Em que sentido?

Em todos. Por exemplo na questão dos equipamentos. Este ano, para reforçar a segurança, passou a ser obrigatório usar cadeiras de voo que contemplem dois pára-quedas de reserva ou um à frente, que seja visível. Tive de investir muito e assim fiquei sem possibilidade de renovar a asa - que custa cerca de 3 mil euros. Num ambiente competitivo, é suposto mudar a asa todos os anos e o meu equipamento já tem três anos, tem menos performance desportiva e isso vai-me limitar muito. Aliás, tive essa perceção no Campeonato nacional, onde percebi que a minha asa baixou muito de rendimento em relação ao ano passado, e tenho de contar com isso. Todas as outras competidoras têm equipamento topo nas mãos… e eu não. Tenho uma vantagem: conheço muito bem o meu equipamento. Mas, precisamente por isso, também sei que estou muito limitada. Além de outras questões.

Tais como?

O facto de a modalidade continuar a não ter estatuto de entidade competitiva em Portugal, ao contrário do que acontece nos outros países. Portugal tem uma realidade miserável no que é a preparação de um desportista ao nível olímpico porque não pensamos a preparação! Os franceses têm faculdades, centros de estudo em que incluem o estudo académico normal e depois a modalidade desportiva. Nos Pirenéus há um centro de estudo destes. Ou seja, está-se a preparar os futuros campeões em França. Onde é que Portugal tem esta filosofia? Nos Pirenéus vemos crianças e pessoas idosas numa montanha a fazer trekking. Onde é que isso se vê em Portugal? Aqui, somos obrigados a tirar das nossas férias para representar a seleção nacional, ou tirar licenças sem vencimento. Quando chegar ao fim deste campeonato vou voltar ao trabalho e já não vou ter férias para gozar até ao fim do ano... Só queria poder representar o meu país e não ter de gastar as munhas férias ou, ao ter licença desportiva, não tivesse de ser sem vencimento. Em França, no ano em que pertencem à equipa nacional, os atletas têm uma licença desportiva: nesse ano só voam e só participam em provas e eventos, não trabalham e não perdem vencimento. Têm o apoio do governo: trabalham naquele ano unicamente para serem os melhores. Estão sempre a ser preparados psicologicamente, fisicamente e competitivamente: é assim que se fazem os campeões.

Foi por essa razão que esteve alguns anos afastada da seleção nacional?

Exatamente. Mas depois fui vendo os anos a passar e senti que, a partir de uma dada altura, as pessoas já nem se lembram pelo que nós estamos a lutar. A modalidade tem uma expressão tão pequena, tão fraca no que é o desporto a nível nacional, que já nem os dirigentes da federação sabiam porque é que eu continuava com a minha postura. Quase nem eu própria (risos). Via a vida passar e eu a perder todas as hipóteses de usufruir da selecção, de trabalhar em grupo, de melhorar, de participar nestes eventos que têm tanta importância numa carreira desportiva. Por isso, fui percebendo que era uma luta em vão. Estou quase com 50 anos, é um prazer imenso estar outra vez na seleção. Não esquecendo a minha luta e aquilo que defendo, acabei por perceber que é preferível tentar lutar estando do lado de dentro a ficar de fora.

Quando diz que o parapente tem uma expressão muito fraca no desporto nacional, é em termos de números?

Sim, somos poucos praticantes. Federados na Federação Portuguesa de Voo Livre, que engloba asa delta, parapente e paramotor, temos cerca de 700 praticantes, além de uma minoria que pratica fora da legalidade. A federação também perdeu o estatuto de entidade desportiva há uns anos - entretanto voltou a recuperá-la -, mas temos uma expressão a nível do que é a mesa governamental nas discussões políticas miserável. O IPDJ (Instituto Português do Desporto e da Juventude) distribui um x de uma verba que lhe é dada pelo governo e sobra pouquíssimo para as federações pequenas conseguirem sobreviver. Isto tudo está mal de raiz! São os tais constrangimentos contra os quais quis lutar, mas sou muito pequenina, não tenho força para lutar contra tudo isso.

Desses 700 praticantes federados, quantos são do sexo feminino?

Em 2009, quando organizei o primeiro encontro feminino, eram 60 meninas. Depois foram diminuindo; este ano, com licença desportiva renovada, eram 23 em maio. É pouquíssimo, e fica aquém do que já foi. Não sei bem porquê, já levei esse tema à federação e merece que nos debrucemos sobre ele. No entanto, curiosamente, o grupo está muito mais ativo e mais perto de um nível capaz de participar nas competições atualmente do que noutros anos. Vi meninas com muita garra, energia, vontade de fazer. Temos mais próxima a possibilidade de participar em níveis competitivos do que alguma vez até agora. São poucas, mas com muita capacidade e vontade de voar, aprender, participar nas futuras provas competitivas. No Campeonato nacional, que decorreu entre 6 a 12 deste mês, o nível competitivo foi brutal, do ano passado para este ano houve um crescimento de tal ordem que este foi apontado por muita gente como o melhor Campeonato nacional de parapente de sempre. Muita disputa, muita rivalidade saudável, enorme nível desportivo.

Dizia há pouco que uma asa custa cerca de 3 mil euros. São os atletas que têm de comprar todo o equipamento? Não há apoios por parte dos clubes ou das federações?

Não, o investimento é todo feito pelo piloto. É um investimento sem retorno, mesmo por gosto e entrega total à modalidade. Mas não é à toa que se anda cá há 25 anos, há outros retornos: emocional, o bem-estar, a competição. Conhecer outros países, outras pessoas, aterrar num sítio onde não conhecemos nada e as pessoas rodearem-nos, mimarem-nos, serem acolhedoras. A partilha de um jarro de água (ou de vinho, em Portugal acontece muito isso), ou uma boleia - a caminho de Vilar Formoso já aconteceu ficar numa terriola e ser levada para a aldeia mais próxima num trator… Há coisas que não se explicam, vivem-se.

Nem mesmo quando vence competições ganha qualquer tipo de prémio monetário?

Raramente. No calendário nacional, às vezes as câmaras ou alguma entidade local apoia e pode eventualmente dar um prémio monetário, por exemplo 100 euros. Ou em géneros: em Castelo de Vide, já houve premiação com fins-de-semana na hotelaria local, o que também é uma mais-valia. Outras vezes marcas de consumos de bens, como azeite, ou de equipamentos desportivos. Mas a grande fatia do investimento tem de ser pessoal: por nós próprios, na tentativa de obter classificações para virmos a ser selecionáveis, temos de pagar tudo do nosso bolso. Deslocação, estadia, alimentação, inscrições que são sempre caras - uma prova internacional não custa menos de 200 euros. Tudo investimento pessoal. Quando estamos a representar a seleção nacional, aí já é a federação que apoia.

A Sílvia compete em representação de um clube?

Sim, o Clube de Montanhismo da Arrábida. A competição faz-se por classificação individual, classificação por género, por clubes e por categoria de asa.

Qual é a sua asa?

Asa de classe CCC, da marca Nova, Triton 2. Cada piloto escolhe aquilo que mais se adequa ao seu estilo de voo e também às possibilidades económicas. Nestes 25 anos só voei uma vez com outra marca, e foram poucos meses. Este é o equipamento que mais se aproxima da minha filosofia de voo, é um tipo de transmissão da asa ao piloto a que me habituei muito bem. As marcas transmitem sempre um pouco do desenhador aos equipamentos, uma alma e uma característica própria. A forma como a asa transmite o que se passa no ar ao piloto, através dos manobradores, o que tenho na mão para controlar, gerir, subir o ar ascendente. É quase como se fosse o volante de um carro.

Experimentou outras marcas ao longo da carreira?

Não é muito fácil experimentar, porque temos pouca expressão no mercado internacional de equipamentos e os dealers têm alguma dificuldade em ter os modelos de todos os tamanhos para os pilotos poderem experimentar. Normalmente, tem uma asa de demonstração do tamanho que serve à maioria dos pilotos. Ora, eu sou tamanho XS, por isso tenho dificuldades em arranjar dealers que tenham equipamentos para mim, que sou pequenina e tenho baixo peso. A maior parte dos pilotos tem uma estrutura média, entre os 70 e os 80 kgs; eu tenho 50… Tenho sempre essa dificuldade. Agora pedi para a Nova - marca com que voo há 20 e tal anos e da qual sou representante em Portugal desde há quatro - me enviar um equipamento mais recente para poder experimentar, mas não me sinto bem conectada à asa e prefiro usar o que já tinha. Mas pelo menos tive essa hipótese, com outra marca não teria porque elas não mandam…

Voltando ao Europeu: esta já será a sua segunda participação, certo?

Sim. A primeira foi na Grécia em 2004. Eram 13 participantes e creio que terminei em décimo.

Desta vez a competição decorre em Portugal e pode dizer-se que essa é uma vantagem, até por ser no mesmo sítio do Campeonato nacional da semana passada...

Em termos de aerologia, o que é o voar, um dia nunca é igual ao outro, o ar é diferente todos os dias! Mas é verdade, conhecemos o terreno, estamos a jogar em casa, não temos o problema da língua, estivemos uma semana inteira a voar e estamos familiarizados com o ar neste momento. Estamos todos muito fortes, temos tudo a nosso favor. É um momento alto na nossa condição desportiva e psicológica. Temos um grupo incrível, pilotos excecionais, de alto nível competitivo - fruto de muitos anos de prática, apesar de alguns bastante jovens, como o Zé Rebelo, o Paulo Silva também na casa dos 30. É um desporto para novos e menos novos. Quando olhamos para as outras equipas, muitos deles já eu via há 20 anos nas provas onde comecei. Os pilares estão cá à mesma, para dar sustentação e estrutura às equipas. Depois há os novos, para dar a garra e o sangue na guelra que é preciso. Mas temos de ter a humildade suficiente para saber que os franceses, os austríacos, os suíços têm equipas fortíssimas.

Em que consiste realmente a competição?

No parapente há várias disciplinas. Eu não faço acrobacia nem precisão, só faço voo livre. Estamos sujeitos a objetivos específicos, passagens por balizas obrigatórias que identificamos por intermédio do GPS - a 2 mil e tal metros tenho de ativar uma rota e em altitude fazer navegação aérea. Quem fizer o percurso o mais rápido possível, ganha a prova.

De onde surgiu este fascínio pelo parapente? Ainda foi antes de se tornar enfermeira, ou já aparece depois?

Eu em criança sonhava que voava. O sonho era recorrente: saía pela janela, quase sempre à noite, abria os braços e voava. A porta da rua estava sempre aberta e eu saía a voar. Era um sonho lindo! Depois na juventude acabou - eu forçava a ver se conseguia induzir o sonho e nunca mais consegui. Entretanto, em 1993, já a trabalhar como enfermeira, um amigo perguntou-me se queria ir a uma praia ver uns fulanos a voar na praia do Meco. Curiosamente, ele depois não pôde ir e eu acabei por ir sozinha, estive a tarde inteira a olhar para eles meio assustada. Ao fim da tarde, o fulano que me parecia ser o instrutor (um armário!!!) veio ter comigo: “Está aqui a olhar para a gente? Está a gostar?” E eu muito envergonhada: “Estou, estou…” “Quer experimentar?” Eu nem queria acreditar, acho que até gaguejei: “Quero, quero!” Ele equipou-me e no meio da praia fez a descolagem: fiquei tão maravilhada que quando cheguei nem me lembrei (nem sabia, aliás) que tinha de correr para aterrar! Estatelei-me, mas era areia, não me fez mal nenhum. Nessa altura estava a juntar dinheiro para comprar uma casa, mas ao fim de duas semanas já estava a comprar uma asa!

Passados 25 anos de prática da modalidade, deverá guardar imagens fantásticas nas suas recordações...

Muitas, muitas. Voar com aves, com abutres, com águias, aos 4 mil metros de altura, chegar ao golo pela primeira vez… Ninguém chega e vinga: levei anos a aprender, a começar a participar nas provas, a fazer a primeira prova inteira… A primeira vez que cheguei ao golo foi na Serra da Estrela, fiz 34 km e fomos aterrar nas Naves de Santo António. Quando estava a chegar ao solo começo a ouvir uma gritaria, fui a última a chegar, eram mais de 30 e tal pilotos no golo e eu não me apercebia que eram eles. Quando aterrei, vieram todos festejar comigo, mal pus os pés no chão, desequiparam-me e levantaram-me no ar, eu tive mais medo de cair ao ser projetada para o ar por eles do que quando vinha a voar! Foi espetacular, nunca me esquecerei. Às vezes também temos momentos muito solitários.

Então? 

Há dois anos fiz 151 km, foi o meu recorde pessoal de distância. Voei com mais de 40 abutres, vi uma guerra entre abutres e águias! Quase com cinco horas de viagem senti-me realmente sozinha e de repente olho para o lado e estava um abutre comigo, fizemos mais 20 e tal km sempre os dois! São coisas muito fortes. Todos os dias temos experiências diferentes, ou com uma ave, ou com colegas, ou com as pessoas que estão lá quando aterramos. Um amigo meu dizia às filhas: “O papá vai dar beijinhos às nuvens”. E isso é lindo! Nesta prova de Montalegre, estivemos quase todos os dias a voar sempre entre nuvens. É das coisas mais prazerosas. Também há stress, claro, porque queremos ganhar. O voo livre é esta emoção incrível e por isso não conseguimos parar.

E como concilia a atividade com a profissão? À primeira vista, são duas vertentes bastante diferentes. 

Eu trabalho no Bloco Operatório, onde é necessário haver uma equipa fixa para garantir o trabalho normal. Trabalho todos os dias das 8 às 16 (por vezes pode calhar ter de ficar até mais tarde) de segunda a sexta há mais de 20 anos e tenho os fins-de-semana completamente disponíveis. A administração e as chefias sempre me permitiram fazer a distribuição das férias de acordo com o calendário nacional - nesse aspeto, sou uma privilegiada. O máximo que posso fazer é presenteá-los com títulos (risos)!

Algo que este ano falhou...

É verdade. Fui 12 anos consecutivos campeã, de 2003 a 2015, e depois também em 2017. E isso não é assim tão bom em termos do que representa para a modalidade, de competitividade. Mas fico muito satisfeita por ver que há mais meninas, cada vez com mais competências, a ganhar ritmo, a aparecer, a competir. É curioso: perdi o título mas não estou triste, porque é muito bom ver meninas a surgir. Há uns anos tinha muito medo, quase cheguei a pensar que se um dia não quisesse ou não pudesse participar por alguma razão, não iria haver representação feminina. Era das coisas que mais tristeza me dava. Agora já estou mais satisfeita porque acho que a curto prazo, as meninas de Mondim, da Lousã, da zona centro, de Lisboa, em breve vão começar a surgir. Um campeonato com 10 meninas portuguesas seria muito bom. A curto prazo acredito nessa realidade. Este ano foi incrível, apareceram muitos jovens na competição e incrementaram a qualidade. Nós, os dinossauros do parapente, ficámos agradavelmente surpreendidos. O nosso campeonato ficou ao nível de muitos de muita qualidade.

E a enfermagem, também era uma paixão de infância?

Na verdade, não. Eu queria ir para a Faculdade de Motricidade Humana estudar desporto, mas não tive forma de pagar os estudos e tive de enveredar por uma profissão que me desse rapidamente a independência monetária. Escolhi enfermagem porque naquela altura me parecia um mercado garantido, e também porque tinha uma tia enfermeira. Mas hoje, quando olho para trás, penso: “Ainda bem que não consegui entrar!” Hoje estaria como professora e a minha atividade desportiva seria limitada, não me podia dedicar a tanta coisa diferente e ter um currículo desportivo tão bonito como tenho. Assim faço uma coisa que adoro, ajudo o próximo, trabalho num bloco operatório onde o ser humano chega sem qualquer proteção e muito mais exposto e frágil e nós temos uma intervenção incrível junto desta pessoa. Já estive também na pediatria oncológica, uma experiência muito poderosa em termos emocionais. Ser enfermeira não é ser simpática nem meiga, é ser profissional e ter uma atitude de ajuda perante o outro que está em necessidade. Gosto muito.

Costuma falar das suas vitórias às suas colegas?

Na verdade, nem por isso. Eu sou um pouquinho reservada. Sou muito exuberante com os meus parceiros de voo, mas no local de trabalho tento não misturar muito, até porque nem há espaço para muitas outras coisas que não o trabalho. Além disso, trabalho com 40 e tal mulheres, todas mães e com realidades muito difíceis de lidar: os filhos, a gestão doméstica... são essas as preocupações das pessoas. Eu às vezes tento falar, mas rapidamente sou relegada para segundo plano porque as preocupações das minhas colegas são outras. Falar de voo livre é tão fora da realidade palpável… Mas nestes dias já duas colegas me têm enviado mensagens a perguntar como estão a correr as coisas.

A Sílvia não tem filhos?

Não. Nunca foi uma escolha pessoal e nunca calhou. O meu companheiro, com quem estou desde 1994, acompanha-me em toda esta prática desportiva outdoor: ele veio para o parapente por minha causa e eu fui para o montanhismo por causa dele. Tenho esse privilégio, somos os dois amantes de modalidades outdoor - também fazemos escalada, mergulho, kite. A minha vida é dedicada ao outdoor.

E vertigens?

Muitas. De um andar, de uma varanda. Mas a voar não! Quando estou a voar tenho o equipamento que me sustenta e tenho essa sensação. A vertigem acontece quando não estamos apoiados em nada e temos essa sensação da queda. No parapente não há, não é queda livre, onde há essa sensação da vertigem até à abertura do equipamento. Neste caso não, quando descolamos já temos o equipamento todo a puxar-nos, há logo a sensação da segurança, o pano, os fios. É esquisito, eu sei, mas é a verdade: quem tira uma vez os pés do chão e olha para o céu não consegue mais tirar isso da ideia. É incrível, é outra dimensão.

Nunca é reconhecida pelos pacientes?

Nunca fui. Já ganhei medalhas de mérito desportivo, na Gala do Desporto do IPDJ uma vez até pensei que ia encontrar o Cristiano Ronaldo, mas claro, ele fez-se representar… Não sou muito de me evidenciar, parece que estou a ser exibicionista. Não quero ter essa imagem. E nós temos um grande handicap: enquanto no ciclismo as pessoas olham para a estrada e vêem as coisas a acontecer, no nosso caso podemos ter 150 pilotos a descolar mas se não houver muito boa divulgação, as pessoas não andam a olhar para o céu e nem nos vêem passar! Às vezes, no fim de uma corrida, nós perguntamos: “Então passaram aqui 120 asas a voar, uma de cada cor, e ninguém deu por nada?” Às vezes as pessoas perguntam: “Então de onde é que você veio?” e nós, ainda entusiasmados pela corrida: “Vim a voar”. Depois a pessoa pergunta: “Veio o quê?” Depois temos de explicar bem, porque as pessoas não sabem o que está a acontecer. Não é uma corrida de automóveis, não é direto na visualização.

Qual a maior distância que já fez? E o voo mais longo?

Fiz 151 km, foram 6 horas e 40 a voar. Já me convidaram para ir ao Brasil ou à Austrália tentar bater recordes - aí, são 11 horas a voar! Mas ainda não me sinto mentalmente preparada. Estes sítios têm de ser sempre ventosos, aqui descolamos com ventos até um máximo de 15 km/hora. Nestes locais é quase o dobro, de 25 para cima. Gerir uma descolagem com uma intensidade de vento nesta ordem é muito difícil, é muito técnica. E eu, sendo muito leve e tendo uma asa pequenina, é-me bastante complicado. Já tive convites para integrar equipas destas, mas ainda não me sinto atraída para o fazer. Já estou mais do que já estive - este ano já ponderei começar a preparar-me para o ano talvez fazer parte de um desafio deste género. Mas ainda não sei. É preciso um à-vontade para aterrar no nada, passar uma noite até ser resgatada pela equipa, porque estamos a falar de voos na ordem dos 500 km de distância. Muitas vezes aterra-se em zonas onde não há estradas, não há vilas ao redor. É fácil sermos roubados, passarmos noites ao relento sem ser encontrados… Um evento destes leva um ano a ser preparado, fisicamente, em termos de rotas… Por agora, vamos ver como corre o Campeonato da Europa.

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