25/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 18/07/2018
Carlos Zorrinho
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Uma escolha de vida ou morte

As próximas eleições europeias serão, antes de tudo,um megarreferendo à continuidade do projeto europeu

Os referendos têm sido momentos de boa democracia e má memória para aqueles que, como eu, têm dedicado uma parte significativa da sua vida cívica e política a pugnar por uma União Europeia (UE) mais forte, mais afirmativa no mundo global e mais capaz de responder aos anseios das suas populações.

O Tratado Constitucional da União Europeia, desenhado na Convenção sobre o Futuro da Europa e concluído em julho de 2003, assinado pelo Conselho Europeu de Roma em 29 de outubro de 2004 e anulado em França, com o não no referendo em 29 de maio de 2005, é o melhor exemplo de desaire referendário-chave. Em 23 de junho de 2016, noutro momento de grande significado, o Reino Unido iniciou um processo de saída da UE na sequência de uma consulta popular direta.

Embora a democracia esteja cada vez mais vulnerável a manipulações, o povo tem sempre razão e as suas escolhas soberanas devem ser respeitadas. As opções de alguns povos europeus contra os ideais europeus são um sintoma de que a maioria dos eleitores perderam a confiança na forma como o projeto tem sido conduzido e atribuem a ações da UE a culpa por problemas e constrangimentos que resultam antes da inação e da incapacidade institucional e política de avançar de forma mais determinada e solidária.

O crescimento geométrico do peso político dos populistas antieuropeus, a entrada da extrema-direita nacionalista num número cada vez mais significativo de coligações de governo e a queda da Itália nas mãos de Matteo Salvini são sinais que deixam antever um confronto de titãs nas eleições europeias de maio do próximo ano.

Os impasses que vão tolhendo a união farão com que as próximas eleições europeias, não deixando de ser fundamentais para escolher um programa político maioritário de raiz mais liberal, democrata-cristão ou social-democrata, sejam no entanto, primeiro que tudo, um megarreferendo à continuidade do projeto europeu.

Como já se percebeu pelas diversas movimentações entre os múltiplos líderes populistas e nacionalistas, estes preparam-se, com cinismo e ironia, para se fazerem contar de forma agregada nas próximas eleições europeias. Se atingirem mais de um terço do número de eleitos no futuro Parlamento Europeu, constituir-se-ão como uma poderosa força de bloqueio. Se a escolha dos eleitores lhes der um número de representantes que se aproxime dos pró-europeus ou os ultrapasse, isso marcará o fim da União Europeia.

O próximo ciclo institucional na UE não será um ciclo de continuidade. A dimensão e o sentido da rotura necessária será definido desde logo pelo resultado das eleições europeias de maio de 2019, o “megarreferendo” mais importante da história da união.

Os nacionalistas e os populistas estão no terreno a fazer o seu trabalho de desconstrução e desmantelamento, com grande empenho e cooperação entre eles. É fundamental que as famílias políticas pró-europeias tenham também a capacidade de se prepararem para o combate com programas mais modernos, candidatos reconhecidos e credíveis à presidência da Comissão Europeia e respostas concretas para recuperar a confiança dos cidadãos.

As eleições europeias de maio não decidirão apenas quem governará a UE. Decidirão da sua viabilidade futura. São, sem exagero, uma escolha de vida ou morte.

 

Eurodeputado

 

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